OPINIÃO

Violência, esse filme repetido

Final dos anos 1990, uma partida entre ABC x América, no Machadão. Fila para comprar ingressos, grande, de repente, corre-corre, bandidos travestidos de torcedores começam um show de violência e vandalismo. Numa das filas, na bilheteria que dava acesso à torcida do Alecrim, um idoso, mais de 68 anos, é atingido na orelha por uma pedrada bem perto de onde estava fazendo cobertura , na época para o Diário de Natal, da chegada das torcidas, dos clubes, enfim.

O velhinho, atendido pelo SAMU, teve início de infarto, foi levado às pressas para o hospital, e assim como tantos outros casos da mesma natureza, não tomei conhecimento depois de apuração, de prisão ou punição de culpados.
Esse foi apenas um dos tantos casos de violência atingindo inocentes, que presenciei ao longo dos anos de cobertura esportiva em Natal, aliás, que continuo a presenciar sem que nada seja feito – Polícia Militar (que até faz sua parte), Ministério Público, dirigentes, gestores públicos e federação. O futebol do RN continua à mercê de gangues que espalham o terror em dias de jogos, mesmo que, para isso, nem precisem adentrar ao estádio.
Lá se foram os anos, derrubaram o Machadão, veio o advento Frasqueirão, depois Arena das Dunas, o futebol do RN desce vertiginosamente e, parece, muito em breve vai atingir o fundo do poço em todos os sentidos, sem que nada seja feito, efetivamente, para combater todos os males que o enterram.

Discutimos motivos para desparecimento de público, mas todos sabem as causas, no entanto, os responsáveis seguem empurrando o problema com a barriga e, pasmem: os dirigentes continuam a financiar ingressos, viagens, charangas (supostas) faixas e outras coisas dessas mesmas torcidas, ditas, organizadas, que engrossam suas fileiras com esses marginais que sequer sabem cantar o hino do clube.

Neste meio de semana, clássico do campeonato Sub 19 foi manchado por crimes. Absurdo dos absurdos! Confronto nos arredores da Arena. Agressões de lado a lado, desespero dos inocentes que passavam, a pé ou de automóvel, pelo local. Agressões brutais, corpos estendidos e mesmo assim, inertes, agredidos a socos, pontapés e até pedradas. Uma selvageria sem comparativo ou qualquer sentido. Não são torcedores, na verdade, eles não são nem mesmo seres humanos. Dementes que perderam qualquer noção de civilidade, de convivência e tolerância.

Nota de repúdio de um lado, nota de repúdio de outro, mas e daí? Esse filme já foi repetido duzentas vezes. Notas de repúdio não resolvem o problema. Chega de jogar a sujeira, porca sujeira, para debaixo dos tapetes. É preciso que dirigentes, imprensa, federação, gestores, desportistas de um modo geral, representantes legais de torcidas, todos se unam para um basta nesta situação insustentável.

Infelizmente, bem sei, já estou acostumado, nada vai mudar. O assunto mereceu interesse por alguns dias porque causaram horror e espanto as imagens, mas, daqui a pouco, página virada, até que chegue um novo clássico e tudo se repita, claro, sempre com mais selvageria e crueldade. O torcedor,  que já reclama do preço dos ingressos, da qualidade duvidosa dos jogadores contratados, da falta de organização, de mobilização, divulgação e emulação de nossas competições, mesmo agora, sem tevê, vai preferir ficar em casa.

Ele não tem o nosso campeonato, pouco se importam, pois tem todos os principais certames do mundo, sem sair de sua poltrona, e pagando mais barato que o preço de nosso ingresso.

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Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos