OPINIÃO

Fake news: mentiras sinceras me interessam (e sempre existiram)

Eu contava onze anos na Copa de 1982, quando, como todo mundo,  achei que aquela seleção brasileira mágica de Sócrates, Zico, Falcão e Éder, treinada pelo mestre Telê Santana, ganharia fácil e dando show a Copa do Mundo. Até que veio a Itália. E Paolo Rossi, que fez três gols e eliminou impiedosamente o Brasil. No dia seguinte, no colégio, todos ainda arrasados com a derrota na seleção até que um menino da outra classe gritou pelos corredores que Rossi havia sido pego no exame antidoping e o resultado da partida anulado, com eliminação da Itália e Brasil classificado para a semi-final. Cheguei em casa exultante, contei para minha mãe que disse que não vira nada daquilo no noticiário, mas ficou feliz. Até que os dias passaram, os telejornais não fizeram nenhuma reportagem sobre o caso e a Itália jogou a semifinal contra a Polônia, com mais dois gols de Rossi, que na semana seguinte foi campeão do Mundo.

Sim, anos depois descobri que essa fora a primeira Fake News que tomei conhecimento na vida. Depois vieram outras. Na campanha presidencial de 1989, por exemplo, ouvi de muita gente (donos de botecos, feirantes, porteiros do prédio onde eu morava) que se vencesse, Lula iria confiscar os apartamentos de todos para dividí-los com os Sem Teto. Voltando ao futebol, em 1998 foi a vez de “descobrirmos” que Ronaldo e o time inteiro do Brasil venderam a partida final da Copa para a França em troca do Brasil sediar uma Copa no futuro.

Sim, Fake News sempre existiram. O problema é que com as redes sociais e principalmente os “grupos de Zap”, elas ganharam um poder e uma dimensão impensáveis e perigosos. E que vem afetando de forma incisiva o jornalismo. É esse tema, “Jornalismo e Fake News”, que vou debater em mesa no FlipAut – Festival Literário Alternativo de Pipa, no sábado dia 8, às 21h, juntamente com o comandante em chefe deste bravo Saiba Mais, Rafael Duarte. Daí porque relembrar de Fake News da era pré-internet e tentar refletir um pouco mais sobre o tema, que me preocupa.

Na verdade as Fake News (que sempre existiram, como já vimos) existem porque de maneira geral o ser humano acredita naquilo que ele quer acreditar, no que vai “encaixar” com a verdade dele (claro que isso explicaria a origem das religiões, mas, aí é assunto para um outro texto mais à frente). Portanto, uma “verdade” conveniente com a visão de mundo e de realidade de cada um é melhor e mais fácil de se crer.

Claro que não sabíamos que essas, digamos, “pós-verdades”, ou “mentiras sinceras”, como poetizou o cantou Cazuza ganhariam uma sistematização a ponto de mudar o resultado de uma campanha eleitoral e eleger um presidente da República. A bem da verdade, sociólogos, historiadores, jornalistas principalmente, subestimaram o poder das Fake News em tempos de redes sociais e Whattsapp.

Evidentemente a boa literatura abordou o tema do poder nocivo das informações falsas, vide clássicos como “O primo Basílio”, “Ligações perigosas” e tantos outros. Mas, se anteriormente transmitir uma informação falsa era algo trabalhoso e que demandava tempo, como acontecia em tempos de guerra, em colonizações, em invasões, em intrigas palacianas ou na diplomacia entre nações, hoje uma informação falsa pode ser criada e enviada para milhões de pessoas e através de “robôs” através de poucos “cliques” ou comandos.

Curiosamente, a mesma tecnologia e inclusão digital que possibilita tanto as pessoas enviarem notícias falsas como receberam e compartilharem, não parece ser suficiente para fazer as pessoas questionarem a informação que estão lendo. Ainda que tenham ferramentas de pesquisa ao alcance, como o Google.

Portanto, ainda que se espalhe notícias absolutamente sem sentido, sem comprovação e fáceis de serem detectadas como falsas, caso da “mamadeira com ponta de piroca” e o famigerado “kit gay”, boa parte das pessoas acreditam nelas. E estão dispostas a passá-las adiante.

E como o jornalismo chamado sério vai sobreviver a isso (se é que vai)? Bem, algumas das respostas e muitas perguntas eu e Rafael tentaremos abordar no debate do sábado. A quem nos conferir, até lá. E voltaremos ao tema nesse mesmo espaço.

 

 

 

 

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