O que eles tentam matar junto com Marielle?
Natal, RN 13 de jul 2024

O que eles tentam matar junto com Marielle?

16 de março de 2018
O que eles tentam matar junto com Marielle?

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Era fim de outubro de 2016 e final de tarde no Rio, sem fôlego subíamos uma ladeira íngreme para alcançar o morro Cerro Corá, na Zona Sul. Após uma panfletagem da campanha eleitoral, onde Marcelo Freixo concorria ao cargo de Prefeito, todos paramos ao pé de uma encosta. Lá, várias cadeiras estavam posicionadas para um debate sobre a cidade e as alternativas para ela. Sentada estava Marielle, figura que nunca tinha visto pessoalmente, mas pela qual já tinha fascínio por sua trajetória e por todos os símbolos que carregava.

Ninguém ali conseguiria conduzir de melhor forma aquela conversa que disputava atenção, de um sábado de descanso após uma semana de trabalho, com uma festa na quadra da comunidade. Um grupo de moradores parou para ouvir Marielle e ela prendia a atenção de todos, se reconhecia neles e era reconhecida por eles. Voz vibrante, forte, engraçada. Achei aquela cena poderosa, homens e mulheres negras debatendo política do seu jeito, nos seus termos, iguais. Não eram camaradas da universidade com respostas prontas, nem medalhões da política. Era a periferia falando com a periferia. Com leveza, ela apresentava sua história e os moradores suas demandas. Era uma imagem que nunca tinha visto antes. Esse dia nunca mais saiu da minha cabeça.

Uma imagem poderosa, pois estava ali a política que eu acredito, das causas que acredito, com a cara que eu acredito. Não tinha como ser indiferente a ela, pois sua existência desafiava tudo o que tinha de tradicional na política, de igual. Era uma pioneira como outras mulheres negras que também ocuparam à força esse lugar, ainda dominado por oligarcas brancos. Dava a impressão de que seria só uma agora, mas que muitas como ela não demorariam a ocupar o seu lugar de direito. Emanava esperança pura.

E como eles temem quando a esperança cresce na gente, né? Tentam nos arrancar se chegamos lá, nos matam quando chegamos lá. Ainda não perceberam que o caminho aberto por companheiras como Marielle é uma estrada sem volta, não conseguem matar essa esperança. Essa que martela na nossa cabeça, que faz a gente delirar com um mundo onde gente do povo, com jeito de povo, vai ocupar o poder para nunca mais deixar.

Tínhamos, talvez, a ingênua impressão que os 46 mil votos que Marielle recebeu serviriam de escudo contra esse genocídio cruel que faz o sangue negro escorrer pelas ruas do Rio e por periferias de todo o Brasil. Ela nunca esteve imune, pelo contrário, numa conjuntura tão agressiva, corajosamente denunciava a violência policial e o obscurantismo de uma intervenção militar racista e perversa. Era alvo. Incomodava quem por muito tempo agiu sem temer. O Estado de Direito que nunca chegou na favela, não existe nem quando a favela rompe barreiras e alcança um lugar ainda distante para a maioria de seu povo.

Estamos tristes por tudo que esse ato significa, entendemos o recado que eles querem passar, o que tentam matar junto com ela. Eles acharam mesmo que a morte de Marielle Franco causaria silêncio, medo, mas nove tiros nunca vão conseguir matar o que ela deixou vivo na nossa mente. Marielle segue viva, pois eles ainda não conseguem matar esperança usando armas de fogo.

João Victor Leal (o segundo, agachado) e logo atrás, em pé, a vereadora Marielle Franco

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