Dizem que sou louco
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Dizem que sou louco

3 de julho de 2018
Dizem que sou louco

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Quando o vi pela primeira vez, ele bradava pelos seus direitos, com intensidade, movido por uma mistura de indignação, dor, angústia e confusão. Uma intensidade assustadora pra todos que passavam por ali, despreparados que somos diante de tamanha manifestação de sentimento, fora do que entendemos como normal. Pensei em tentar ajudar, mas fui desencorajada, um tanto pelos outros, mas muito pela minha deficiência, que hoje assumo, em lidar com abalos dessa proporção.

Dias depois, comecei a escutar muitas histórias sobre um homem que estava dormindo ao relento, nas redondezas. Foi quando entendi o amontoado de cobertores em que esbarrei logo cedo, ao chegar pra trabalhar. Contavam que ele tinha condições, mas a família queria interná-lo em hospital público, que o interesse dos familiares era pelos seus bens, que ele tinha recorrido ao Poder Público para impedir isso, porém não teve sucesso.

Logo percebi que os donos daquela intensidade assustadora do outro dia e dos cobertores em que esbarrei eram a mesma pessoa. Precisava lutar contra minha sensação de impotência e tentar qualquer coisa, ainda que eu terminasse por não conseguir fazer absolutamente nada.

Vencer o medo foi apenas consequência do caminho que escolhi fazer no dia seguinte. Antes do trabalho, decidi sentar no amontoado de cobertores, junto dele. Nem sei se pedi licença; acho que só sentei. Estava inquieto, como disseram. “Eu sou S.A., conhece?” – disse ele. Respondi que não. “Síndrome de Asperger”, contou, antes mesmo do seu nome.

“Eu não tenho diagnóstico agora. Esse diagnóstico tá atrasado, e eu continuo sendo violentado. Sou violentado desde a infância”, revelou, com ideias desconexas pela raiva, repetindo incessantemente a sua história e tudo que o levou até aquela situação . Escutei (ou tentei), porém sem a paciência necessária, o que foi logo identificado e reivindicado por ele.

Confessei a minha deficiência e expliquei que todos ali sofriam do mesmo mal, de não saber lidar com tanta intensidade, acostumados que estamos com a pseudo-normalidade de quem se acha são. Mas falei que antes de saber de qualquer diagnóstico, eu queria saber o seu nome. “Alexandre”, respondeu prontamente. “Então você é o Alexandre, e, na verdade, “tem”, e não “é” S.A.”, reforcei, acrescentando a desnecessária explicação de que ele não se resumia a um diagnóstico, pois era mais que isso.

E disse ainda que, mesmo sem ter a menor ideia de como ou o que fazer, estava ali pra tentar ajudar, de fato, se ele quisesse. Ele compreendeu, mais do que eu podia, e assim conversamos por quase uma hora. De início, não era exatamente um diálogo de fato; mais parecia que falávamos ao mesmo tempo e sem parar, como monólogos paralelos que vão se encontrar no infinito.

Até que comecei, aos poucos, a aprender a ouvir. Escutei que sofreu violência policial em Sorocaba, recebeu péssimo atendimento do Samu, o que transformou “um deficiente mental também em um deficiente físico”, disse ele. Mostrou os dedos do pé, imóveis, que não consegue mexer desde então. Apresentava feridas nas pernas, que disse serem mais recentes. A vontade dele era estar no Canadá, onde o sistema de saúde, como explicou, funciona bem.

Citava bem as leis e defendia com primor o texto da Constituição. Em um determinado momento, chegou a afirmar que a mãe dele havia nascido mais de dez anos depois dele, porque a mãe dele era a Constituição. Às vezes parava pra anotar algo importante, num caderno onde o vi registrar meu nome, ao lado da palavra sensatez, que sei bem que não combina exatamente com minha pessoa, mas talvez eu estivesse enganando bem naquele dia. "Eu não sei como isso aconteceu comigo, mas alguma coisa aconteceu com a minha cabeça", lamentou, em outro instante.

Em dado momento, me pediu o celular, para acessar o e-mail, mas não conseguia se concentrar pra digitar qualquer coisa e pedi que me ditasse o que queria escrever e pra quem. Era apenas um trecho de algo escrito num blog (não sei se de autoria dele) que queria copiar, sem destinatário certo. Num esforço, enviou ele mesmo a mensagem. Mais tarde, vi que havia usado meu e-mail pessoal para mandar o texto para ele mesmo.

A mensagem dizia: “Quando tocamos em algo, deixamos as nossas impressões digitais. Quando tocamos as vidas das pessoas, deixamos nossa identidade. A vida é boa quando você está feliz; Mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por causa de você. Seja fiel ao tocar os corações dos outros, seja uma inspiração. Nada é mais importante e digno de praticar do que ser um canal das bênçãos de Deus. Nada na natureza vive para si mesmo. Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; E as flores não espalham sua fragrância para si. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra; continue fazendo o bem!”

O texto era um recado para todos nós, que ainda nos assustamos com a intensidade do que não conhecemos; que ainda precisamos escutar muito pra tentar compreender melhor o outro, exercitando mais a tolerância e menos o pré-julgamento; que ainda temos muito a fazer pra mudar o atual estado dos tratamentos dos transtornos mentais no país; que ainda precisamos entender que ninguém está livre de ser tido como louco; e que louco mesmo é alimentar tabus e deixar que as pessoas, como o Alexandre, não passem de diagnósticos mal definidos, com toda a carga terrível de preconceito, de angústia e de dor.

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