Despatologizem o cotidiano
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Despatologizem o cotidiano

21 de junho de 2018
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Há 75 anos, o grande filósofo e médico francês Georges Canguilhem (1904-1995) publicou sua Tese de Doutorado, hoje um trabalho clássico e referência fundadora da discussão, “O Normal e o patológico- 1943”. Neste estudo, Canguilhem demonstra, com toda a propriedade da dupla formação que possui, que não é possível patologizar uma condição qualquer meramente a partir do princípio da diferença, da diversidade, ou seja, de que algo diferente é anomalia ou patologia.

A pesquisa de Canguilhem já poderia ter sido invocado há muito tempo pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade não precisava ter esperado tanto para, finalmente essa semana, despatologizar a condição da transexualidade, quase 30 anos depois de ter feito o mesmo pela homossexualidade, ainda em 1990.

Nessas horas, esperam de nós muita celebração. Agora não podemos mais ser taxados de pessoas doentes, apesar de sabermos que muitas pessoas continuarão a tratar transexuais como doentes à revelia da OMS, o que só poderá ser resolvido com a inclusão do conceito de gênero nos planos estaduais e municipais de educação. Mas nessa horas eu fico sempre insatisfeita, querendo mais, querendo a cidadania plena.

No final, o significado dessa conquista (é uma conquista, foi uma luta socialmente organizada de dez anos, historicamente muito mais antiga), não é igual ao que sonhamos no começo da década (2011), quando lançamos nacionalmente, no âmbito do núcleo Tirésias de Gênero, Diversidade e Direitos Humanos a campanha Stop Patologização das Identidades Trans, campanha que foi referendada nacionalmente por ativistas e pensadores da questão no I Seminário Internacional Desfazendo Gênero, realizado no campus central da UFRN, em 2013.

Claro que queríamos a despatologização pela OMS, mas acima de tudo queríamos e queremos é a despatologização no dia a dia, ou seja, aquela que constrói a cidadania, aquela que faz com que as mulheres cis não nos olhem como ETs quando nos encontramos diante do espelho no banheiro feminino, aquela na qual os homens não nos tratem apenas como um par de seios e bunda, mas como ser humano. Queremos a despatologização que produza um efeito de cessar as violentas perseguições que descambam muitas vezes em absurdas agressões, verbais e físicas, muitas vezes culminando com a morte de nossa população que ostenta, nunca é demais lembrar, os piores números do mundo em agressão e morte de pessoas transexuais (40% de todos os homicídios do mundo, culminando numa expectativa de vida de apenas 35 anos para a população trans brasileira).

Os jovens (alguns bem jovens mesmo) que espancaram até a morte a travesti Dandara, em Fortaleza, ano passado, sem dúvida não a viam como ser humano, a viam como coisa, como algo sem direito à reivindicar a condição de humanidade. Condição à qual aqueles mesmos jovens se auto arrogavam ao direito de pertencer em detrimento de Dandara. Quando Marielle Franco morre, é trágico, é terrível, uma mulher negra, lésbica e mãe, uma vereadora, intelectual e ativista que precisava ser silenciada de qualquer jeito, pois trazia à pauta os temas mais incômodos para as elites dirigentes e conservadores desse país. Já é muito grave e terrível, mas quando Dandara morre consegue ser ainda pior, pois seus assassinos não se contentaram com uma execução, eles queriam uma sessão de tortura, pois aquele corpo daquele ser “anormal” (do meu ponto de vista creio que se existe algo anormal é apontar o dedo para as diferenças de maneira patologizante), daquele ser não humano, por que expulso dessa humanidade branca, cristã, heterossexual, não merece consideração, trato, respeito algum.

Ela não desperta nenhuma empatia, nem entre os agressores nem em sua hedionda plateia. Ao contrário, eles sentem um perverso prazer em agredir, riem quase de rolar no chão, demonstrando prazer e satisfação em promover a liquidação física de uma pessoa cujo único crime foi ser o que era: uma pessoa trans.

São muitos os pretextos utilizados para justificar a transfobia nossa de cada dia e minimizar o problema do genocídio da população trans brasileira, um verdadeiro holocausto, visto que grandes percentuais de nossa população têm sucumbido ao suicídio por não suportar os inúmeros interditos sociais de viver na condição trans, ou seja, quando não nos matam física e literalmente falando, nos matam tirando nossos trabalhos, nossas chances de acessar a educação e a política, minando as condições financeiras de existência, até o ponto que a própria pessoa trans dá fim à própria vida por não suportar o tamanho da exclusão de ser o que é.

A reflexão é enorme, e toca em grandes problemas de classe, gênero e raça que são pontos nevrálgicos da formação histórica do nosso país, de sorte que já abordei tais temas e voltarei a abordá-los em hora oportuna, dentro e fora do espaço dessa coluna. De modo que me despeço por hoje com o convite para a mesa redonda que farei hoje à noite, a partir das 19h no bar Acabou Chorare, em Ponta Negra com o tema Transexuais e o mercado de trabalho, promovida pelo coletivo “Arretadas”. Além de outras pessoas trans, contaremos com a presença da vereadora e pré-candidata à deputada federal pelo PT-RN Natalia Bonavides (autora de um projeto na câmara de Natal sobre cidadania trans). O debate sobre o acesso ao mercado de trabalho está no cerne de todos os grandes sofrimentos da população trans.

Depois de duas sabáticas semanas de folga desta coluna me dedicando a realizar minha mudança de endereço (quem conhece minha vida doméstica sabe que não é exagero quando eu digo que minha mudança foi o “décimo terceiro trabalho de Hercules”, rsrsrs) não poderia ter voltado com a escrita de tema tão oportuno.

Aproveito para agradecer a paciência dos meus leitores em aguardar meu retorno, senti falta de vocês como espero que tenham sentido de mim, e convido-os, desde já, para meu chá de casa nova a ser realizado na primeira semana de julho em data a ser confirmada em breve pelas minhas redes sociais. Axé para todas as pessoas trans do Brasil e meus leitores em geral que nos prestigiam com sua empatia.

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