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Vladimir Safatle: “o que nos espera é algo difícil de imaginar; estamos diante do pior”

Ainda restam dúvidas em torno do termo, mas “fascismo” é o nome certo para o que está acontecendo no Brasil, na análise do doutor em Filosofia Vladimir Safatle. Por isso, muita gente quis ouvi-lo falar na noite da quinta-feira (11), quando lançou o livro “Só mais um esforço” na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A palestra lotou o auditório da Biblioteca Central e teve que ser transferida para o da Reitoria, que também ficou sem espaço para parte do público.

Na ocasião, o livre-docente da Universidade de São Paulo explicou o desenvolvimento do autoritarismo, especialmente no processo eleitoral de 2018, que evolui em modelo único no país, usando estratégias de clara manipulação. “Não se deixem enganar. O que nos espera é algo difícil de imaginar; estamos diante do pior”, alerta, dizendo que a escolha dessas eleições não é para os próximos quatro anos, mas para os próximos 40 ou 50.

Diferente da extrema-direta europeia que é protecionista e, apesar de xenófoba e racista, incorpora pautas da esquerda antiliberal, a do Brasil é liberal e entreguista.

Acontece que 68% dos brasileiros são contra privatizações; 61%, contra reformas nas leis trabalhistas; 85%, contra reformas da Previdência –  evidenciando que somente à força se chegaria a um ajuste neoliberal severo. O primeiro passo foi o golpe contra o governo Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro, candidato à Presidência do PSL, jamais ganharia uma eleição com esse tipo de programa, segundo Safatle. Foi então criada uma anticampanha, sem que sejam claras suas intenções no que diz respeito a gestão. Por essa razão, “não há debate algum claro sobre nada”.

Não é por acaso que o candidato não tem participado dos debates com o adversário Fernando Haddad, do PT.

Apesar disso, Safatle garante que ninguém será muito surpreendido. Aliás, também não deveria ser surpresa a volta do fascismo. De acordo com o pesquisador, essa história estava escrita, uma vez que o fim da ditadura se deu com muitas concessões aos militares, sem condenar torturadores, assassinos, estupradores, ocultadores de cadáveres.

O Brasil chegou a 2018 como o único país da América Latina em que os casos de tortura cometidos pela polícia são mais numerosos que aqueles cometidos na ditadura militar. As críticas do professor se voltam ao modelo de polícia. Em outros países a esse tipo de estrutura militar cabe o policiamento de fronteiras e quarteis. São raros os lugares em que fazem o policiamento de áreas civis.

O estudioso cita ainda o artigo 142 da Constituição Federal, que atribui às Forças Armadas, entre outras coisas, a defesa da ordem. Podem ser chamadas por qualquer poder quando a ordem for quebrada, de acordo com o dispositivo jurídico.

“Isso é uma aberração. A função das Forças Armadas não é essa, ainda mais um termo completamente vago e genérico como ordem. A função é proteger a integridade do território nacional contra algum tipo de ameaça estrangeira. Nossa Constituição legaliza um golpe de estado”.

Quanto aos personagens que incorporam os valores fascistas, ele avisa que têm sempre um lado cômico. A identificação com o líder nunca foi feita pela convicção. Pra isso, as figuras precisam ter uma dose de cinismo explícito, para que a violência seja feita como se fosse brincadeira. Esse é o caminho da tirania – a história mostra, aponta.

“Trump, Berlusconi, seu Bolsonaro. Quem leva a sério? Nem seus eleitores”, diz. “Eles dizem a mesma coisa ao contrário a todo momento. Mudam o que falam a todo momento. Não é um desvio, é um traço fundamental”.

Outro traço é o discurso anticorrupção. Tendo Bolsonaro passado 25 anos em um partido cheio de escândalos, o PP, sem ter nunca dito uma palavra contra Paulo Maluf.

O professor lembra ainda que o mundo está voltando os olhos para o Brasil e que o fascismo de Bolsonaro já é conhecido internacionalmente. Ele chega a ironizar dizendo que existe a possibilidade de o mundo inteiro estar errado, mas que essa possibilidade é muito remota.

Culto à insensibilidade

Judeus nos anos 1940, homossexuais em 2018. Não importa de qual classe vulnerável se trate, o culto à insensibilidade e a resistência ao reconhecimento dos direitos dessas pessoas alimentam o fascismo.

De acordo com Safatle, toda política é uma questão de “circuito de afetos e de estruturas de sensibilidades”. E a ideia é definir o que pode afetar as pessoas e com qual intensidade.

“Há de se gerir a gramática do visível”, ele diz, explicando também a invisibilidade desses grupos, que por outro lado, exigem reconhecimento.

“Sempre vão falar coisas do tipo: não tenho nenhum problema com essas pessoas, só não apareçam na minha frente, só não fique visível, só não exista”. O professor segue explicando que ser reconhecido é existir na vida social e que a questão fundamental dessa insensibilidade é a modificação das estruturas de reconhecimento social.

Para Vladimir Safatle, passar a reconhecer um grupo significa também mudar aquele que reconhece, isso quer dizer que houve mudança na sensibilidade daquele que reconhece. “O que eles pedem é: não mudem meus afetos, não me façam sentir aquilo que eu lutei para nunca sentir”.

Assim, sugere que o embate este ano é entre formas de vida: “A maneira como você não se submete a certas alienações é insuportável. A maneira que afirmam as formas singulares de existência de vocês e querem que essas formas existam no interior da vida social, sejam reconhecidas, também é insuportável”, lamenta chamando à luta e à resistência, apesar do que está por vir.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

1 Comment

  1. Excelente texto da palestra do grande Professor Vladimir Saflate. Seu conhecimento profundo é sempre um achado para quem tem a sorte de acerçá-lo. Parabéns pela brilhante palestra em um momento tão difícil à beira de assumir o país uma perspectiva fascista ainda mais acompanhada do mais intenso neoliberalismo. Conforme mostrou brilhantemente esse brilhante filósofo!
    Severina Garcia