OPINIÃO

Desconstruindo Bergman

Entrou em cartaz em Natal, ontem (16), o documentário Bergman – 100 Anos, da diretora e crítica de cinema Jane Magnusson. O filme entra em circuito após uma semana de Mostra Lanterna Mágica, em que o Cinépolis Natal Shopping exibiu, além do documentário, filmes consagrados do diretor. Bergman – 100 Anos foi lançado neste ano em que o cineasta faria 100, e repassa a vida do diretor partindo de um período, em 1957, em que Bergman realizou dois de seus mais conhecidos filmes, um telefilme e duas peças de teatro. Enquanto manteve quatro relacionamentos amorosos.

Magnusson parte do ano de 1957 para estruturar sua perspectiva de Ingmar Bergman como um homem que trabalhava excessivamente, neurótico e autoritário nos sets de filmagem, viciado na adrenalina dos novos relacionamentos e em biscoitos Maria. É um olhar que supera as comuns análises de artistas geniais, com enfoque no estilo e relacionamentos com outros artistas, com permissiva admiração, negligenciado os efeitos colaterais da genialidade.

São abordados, nessa perspectiva, a simpatia declarada de Bergman por Hitler na juventude, as acusações de fraude fiscal que o fizeram sair da Suécia, a negligência com as famílias que teve ao longo da vida e a violência praticadas contra algumas de suas mulheres – e que ele levou aos seus roteiros, deve-se dizer. Os ataques de fúria também são descritos – o relato mais detalhado é o da humilhação imposta ao ator e jovem diretor Thorsten Flinc, quando Bergman foi assistir à última apresentação de O Misantropo, que ele havia montado.

Repassando os detalhes dos filmes intimistas e de personagens complexos de Bergman, e tendo agora o documentário na bagagem, é possível concordar com o ponto de vista da diretora. Segundo ela, o cineasta sueco tratava suas angústias criando histórias, dirigindo atores, trabalhando muito. Há indícios, até, de que alguns traumas, como o do abuso retratado em Fanny e Alexander, teriam sido sofridos por pessoas próximas, cujas histórias ele mesclava às suas próprias na construção de personas. Não à toa, Bergman escreveu roteiros com protagonistas femininos até hoje insuperáveis, como os de Persona e Gritos e Sussurros.

O que se revela inovador na construção documental de Magnusson é o escancaramento das contradições de uma mente criativa tão produtiva e sensível, mas ao mesmo tempo tão pouco hábil em lidar com seres humanos. Liv Ullman, uma de suas parceiras amorosas e de trabalho – e uma das melhores atrizes de cinema da Europa nas últimas décadas –  declara que nunca teve amigo tão cúmplice como ele, e que sabia que ele nunca lhe havia feito nada para prejudicá-la. É essa admiração devotada, quase uma idolatria, e por outro lado as críticas contundentes, que se fundem na montagem da diretora, apontando para um Bergman menos gênio, e mais humano.

Como declarou a diretora em uma entrevista, claro está que nos dias de hoje seria muito mais difícil a Bergman produzir tanto. Seus filmes eram baratos, com canários simples, produções que exploravam paisagens naturais. Além disso, o diretor pôde evoluir em sua filmografia – começou com filmes que ele mesmo renegou por muito tempo, e insistiu, realizando obras magníficas. A necessidade de lucro imediato que se exige, hoje, de um jovem diretor, estava fora de cogitação.

Bergman – 100 Anos finca lugar de destaque dentre os documentários biográficos, como um filme sem reservas e de experiência obrigatória a estudantes, produtores e apaixonados por cinema. Por ser devotado sem deixar de expor os excessos de um diretores mais profícuos e pessoais do cinema, que deu origem até a adjetivo. Bergmaniano é termo que nos remete ao profundo, introspectivo, psicanalítico, e o documentário de Magnusson explora isso com minúcia, revelando um diretor que utilizou a arte para ressignificar suas contradições – e de todos nós.

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