OPINIÃO

A urnas deste domingo

Nos meus anos de jogueiro chinfrim, sem pompa, renome, idolatria, o que seja,  já chorei partidas perdidas, finais de turno, de campeonato, me indignei com safadezas de árbitros de futebol e dirigentes, fui expulso tantas vezes que perdi as contas, levei pedradas na carroceria de caminhão fugindo da cidade em desabalada carreira, me ameaçaram com surra de cipó de broxa (eu os companheiros de clube), de levar borrachada de soldado biriteiro.  Já me apelidaram de “pentelho de alma”, passa fome, “perna de galeto”, já me meti em tantas furadas que parecem as histórias do Malazartes, mas nada que eu passei, podem ter toda a certeza, nunca vai se comparar ao terror de perder nos resultados das urnas deste domingo.

Já profissional, acreditem,  passei fome atuando em times chamados grandes aqui do Nordeste, já fui treinar de manhã apenas com uma xícara de chá de laranja no bucho para voltar a almoçar ovo cozido com farofa e torcer para encontrar um cuscuz sem mistura à noite. Quase fiquei na rua, fui ameaçado de prisão por reclamar, contestar, peitar presidente de clube ladrão, mas nada tão terrível que se compare, tenho certeza, a derrotas nos dois resultados das urnas deste domingo.

No futebol, defendendo o Alecrim de Natal, que nem é vermelho,  ganhei apenas dois títulos estaduais e outros dois ou três torneios de menor importância, foram pouquíssimos triunfos diante de tantas porradas, talvez por isso, para mim,  as conquistas mínimas tenham tanto valor e estejam guardadas para sempre no meu coração doente. Mas, querem saber, daria tudo em troca, de bom grado, para que não fosse derrotados nos dois resultados das urnas deste domingo.

O gosto mais amargo das derrotas que sofri, os anos de fila, de escárnio dos adversários poderosos, o desprezo dos dirigentes, o pouco caso da imprensa, os salários atrasados, os mais de 15 anos de bola sem depósito de FGTS, as contusões mais sérias, nada disso que passei, junto com outros tantos companheiros, para mim, se compara, nem de longe, se eu eu, e o Brasil, vier a sofrer  duas derrotas nos resultados das urnas deste domingo.

Nem mesmo os tenebrosos nove meses de desemprego, com dois filhos para criar, tentando sobreviver com uma merreca que recebia de benefício (contusão como jogador de futebol), correndo em busca de emprego num Brasil perdido, sem rumo, comandado por uma elite insensível (a mesma), nem mesmos esses tempos de terror ao pensar no amanhã sem poder amparar meus filhos  me assustavam mais que o hoje, caso venha a acontecer (Deus me livre!) dois resultados de derrota nas urnas deste domingo.

Já contei duzentas histórias de futebol. Falei de derrotas também, mas é claro que, como qualquer ser humano, prefiro as vitórias.  E quem já sentiu na vida, em campo, em qualquer setor, vai concordar plenamente que nada se compara a uma vitória de virada numa partida que o adversário já cantava vitória, soltava fogos, planejava desfiles, tripudiava e festejava antes do jogo terminar.

Já venci muitas vezes de viradas, inacreditáveis viradas, mas nada que se compare às duas vitórias nas urnas deste domingo.

 

 

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Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

1 Comment

  1. Ja li muita coluna boa em domingo de eleiçao, mas nada se compara a que Edmo Sinedino⁩ brindou seus leitores, hoje. Essa vitória você vai ter para contar, galego