Quando João e Hermenegildo se encontrarem
Natal, RN 24 de abr 2024

Quando João e Hermenegildo se encontrarem

7 de julho de 2018
Quando João e Hermenegildo se encontrarem

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Já citei aqui em outro artigo o meu amigo Marcos Monteiro. Ele é um escritor de primeira, com alguns livros publicados, e vive em Maceió. Há uns 30 anos, ele escreveu sobre os encontros que teve com um tal de Hermenegildo Sales Santos, mais conhecido como Mené. Depois desses encontros que tenho tido com o João, pensei se não seria possível Marcos tentar um contato com Mené, e quem sabe colocarmos ele e João para conversarem, e vermos o que sairia. Os dois são pentecostais, João está muito insatisfeito com sua igreja, mas Mené já ultrapassou essa fase. Comuniquei essa ideia ao Marcos Monteiro, e depois de um tempo, recebi o seguinte texto dele:

Meu amigo de tantas datas, Orivaldo, que também é personagem de si mesmo, queria acertar um encontro com Hermenegildo e queria levar João, também amigo dele. Lembrar de Mené e doer de saudade era fácil, o difícil era desencavar, depois de tantos anos, esse sertanejo urbanizado que eu não vejo desde os anos noventa, mas Orivaldo é imperativo e marcou prazos. Bem, por ironia do destino, ou por decreto pentecostal, Hermenegildo apareceu de repente na minha porta, com o sorriso atrevido de sempre e com o corpo rijo da lida, em que o tempo não comparece.

“– Se até Bolsonaro vira crente, milagre ainda acontece” – foi o comentário desse meu amigo com quem, em muitos encontros nos anos oitenta, travei contato e alimentei uma discussão meio teológica e meio popular, com o referencial da Missão Integral. Gelei com a apresentação, com medo da trajetória desse pentecostal arretado, que tinha o jeito de se jogar inteiro na direção do que acreditava. E eleitor de Bolsonaro seria demais para mim.

Mas vida e surpresa andam juntas e escolhem seus próprios caminhos. Ao longo da conversa, fui descobrindo que Hermenegildo Sales Santos está cada vez mais politizado, é filiado de muitos anos do PCO, e continua pentecostal da Assembleia de Deus. Em tempo de paz, ele é contra a pena de morte, mas no estado revolucionário, afirmou, Bolsonaro é o primeiro do paredão.

 – Igreja, pastor, virou tudo sindicato de pelego, mas pelo menos na Assembleia, o Espírito Santo não deixa pastor em paz. O Espírito Santo é revolucionário, comunista. Na frente dele, Marx era fichinha e Che Guevara era cheio do Espírito Santo, só que não sabia e pensava que era ateu.

Eu estava atordoado e fui informando ao meu amigo que sou filiado do PSOL. Ele voltou ao sarcasmo, “Psombra e água fresca?”, e quando eu fechei a cara, admitiu que tinha amigos no meu partido, apesar de suas críticas, até porque Hermenegildo agora está totalmente adepto da luta armada e defendia que menos discussão e mais agitação e treinamento de guerrilha era o de que o Brasil precisa hoje.

Puxei alguns fios da Missão Integral, com a qual tentamos caminhar nas conversas dos anos oitenta, e ele disse que participou de muitos encontros bíblicos e teológicos mais corajosos do que a Missão Integral, “mais equilibrista do que bailarina de circo do interior” (segundo ele) e me disse que não gostava muito de nomenclatices e que a Teologia da Libertação precisava de ser mais corajosa.

– O senhor sempre foi meu amigo e dependendo de mim, continua. Mas sempre achei o senhor meio frouxo e ainda acho. Fico aliviado de que o senhor é meio reaça, somente meio, mas não acredito que na sua idade ainda tenha salvação. Só se o Espírito Santo agitar sua vida. Tem um porém, que na Igreja Batista o Espírito Santo é proibido.

Puxei conversa sobre a “Marcha pra Jesus”, mas ele me respondeu na bucha:

– Fui não, nem eu nem Jesus. Nós tava na marcha da maconha, quem tava na outra foi Bolsonaro.

Bem, assunto tinha muito e o que precisava mesmo era de um encontro com Orivaldo e João para estabelecer um bom debate. Foi quando eu comecei a fazer cálculos. Hermenegildo parecia quase o mesmo de antigamente, mas não podia ser. Tinha de estar perto dos oitenta anos, apesar da vitalidade que demonstrava. E aí lembrei dessa Bíblia em que os idosos lideram o enfrentamento de Faraó, os simples e oprimidos inventam e reinventam nações e os profetas contrariam o poder e despertam resistência.

Bem, Orivaldo é quem vai ter que me explicar: Se Hermenegildo e João se entenderem, surgirá um novo Brasil?

Marcos Monteiro
Maceió, 07 de junho de 2018.

É isso aí, agora vamos tentar organizar um encontro do Mené com o João, mas vamos ter que esperar. João está de férias este mês, e só poderemos arranjar alguma coisa em agosto. Acho que Marcos vai ter que trazer Mené aqui a Natal, pois os dois são uns verdadeiros peregrinos. Vamos esperar para ver.

Leia outros textos de Orivaldo Lopes Jr. aqui

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