OPINIÃO

Das culpas que cá rego…

Outro dia, numa crônica que falava da dor e da delícia de ser mãe, confessei algumas delas. Mas há em mim de todos os tipos: as inconfessáveis, as pesadas, as mais brandas, as que nem sei que tenho, e as que assumo sem sequer ter.

Confesso que tenho até um vício chato de viver me desculpando, como por educação, o que, por vezes, faz com que alguns aproveitadores da falta de culpa alheia acreditem mesmo e te façam imaginar que você tem sim uma culpa, que na verdade nunca foi sua.

Um filósofo de botequim, meu tipo preferido, aliás, me disse uma vez que “quem tem cu, tem culpa”. Mas prefiro não atribuir a um orifício tão pequeno toda essa carga, e aprimorar a frase para “quem tem consciência, tem culpa”.

Tudo bem que talvez, para algumas pessoas, a consciência não passe mesmo de um cú. E fato é que as culpas começam muito antes até de termos qualquer consciência. No meu caso, não sei ao certo o que veio primeiro, o que talvez reforce a teoria do cú, do meu dileto amigo filósofo.

Lembro da minha talvez primeira grande culpa, quando repeti de ano pela primeira (e única) vez. Já vinha com uma deficiência (ou simples aversão mesmo) em matemática e, quando as letras entraram no meio dos números, depois de eu ter finalmente decorado toda aquela porra da tabuada, acabou de esculhambar o pouco de raciocínio que eu tinha.

Morava no Rio de Janeiro e fiquei de recuperação na sétima série, precisando de nota cinco. Mas fiz a prova no dia da minha viagem de férias pra Natal e, ansiosa pra chegar em casa e fazer as malas pra curtir o veraneio potiguar, acabei fazendo somente a quantidade de questões exatas pra obter os sonhados cinco pontos, na segurança de que todas as respostas estavam corretas.

Resultado: reprovada, por apenas meio ponto, em matemática. Recebi a triste notícia por telefone, já em Natal. Como todo bom drama adolescente, tive a certeza de que aquele fracasso significava o fim da minha carreira. Estava certa de que aquela mancha terrível no meu currículo iria acabar com qualquer oportunidade de emprego, e lamentei muito não ter feito o resto da prova, confiante que estava nas respostas.

Fui chorar no quintal do fundo da casa da minha avó, Dolores, bem perto do pau-brasil plantado pelo meu avô, Edgar Barbosa. Mas aquela culpa fez nascer uma nova Carol, determinada e disposta a esfregar um dez na cara do professor. Vingança? Não exatamente. Talvez os primeiros sinais de alguma consciência. Foi uma vergonha reprovar sim, mas foi muito bom terminar o segundo bimestre praticamente passada em matemática.

Toda essa ladainha apenas pra contar que ainda hoje é isso que faço com minhas culpas. Não as nego, não as deixo pesar demais em mim, simplesmente as rego, alimento até que delas nasça algo de bom, interessante, enriquecedor, que me ajude a crescer, de alguma forma. Assim como a culpa de ter enganado, sem querer, meio mundo de gente que leu a minha última crônica por aqui, e que deu origem a esse pedido de desculpas de agora.

Portanto, pessoas queridas do meu agrado, quero me desculpar e informar a todos que Cartola não escreveu “O mundo é um moinho” para a filha dele, como dizem e eu reforcei os boatos. Muito bem corrigida pelo grande amigo Rafael Duarte, especialista em Cartola e que não foi o filósofo do início dessa crônica, mas bem pode ser o do final, a biografia do Cartola conta que, na verdade, essa canção foi feita para um colega de trabalho dele, cuja filha estava saindo de casa.

E que dessa culpa, nasçam ainda mais crônicas…

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1 Comment

  1. Mais uma crônica linda e corajosa. Nem todos aprendem com os erros ou tem coragem de assumi-los publicamente. Li sua última crônica, me identifiquei completamente com ela. Fui filha, sou mãe, impossível não me vere vários daqueles momentos. Fiz uma única recuperação na vida: a de matemática da 7° série ( atual 8° ano). Chorei horrores, me senti fracassada e com vergonha de carregar o estigma “meu orgulho” proferido por meu pai em todos os eventos possíveis. Parabéns!