OPINIÃO

O fantástico dia do pseudo fim da corrupção no Brasil

– E como amanheceu Brasília? – a pergunta me acordou pelo whatsapp, vinda de um amigo que há muito não dava notícias.

De fato, queria saber do clima na capital federal, tão somente.

– Apesar de o tempo bom, parece que todos estão meio cinzas por dentro… – respondi, ainda sob efeito do sono, que tentava, a muito custo, impedir que o dia começasse, com toda aquela dura realidade lá fora.

– Todo mundo, não, né? Infelizmente… – disse, fingindo empatia.

– É. Há sempre pessoas realmente secas, em quem não cabe uma nuvem sequer… – concordei, com o coração nublado, sujeito a chuvas fortes….

– That´s all! – encerrou a conversa, como se aquilo fosse mesmo tudo que havia para falar.

Mário Ledo Ivo engano, como diz a crônica do amigo Alex de Souza, em terminologia tão perfeitamente inventada para o equivocado personagem. Levantei e tomei um banho, imaginando que a água, talvez, despertasse a tempestade que precisava cair, com ventos que nos levassem, sem escalas, até dias melhores.

Definitivamente, aquilo não era tudo, ainda que muitos acreditassem e comemorassem como se fosse o fim da escuridão, como se agora o céu azul anunciasse um verão fora de época, um novo tempo que encerrasse, naquele cinco de abril de 2018, toda e qualquer corrupção no país.

Enquanto uns chovem calados, outros saúdam a este pseudo sol que acham estar brilhando agora. Para adiantar o dia, num atalho até a noite, apresso o passo até a estação do metrô. Há pessoas que, encharcadas, se arrastam, em passos lentos e pesados, sem vontade de continuar o caminho. Outros saltitam, fazem piada, como tudo que é ruim na vida do brasileiro acaba virando…

Já no vagão, olhares fixos nas telas da vida de cada um, todos os lugares tomados pelo silêncio de sempre, intensificado talvez, regado a fones de ouvidos que brotam dos celulares e operam como máscaras de oxigênio em casos de despressurização do mundo exterior.

Já no fantástico mundo da tela, irmãos brigam entre si, pais e filhos fazem juras de morte, e amigos são excluídos da vida uns dos outros, como aquela arenga antiga com direito ao tradicional “corta aqui”, traduzido como o grande poder do “bloqueio” nas redes sociais.

O clima nas ruas é de dia seguinte a uma partida de final de Copa do Mundo: de um lado, os que acham ter vencido séculos de corrupção; de outro, os que acreditam que o único que poderia vencer a corrupção, acaba de ser derrotado.

A cor cinza vai tomando conta da gente, envolvendo cada movimento, até paralisar completamente. E sei que isso não acontece só na capital federal. É que Brasília é esse pequeno Brasil, com todas as castas do facebook postas à prova, diariamente.

Por trás do nevoeiro que embaça, em meio às diferentes visões, a maltratada democracia está na alma de quem lutou por ela, e, mesmo semi-derrotado, ainda espera, e sonha, com o dia em que seremos mais do que apenas um voto nas urnas na época da eleição. Entenderemos que precisamos ser melhor que isso.

E que não adianta votar nulo, porque isso só faz tudo continuar como está, e ainda custará muito aos cofres públicos, se implicar em convocar novas eleições; que optar por um ditador não vai exterminar a corrupção e a violência de um país, mas, pelo contrário, pode nos fazer voltar milhões de casinhas na história da evolução social e política brasileira; e buscar um salvador da pátria não transformará, instantaneamente, a tal pátria em um lugar melhor;

Precisamos nos apropriar da democracia que quem está preso agora lutou para existir. E exercê-la da melhor forma possível, a cada minuto do dia, em honra de quem chegou até aqui… E cabe a cada um de nós, em Brasília, Natal, metrô ou de busão, desafiar a inércia e seguir em frente, entendendo que respiramos política, mesmo que digamos odiá-la ou tentemos ignorá-la. Mas ela existe, está aí, e move nossas vidas, do raiar até o pôr-do-sol.

Portanto, amigo equivocado, devo informá-lo que “that isn’t all”… Na verdade, isso é apenas o começo…

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