OPINIÃO

Uma cidade sem dinheiro

Quando surgiram os caixas eletrônicos, foi uma inovação que de fato facilitou nossa vida, tendo em vista que na imensa maioria dos vínculos empregatícios os trabalhadores não tem possibilidade de receber seus pagamentos em espécie, tendo obrigatoriamente que receber seus vencimentos (mesmo contra sua vontade pessoal, às vezes) em bancos.

Quando os caixas eletrônicos 24 horas surgiram, foi um alento para facilitar a vida dos usuários do serviço bancário. Houve até um certo boom. Me lembro de meados da década passada quando era possível encontrar caixas eletrônicos 24 horas em centenas de estabelecimentos comerciais e públicos.  

Nada demais nisso, não é essa a promessa do capitalismo e da modernidade? Que a tecnologia vai facilitar nossas vidas ? Pois bem, em relação à situação do serviço bancário prestado através desse tipo de procedimento, o caixa eletrônico (importante lembrar que antes da era dos caixas eletrônicos os usuários tinham que fazer todo tipo de serviço em longas filas nas agências de maneira presencial) é hoje, nada mais que um embuste, ao menos em Natal e no RN. 

É absurdo constatar que praticamente não existe em toda Natal nenhum banco 24 horas que possa ostentar dignamente esse nome, visto que a imensa maioria que eu conheço desse tipo de caixa eletrônico que ainda está em operação na cidade, fecha junto com os respectivos estabelecimentos onde se encontram. Eu lembro do tempo em que existiam bancos 24 horas até em farmácia e loja de conveniência de posto de gasolina, hoje um sonho distante essa praticidade. 

Quando aplicamos o recorte regional e de classe a problemática fica mais assustadora, fica na verdade intolerável. Em toda zona oeste de Natal, a segunda região mais populosa da cidade, não existe nenhum caixa eletrônico 24 horas em funcionamento, absolutamente nenhum. Mesmo os caixas que antes existiam na rodoviária foram removidos, à revelia da existência de um posto policial exatamente em frente ao local onde ficavam os caixas eletrônicos.  

Então como fica a situação do cidadão que habita a vasta zona oeste da capital numa necessidade no meio da madrugada, se já não tiver com dinheiro em espécie? Se estiver só com o cartão de débito e saque é o mesmo que não ter nada na mão. A velha promessa do sistema financeiro de que o cartão “funciona como dinheiro só que melhor” (quem não lembra dessa peça de publicidade de uma conhecida multinacional financeira?) não se realiza na prática porque o cidadão não encontra caixas eletrônicos para poder acessar seu próprio dinheiro. 

A situação se agrava quando pensamos nos turistas que por ventura cheguem à cidade via rodoviária. Terá que constar nas indicações de viagens, ao ir pra Natal, para o RN: “venha com dinheiro vivo, por que se tiver dependendo de fazer um saque na chegada de viagem na rodoviária de Natal não conseguirá”. E como a imensa maioria do serviço de taxi de Natal jamais aderiu ao cartão de débito e crédito (um assombro pra mim, todas as outras cidades do Brasil que já visitei tem no serviço de cartão de débito e crédito no taxi uma realidade totalmente difundida) então estará o turista preso na rodoviária, sem dinheiro vivo, sujeito talvez a caminhar vários KM para finalmente realizar um saque, para ter acesso ao próprio dinheiro. Não consigo ver abuso maior para quem vem de longe prestigiar o nosso turismo. 

O sistema bancário anuncia ano a ano recorde de lucros à revelia de qualquer crise, nacional ou internacional, então tem que ter mais investimento sim em segurança privada para garantir que os usuários tenham acesso a algo que lhe é mais básico, seu próprio salário, seu provento. 

Mesmo na zona sul, no bairro Potilândia onde moro, inexiste qualquer caixa eletrônico de qualquer espécie. Para chegar aos mais próximos é necessário ir ao Via Direta, percurso que é feito a pé e à noite (muitas vezes a realidade de quem não tem carro e precisa fazer um saque), além de tudo ainda é risco de assalto. Então o coitado do cidadão sai a pé de casa à noite porque precisa sacar um dinheiro, só que os caixas são tão longe geralmente de nossas casas que ainda arriscamos perder a soma do saque na primeira esquina desse lugar que já foi modelo de sociedade pacífica. 

Difícil medir o impacto de tal situação sobre a circularidade monetária dos serviços e comércios natalenses, quantas pessoas deixam de comprar algo ou acessar algum  serviço pela ausência da opção pelo pagamento em débito? Configura-se, metaforicamente claro, a imagem que corresponde tão bem ao momento que vivemos na economia, de uma cidade sem dinheiro. 

Governo do RN, quando é que começa o banho de segurança que foi proposto por Robinson Faria na campanha de 2014? Foram quatro anos de inércia e descaso no decorrer dos quais o Estado do RN se tornou um dos mais violentos do Brasil. 

Mas o tempo de vocês está chegando, a renovação esse ano nas lideranças políticas do RN será total. Tenho fé nisso e espero que também o tenha meus leitores. 

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Historiadora e Militante LGBT