A força política da religião: o caso dos evangélicos
Natal, RN 23 de jul 2024

A força política da religião: o caso dos evangélicos

17 de fevereiro de 2018
A força política da religião: o caso dos evangélicos

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Numa conversa com o jornalista Rafael Duarte sobre o papel que a religião desempenha na política, tentei mostrar a ele o quanto esse aspecto é pouco explorado, tanto na mídia como na academia, nesse último caso por puro preconceito. A conversa seguiu animada, e ele acabou, mui gentilmente me convidando para escrever no Saiba Mais.

Fiquei honrado com o convite, mas preocupado em aceitá-lo, pois há alguns anos venho me dedicando ao discurso acadêmico do assunto, e quando falo sobre isso, as pessoas começam me olham como se eu estivesse falando uma outra língua. Na verdade, não se trata de outra língua, mas é um conjunto de gírias que acabam tornando nossa fala acadêmica privativa dos pesquisadores.

Estava para desistir quando me lembrei de um velho conhecido, que havia se tornado evangélico nos anos 90, e que era muito metido nesse meio. Se eu o encontrasse, ele poderia me atualizar sobre o que está acontecendo nesse universo do qual ando meio distante ultimamente.

O nome dele era João. João Pimenta, e graças às redes sociais, pude novamente travar um diálogo com ele. Lembramos de nossas primeiras conversas, quando eu pastoreava a Primeira Igreja Batista de Natal. Entre 4 de fevereiro de 1996 e 16 de fevereiro de 1997 publiquei no boletim dominical da Igreja, 20 pequenos textos inspirados nessa figura tipicamente evangélica. Fiquei feliz em poder recorrer ao João, visto que fiz observações sobre sua vida desde quando era um rapazola em Lagoa Seca, e se alegrava realizando pequenas tarefas para os donos de bares ou para seu pai, recebendo invariavelmente safanões como pagamento. Narrei seu envolvimento com drogas proibidas, sua conversão e as mudanças pelas quais passou.

Posteriormente, João conseguiu emprego, casou-se, teve um filho… perdeu o emprego, entrou em crise conjugal, se afastou da igreja. Depois retornou com outra postura, conseguiu novo emprego e se mudou para Felipe Camarão. Tivemos muitas conversas interessantes sobre razão e emoção, sobre espiritualidade de fachada, etc. Ele sabia de meus textos, e não se importava, pois eu mantinha sempre assegurada sua privacidade.

Estava muito curioso sobre como estava João agora. Ele frequenta outra igreja pentecostal, diferente da que frequentara no final dos anos 90. Fui sondando para saber como era sua igreja atual e como ele se encaixava lá, pois sabia que João, sempre fora crítico da postura supostamente apolítica de sua igreja.

Sobre esse ponto, não senti muito progresso na vida de João. Ele não concordava com o fato de muitos membros de sua igreja, inclusive líderes, defenderem “aquele nazista do Boslonaro”, como dizia ele. Fiquei animado, e perguntei, “então você está envolvido com a Frente Evangélica pelo Estado de Direito?” Ele nem sabia do que se tratava. Expliquei que era um grupo surgido em meio ao processo do golpe contra a Presidenta Dilma, e que haviam assinado um manifesto com 5.000 assinaturas de evangélicos. Depois do golpe, o grupo resolveu se constituir numa frente permanente de luta pelo retorno à democracia.

Ele me respondeu: “sei não… acho que isso é coisa de petista”. Assegurei-lhe que a frente não estava vinculada ao PT, mas fiquei curioso com sua referência aos “petistas”, num tom ressentido. Ele argumentou que a situação no Brasil estava desse jeito “por Dilma ter convidado esse Temer para ser seu vice”. Contra argumentei evangelicamente que até Jesus teve um Judas como discípulo. Não deu certo… ele não gostou de comparar a presidente deposta com Jesus. “Não estou comparando Dilma com Jesus, mas Temer com Judas”, respondi. “Traição é traição, acrescentei, não importa contra quem. Pense em Joaquim Silvério dos Reis.” “– Quem?”, perguntou e eu respondi: “O companheiro de Tiradentes que o entregou aos portugueses”. Ele só levantou uma das sobrancelhas no imoji.

Resolvi mudar de assunto. Estava interessado em conhecer como tais discussões ocorriam na igreja de João. Ele me explicou que raramente essas questões eram trazidas nos cultos ou reuniões de oração. Tudo ocorria nas conversas face a face ou pelas redes sociais. Tinha gente de todo tipo na igreja, mas a maioria era bem conservadora, inclusive o pastor.

Tentei mostrar a João o quanto era importante o papel dos evangélicos para o processo político brasileiro, e isso não era de hoje. Em 1990, o cientista político evangélico Paul Freston publicou na revista Ultimato um artigo no qual mostrava que a diferença de votos que levou Collor a derrotar Lula nas eleições de 1989 era quase igual à diferença entre evangélicos que votaram em Collor e em Lula, o que o fez concluir que foi o voto evangélico que colocou Collor no poder. Isso causou muita discussão na época.

Hoje em dia, expliquei a João, a situação é ainda mais complicada: o Brasil estava no senso de 2010 com 22,2% de evangélicos, tendo crescido 61,45% em 10 anos. Atualmente, o instituto Datafolha calcula que o número tenha chegado a 29% da população, o que corresponde a 60 milhões e quinhentos mil evangélicos! Perguntei: “Será que dá para ficar em cima do muro numa situação como essa? Você fica calado, e a igreja vai se tornando cada vez mais defensora do nazista do Bolsonaro, como você mesmo diz”.

Ele tentou me demonstrar que isso se devia em primeiro lugar ao momento de imoralidade que cresce em toda parte, e o ‘Bolsonazi’ representa para muitos evangélicos uma forma de estancar essa onda. “Além do mais, acrescentou, o pastor (ele ainda insiste em me chamar de pastor) não mora na periferia e não tem que enfrentar a violência em que estamos envolvidos”.

Concordei que a violência era muito grande, mas que estava espalhada por toda parte. Não era “privilégio” da periferia. Além do mais, perguntei, o que a igreja está fazendo para enfrentar essa situação de violência? Não faz nem 10 anos que o Pastor Edmilson, lá de Felipe Camarão, foi assassinado durante um culto de oração no monte. De lá para cá, o que mudou na postura da igreja? Não fez nada, e agora quer votar no Bolsonazi para ele resolver tudo?!”

O João percebeu minha indignação, e com muita educação, preferiu não replicar. Acho que se o fizesse, teria que desenrolar uma série de ações, como a criação da Associação de Líderes Evangélicos de Felipe Camarão (ALEF), os trabalhos de ação social, os centros de recuperação... e eu teria que me calar. Mas João não disse nada sobre isso, apenas me convidou para visitar seu bairro e sua igreja. É isso que eu vou fazer, pois realmente não é justo eu ficar falando sobre os dramas, sofrimentos e alegrias de uma pessoa, e de sua realidade de fora. Marquei para visita-lo depois do carnaval.

Sei que por mais de 20 anos João luta para ser um cristão autêntico. Tem tido avanços e recuos em sua fé, e em sua vida como um todo, como aliás, todos os seres humanos. Mas, o que me impressiona em pessoas como João é que elas compõem o tipo raro de gente que consegue dedicar toda sua vida a uma causa. Talvez não cheguem jamais a serem ungidas a postos de liderança, ou tenham seus nomes reconhecidos, mas sua capacidade de sintetizar ideias em forma de vida é uma semente de transformação, e um signo de esperança para este estado de exceção em que vivemos, e para um mundo em perigo. Ele me lembra aquele trechinho da Bíblia sobre alguém que só queria abrir espaço para a luz: “O nome dele era João”.

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