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14 de abril de 2018
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Quanto acontece em um mês? Guerras são declaradas, novas injustiças são cometidas, a vida vai empurrando novas prioridades e o tempo vai cobrando nossa atenção para elas. Contudo, existem fatos de tanto poder que fazem o tempo, essa medida tão desigual e relativa, parar em seu ciclo. Não somem da cabeça, ficam ali em estado de espera. E o tempo passa, mas aquele sentimento não. Os tiros naquele dia 14 de março abriram como uma brecha no tempo, tornando aquela data  impossível de ser contada como um dia comum, apenas mais um. Forças paralelas tentaram pelo bruto parar a voz negra da favela, mas das vozes que nasceram da resistência, não pode se esperar silêncio. A resistência é fruto do grito, nunca do medo. E como gritaram seu nome desde então.
Seguiram nos dias perguntando quem era aquela mulher, qual a razão de tanta gente incomodada com sua morte, os mais quentes choravam a vida perdida, os mais frios buscavam notícias para tentar encaixar imagem, tão poderosa e incomum, no valão do nosso preconceito contra a periferia.  Maior que tudo isso, a imagem que sobreviveu foi a de mulher de cabelos crespos, altiva, de voz poderosa e de figura alegre. Reproduzida aos milhares de posts, coladas nas paredes, desenhada nas camisas, pintadas com grafite. Presente.
O que aconteceu com ela foi triste, mas a imagem que tenho dela não é a de tristeza. É a imagem do país que insiste em desafiar o status quo, o Brasil teimoso, desse que não aceita o tal ponto de chegada traçado pela ciência, quase exata, da desigualdade. O dia 14 de março não se apaga, pois nove tiros se tornaram a antítese do medo que queriam provocar.  Mais mulheres negras conheceram ela, mais jovens da periferia gritam seu nome todos os dias e pedem justiça. Apesar de única, todos buscam outras iguais, e de grito em grito vão se conhecendo outras grandes mulheres paridas na luta e nascidas para defender aqueles que o ódio, todos os dias, tenta negar a defesa.
Aquele mal estar que seguiu a notícia ainda tá aqui, talvez fique até mesmo depois de acharem os provocadores. Penso que dias como esse são dias em que medo e esperança, tão insolúveis quanto óleo na água, conseguem se misturar e formar um novo sentimento, de pura resiliência. Não queria que nossas esperanças fossem celebradas como mártires, quero nossas esperanças vivas, ao nosso lado, movendo estruturas, mudando a realidade, ocupando o espaço que é nosso por direito, espaço escondido de nós, mas que de Marielle em Marielle vamos tomando de volta.
 O grito ecoa, o sorriso está marcado no muro abandonado, de lá não se apaga, da nossa mente também não. A flor nascida no subsolo, cresceu, rompeu o asfalto duro, quente, maltratado. Embaixo da terra suas raízes ficam mais fortes, consegue como toda boa flor, em meio ao convívio com todo esse caos, fazer com que paremos para apreciar sua beleza e a proeza de existir em meio ambiente tão hostil. O vento espalha suas sementes e ela ja já nascerá rompendo o chão em outros lugares, tão logo será impossível de não ser notada, pois estará em todo lugar.
“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.”  - Carlos Drummond de Andrade

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