OPINIÃO

Bolsonazi e a sociedade da eficiência

Na noite da terça-feira passada, abri mão de uma das poucas convicções estáveis que tenho e decidi ligar a TV na Rede Globo. Respirei fundo e fui assistir ao Jornal Nacional para encarar a entrevista de William Bonner e Renata Vasconcelos com o presidenciável Jair Bolsonaro.

Os memes e charges estão aí para dizer o que gente sã (nada contra os loucos) já sabe sobre esse caso: show de horrores em que é melhor rir pra não chorar. Não me surpreendi, nem pela postura dos entrevistadores (bancando os “progressistas”) nem pela do candidato (Zzz…). E é por isso que o tópico deste texto nem é tanto insistir em chover no molhado, elencando N fatores para não se votar no cara, com base nas suas afirmações e atitudes. Vou, antes, é falar sobre o “link” que eu fazia mentalmente enquanto assistia à nefanda entrevista, a remissão a uma leitura que anda fazendo minha cabeça ultimamente e que tem a ver com um conceito filosófico nomeado “sociedade da eficiência”.

Estou me referindo a Byung-Chul Han, pensador coreano, professor de filosofia e estudos culturais na Universidade de Berlim. Além de ser um fofo, ele discute com muita pertinência e elegância aspectos da contemporaneidade e defende (em leituras disponíveis em português no Brasil graças à editora Vozes) uma série de pequenas teses sobre o mundo atual, que ele interpreta/narra de diversas maneiras – sociedade do cansaço, sociedade da transparência, sociedade da exposição, sociedade do desempenho, tudo muito atravessado entre si, junto e misturado.

Segundo esse autor, a sociedade do desempenho tomou o lugar do que antes podia ser nomeado, como fez Foucault, de sociedade disciplinar. Na sociedade disciplinar, o olho do poder (o panóptico) vigiava e punia quem ousasse tentar escapar à lógica de corpos dóceis, assujeitados assim a uma certa ordem (de classes, sim, mas também de outras estruturas de práticas, manifestadas, por exemplo, na arquitetura e regimento de presídios, hospitais, leprosários, escolas). Já na sociedade atual, marcada pela hiperinformação e pela hipercomunicação, esse poder é exercido por todos a todo momento e em qualquer lugar e todos exercem o papel de Grande Irmão em busca de um mesmo fim: expor para si e os outros o sucesso, a produtividade e a eficiência.

Por exemplo: certas postagens que fazemos no Facebook (“nós” quem, cara pálida?!), confirmam um pouco disso: o que como, o que visto, o que leio, o que ouço, o que assisto, onde moro, onde trabalho, onde estou, com quem estou, o que faço, em suma, como existo, são exemplos dessa sociedade transparente e ilustram como nós mesmos exercemos um autopatrulhamento numa sociedade que é também narcísica, como quem diz: olha como somos incríveis e bem sucedidos em nossas atividades, em nossas idiossincrasias, em nossos egos! Olha como somos eficientes!

(Talvez aquele episódio do Black Mirror explique melhor…)

Claro que não estou dizendo que Google e redes sociais sejam só controle: acredito que as redes, de (des)informação e de (des)afeto, são complexas demais para serem assim tão simplificadas. Só que elas ilustram muito contundentemente como há um esforço generalizado, em vários campos sociais e discursivos possíveis, de apresentar em dados, de mostrar em gráficos, de desenhar em planilhas, de representar em imagens, de dizer em verso e/ou prosa um discurso de bom desempenho. De eficiência.

O açoite da eficiência nos traços de Banksy

O link com o inominável presidenciável que eu fazia durante aquela entrevista, então, foi pensar como muita gente cai na armadilha fácil de um discurso da eficiência para responder à pergunta – Como o novo presidente vai salvar o país? Qual será o presidente mais eficiente?

E é aí que a coisa descamba. Porque tem gente que realmente crê que com pulso firme (para não dizer truculento) e tom de voz elevado se resolve uma série de broncas. A criminalidade, por exemplo, supostamente seria resolvida apenas armando-se a população, para só citar um dos casos de simplismo e tacanhice extremos a que pode chegar o discurso da eficiência. Tem gente que realmente crê que indo às urnas também estará cumprindo eficientemente seu papel de cidadão exemplar.

Desse jogo político-partidário que está posto, em que uma peça do naipe daquele candidato se susteve durante mais de trinta anos, em que as legendas que ora se digladiam logo mais fazem alianças em estratégias e jogadas ideologicamente escusas, em que os candidatos reproduzem o mesmo discurso de eficiência milagroso e salvacionista (até do SPC o nosso nome vão tirar!), desse jogo que mantém a velha estrutura diferenciada de classes e privilégios, eu sinceramente prefiro não participar. Não desço para o play.

E desligo a TV.

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