A TV não é mais a (única) dona da verdade
Natal, RN 16 de jun 2024

A TV não é mais a (única) dona da verdade

28 de maio de 2018
A TV não é mais a (única) dona da verdade

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“Deu na televisão”! Era o suficiente para dirimir quaisquer dúvidas sobre a veracidade de um fato cotidiano. “Deu no Jornal Nacional”, então, encerrava qualquer disputa entre Seo Luiz, meu avô, e o vizinho da frente (difícil dizer qual dos dois era mais teimoso). Seo Luiz, comerciante no interior da Paraíba, veio morar na capital “depois de velho”, deve ter ouvido muito rádio sentado atrás do balcão da sua mercearia. Na cidade grande, deve ter conhecido a internet de relance, mas duvido que tenha se interessado em entender o que era aquilo.

Lembrei dele nesta sexta-feira. Na TV, repórteres e apresentadores passaram o dia contando as histórias da greve dos caminhoneiros. Bloqueios nas estradas, pneus queimados, falta de combustíveis, redução da frota de ônibus, tropa de choque nas ruas, pronunciamento do presidente, forças armadas para resolver tudo. Não, pera! Faltava combustível para deslocar as forças armadas. Não, pera! Chama a polícia e leva combustível para o quartel. E um repórter esbravejava o absurdo que era a tal greve, e o direito de ir e vir, e a população que não dá apoio para esse tipo de ação.

Corta para a internet, os motoboys param a via em solidariedade aos caminhoneiros. O MST vai para a estrada fazer comida para os grevistas. Nos grupos de whatsapp, correntes para arrecadar mantimentos para apoiar os motoristas nos bloqueios da estrada. Greve ou lokaute? Opiniões para todos os lados. Memes, muitos memes. Até a Sula Miranda e Waldick Soriano apareceram para garantir um sorriso no fim do dia.

Corta pra minha cara de espanto quando minha mãe, a filha de Seo Luiz, me pergunta se é tudo isso mesmo, ou se a imprensa está fazendo terrorismo para justificar o tão anunciado golpe dentro do golpe. E não é só ela. É cada vez mais comum ouvir por aí, num ônibus, no meio da rua ou em conversas entre amigos, críticas diretas às verdades vendidas pela televisão. Ainda que a mídia brasileira siga organizada em um monopólio coeso, claramente não detém mais o monopólio da verdade.

A circulação de informações passou a operar com mais força através de lógicas alternativas com as mídias sociais e os mensageiros instantâneos. As verdades chegam ao grupo da família, de amigos, a qualquer hora com linguagem simples, além de agilidade e proximidade que sempre faltaram à mídia tradicional brasileira.

A TV nunca conseguiu colocar o pé no chão da realidade brasileira. Não que tenha tentado. É que esse nunca foi o real objetivo dessas empresas, que operam muito mais para consolidar as verdades que interessam aos operadores invisíveis do mercado ou para justificar medidas políticas intragáveis para a população. As “verdades” que passam na TV representam uma parcela muito pequena dos brasileiros – os que nunca precisaram pisar o chão.

Agora, um cidadão comum – desde que esteja conectado à internet – tem acesso à diversidade de fontes, um direito negado por muitas décadas pela mídia. Ele pode comparar, questionar e até mesmo negar o que vê na TV. Ainda que por caminhos tortos, muita gente aprendeu a ler, ver e ouvir a mídia com um olhar crítico.

Agora, antes que seja tarde de novo, precisamos aprender a identificar, escolher e ler essas novas fontes para não cairmos nas mãos dos novos donos da verdade – ou da pós-verdade!

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