O outro lado do paraíso ?
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O outro lado do paraíso ?

17 de maio de 2018
O outro lado do paraíso ?

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Há algumas semanas, ao refletir sobre a TV aberta e seu significado para a sociedade brasileira, confessei que vejo televisão por acreditar que, na condição de socióloga e historiadora, como pessoa atenta aos movimentos da politica e da cultura na nossa sociedade, não poderia me furtar de ver TV.

A televisão é um importante filtro através do qual sentimentos e atitudes das pessoas comuns do cotidiano são refletidos, problematizados para o “bem ou para mal”, mas é sempre uma vitrine. Afinal, se é verdade que a arte imita a vida, é também cada vez mais verdadeiro que a vida imita a arte, uma vez  que os modelos de comportamento, de beleza, de ideal de vida que se promovem nas novelas, especialmente as globais, funcionam como termômetro do que se consome na dita cultura de massa.

Ciente de tais fatos, busco acompanhar minimamente uma novela (geralmente a global do horário nobre) e ao menos um telejornal, até porque quando não o faço sou cobrada pelas audiências das minhas inúmeras palestras Brasil afora, que sempre me indagam como estou vendo a maneira como tal ou qual problemática é invocada na TV aberta. De modo que se tornou um imperativo da minha prática profissional de docente e ativista ter algo a dizer acerca da maneira como determinadas questões são abordadas na televisão, especialmente no que diz respeito à questões relativas ao gênero.

Então, queria registrar umas breves palavras sobre a novela global que terminou na última semana, “O outro lado do paraíso”. Para além de qualquer questões relativas à péssima narrativa da novela, tais como personagens que sumiram e não tiveram final, roteiro contraditório e cheia de furos – que nem o grande e qualificado elenco da novela conseguiu salvar, e a absoluta falta de fidedignidade das cenas que simulavam situações policiais, judiciais e mesmo relações profissionais  do cotidiano, que tocar em pontos relativos à função social do ato de contar uma história.

Walcyr Carrasco, homossexual que parece não ter nenhuma sensibilidade com a própria questão LGBT, desfilou estereótipos dos mais grosseiros e rasteiros acerca de grupos sociais vulnerabilizados, produzindo imagens de mulheres profissionais do sexo e homossexuais ora como seres que pela bizarrice e irrealismo de suas representações, sequer podem existir na vida real, ora dentro das representações mais ordinárias acerca desse público, ajudando em grande medida a reproduzir e perpetuar os preconceitos  sobre temas já tão maltratados.

Serei objetiva e começarei a citar alguns exemplos. No que diz respeito ao núcleo do bordel, por exemplo. É inaceitável a maneira absolutamente romantizada e fora do contexto real de exploração sexual que é a realidade da vida de mulheres em regiões rurais do Norte, Nordeste, Centro Oeste do Brasil. Como diz a expressão popular, “só em novela mesmo”. O retrato do bordel que Carrasco pintou para nós era de um lugar afetuoso, que protegia as mulheres e onde as chances de casamento (reduzindo o ideal de vida e felicidade feminina a isto, ao casamento, como se cinco décadas de militância feminista pouco importasse ao autor misógino).

Em vários e não poucos momentos da narrativa, a condição de vida de mulheres que viviam num bordel, cujos principais clientes eram garimpeiros (outro público deveras sacrificado e explorado) era absolutamente  glamourizada, chegando mesmo à representação absolutamente irreal e anacrônica de vermos prostitutas profissionais de bordel, todas prometidas em casamento, todas de uma só vez reproduzindo o destino de Amélia.

Em nenhum momento a narrativa insinuou a possibilidade de ascensão profissional ou social dessas mulheres rumo à superação da realidade da exploração sexual a partir de um trabalho social de uma Ong, ou mesmo de uma política pública qualquer. Afinal, quantas meninas deixaram de se prostituir por um prato de comida nas estradas do interior do Brasil depois do bolsa família?

A novela perdeu a chance de problematizar um grave problema, a exploração sexual das mulheres em prostíbulos de beira de estrada, com toda sua realidade violenta e nada glamourizada, optando por traçar um retrato que é não só moralista, pois concebe que felicidade feminina só pode vir pelo casamento, como irreal, visto que violência física e exploração econômica é que são de fato a realidades dessas mulheres.

Sobre a questão LGBT, então, a abordagem foi ainda pior.  A novela começou com um médico vilão, que tinha sua vilania associada ao fato de ser um “enrustido”, ou seja, um homossexual não assumido. No decorrer da trama, desmascarado, resolve assumir socialmente a condição de LGBT. Quando a audiência tem como já superado o episódio, o autor nos brinda com uma “volta para o armário”.

Num episódio que flertou perigosamente com a maldita “cura gay”, vários capítulos foram perdidos sem que o grave problema da violência contra os LGTBS fosse sequer citado (estamos no país campeão de violência homicida contra LGBTS em todo o mundo) ao passo que abusou o autor das representações estereotipadas, bem longe da coerência, consistência e realismo que tinham os personagens LGBTS da novela antecessora da Gloria Perez para ficar apenas nessa comparação.

O médico que se assumiu gay voltou pra o armário para, no final, finalmente, em tese ao menos, aceitar-se como tal.  O outro “núcleo gay” teve um final ainda pior. Depois de passar a novela inteira reproduzindo clichês vazios de significado (um dos personagens sequer era capaz de iniciar uma fala sem dizer que era “Marcel que caiu do céu”, bordão de uma pobreza sem precedentes). O  final dos cabelereiros do salão da Nadja (Eliane Giardini) foi absolutamente péssimo. A cena de contratação de dois novos cabelereiros para o salão deixa claro que o critério de seleção utilizado não era competência profissional, e sim assédio sexual. Ou seja, ajuda a perpetuar o estereótipo preconceituoso de que homossexuais são por definição assediadores, coisa que nós sabemos não ser verdade, até por que os estudos mostram que os grande abusadores sexuais da nossa sociedade são homens tidos por heterossexuais.

Péssimo, pressupõe que os homossexuais, os LGBTS em geral, são pessoas dominadas pelo desejo sexual, incapazes de separar racionalmente as múltiplas dimensões da vida social, levando o assédio sexual a ser considerado prática normal no ambiente de trabalho. Lamentável, ainda mais vindo de um autor que é homossexual conhecido.

É graças à postura como a de Carrasco, que preferiu ser carrasco de seu próprio publico, sacrificando no altar da audiência a oportunidade privilegiada de dialogar com a sociedade em outro tom, que nossa “classe”, os LGBTS, continuam sem ter suas principais demandas atendidas. Desde que a arte é arte e se entende como tal, ela tem uma função social de crítica e mesmo intervenção na sociedade, no sentido de problematizar, denunciar injustiças sociais, raciais, de gênero, sendo o espelho de um ideal de sociedade mais civilizada.

É triste quando, numa sociedade como a nossa que sabemos que a imensa maioria das pessoas não lê um livro e só se informa via TV e blogs sensacionalistas, constatamos que se perde a oportunidade de se produzir um debate rico, fidedigno, transformador no horário nobre. E não é só uma questão de audiência, pois Gloria Perez, volto a citar, produziu uma narrativa super consciente e politicamente correta acerca do tema LGBT e mesmo assim foi um sucesso. Então, sucesso não se conquista só expondo os vulnerabilizados ao ridículo, mas sim lhes dando protagonismo e denunciando as histórias de dor e sofrimento que são sua realidade cotidiana.

O racismo na novela do Carrasco foi outro problema pessimamente discutido. Além do absurdo fato de só existirem três pessoas negras num elenco de mais de 30 atores (nas outras novelas que têm a desculpa de serem épicas é ainda pior). Inúmeras injúrias raciais graves passaram batidas na novela, culminando com o nascimento de uma criança negra que foi rejeitada pela família branca e depois tomou um “chá de sumiço” com a mãe, de modo a sequer merecerem um final, o desfecho de sua história. O Quilombo, então, era formado por uma única pessoa: a personagem de Zezé Mota que só aparecia pra curar alguém, ou seja: ela mesma não tem uma história digna de ser contada, sendo apenas um apêndice de outras histórias.

São tantos e tão absurdos os exemplos que eu poderia citar que não vou abusar da paciência do meu leitor. Caminho para a conclusão deixando no ar a crítica de tais narrativas. Os autores, os atores, diretores, fazedores de arte, imagens e, por que não dizer, sonhos, precisam se reciclar urgente e melhorar não só a qualidade técnica da narrativa que nos contam todas as noites, como sintoniza-las com ideias civilizacionais de respeito às diversidades e aos direitos humanos, pois se a arte imita a vida e a vida imita a arte, a novela é para o nosso povo mistura de arte com entretenimento e “escola de vida”.  É importante que a mensagem que fique ao final seja uma ode ao respeito, aos valores democráticos, à valorização da vida humana em toda sua diversidade.

Esperamos que João Emanuel Carneiro tenha mais sucesso nessa empreitada. E que nesse 17 de maio, Dia Nacional de Combate a LGBTfobia - legado do segundo governo Lula - e também Dia Municipal de Combate a LGBTfobia de acordo com lei de 2009, da então vereadora e atual pré-candidata à deputada estadual Sargento Regina, que nossa luta, que é todo dia contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia possa finalmente triunfar na construção de uma sociedade que tenha no respeito à todas as diversidades, especialmente as de gênero, um paradigma a ser vivido cotidianamente.

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