CULTURA

Fest Bossa Jazz se reinventa na crise em novo formato

O Fest Bossa Jazz chega a 9ª edição na praia da Pipa com novo formato e mais perto do público. A mudança foi uma necessidade, explica a idealizadora e produtora Juçara Figueiredo, em razão da crise econômica que afetou a cultura, o que não chega a ser uma novidade. As grandes empresas que patrocinavam o festival mudaram o foco dos investimentos e, em 2018, a parceria público-privada dará o tom do evento.

Segundo Juçara Figueiredo, o movimento Preserve Pipa, a prefeitura de Tibau do Sul, Governo Cidadão e os comerciantes locais garantiram a realização do Bossa Jazz este ano.

O festival acontece de 13 a 16 de dezembro de 2018, permanece gratuito “por enquanto”, destaca Juçara, e ainda mais perto do público. Sem palco principal, o evento vai ocorrer em polos distribuídos pelos bares da praia e do Centro e pontos também espalhados pela rua principal da Pipa (avenida Baía dos Golfinhos). Ao todo, são 48 atrações entre pockt shows, oficinas, jam sessions e workshops.

A já tradicional Bossa & Jazz Street Band segue seu itinerário pelas ruas da praia da Pipa, como acontece há 9 anos.

Confira a programação completa aqui

Nesta entrevista, Juçara Figueiredo faz um balanço do evento e explica a nova fase:

Saiba Mais: Que balanço você faz do Bossa Jazz, da primeira edição até a de 2018 ?

Juçara Figueiredo: Olha, percorremos um lindo caminho, fizemos história, afinal para um festival no gênero ter se firmado e ter a simpatia de todos, até de quem não curte o estilo, é uma vitória. Estamos com 9 anos de existência, 17 edições realizadas, indo para a 18ª essa semana na Pipa, com uma proposta inédita. Quando percebi que não teria chances com os patrocinadores pelas leis de incentivo busquei a parceria e fiz a proposta de um novo formato pra viabilizar uma parceria público-privada, onde foi fundamental o empenho e apoio do movimento Preserve Pipa, prefeitura de Tibau do Sul, Governo Cidadão e comerciantes locais. Foi a união de todos que esta possibilitando esta edição.

O festival de jazz de Guaramiranga (CE) foi uma referência no início ?

Não, sou paulista e cheguei em Natal no finzinho de 2004. O Fest Bossa & Jazz foi aprovado em Leis em 2008, a inspiração foi mesmo da minha frequência em São Paulo em bares e clubes no gênero no período que vivi por lá. Sempre fui apaixonada pelo jazz, o blues, o soul e a bossa nova. E depois que criei o Fest Bossa & Jazz é que comecei a frequentar outros festivais do gênero, o que é muito importante. Conheci e fiz parceiros nestas viagens, além de ter a oportunidade de ter contato com muitos artistas referências no mundo.

Numa região dominada pelo forró, um festival de bossa e jazz é uma iniciativa ousada. A ideia inicial era popularizar o gênero ou apenas focar no público que já existia ?

Os dois. Eu sempre soube que havia um público para o festival, mas inicialmente fiz o evento para esta demanda de público. No entanto, no primeiro e segundo ano era num formato fechado para um publico restrito em Natal. Mas logo que realizei o primeiro festival tive o convite para conhecer o festival Jazz e Blues de Rio das Ostras e aí abriu-se o mundo pra mim. Era um festival com vários palcos, várias atrações internacionais de peso, enlouqueci e esqueci que Rio das Ostras era financiado pela prefeitura através de royalts da Petrobrás. Pensei: o ideal é fazer o festival gratuito, possibilitar a todos ter acesso ao estilo, trabalhar formação de plateia, acreditei que os patrocinadores chegariam juntos nesta proposta de realizar o festival gratuito, mas não foi bem assim. No primeiro ano que fiz em Pipa foi totalmente gratuito, para o público foi surpreendente, mas fiquei com um prejuízo que talvez qualquer outra pessoa teria desistido. Só que eu sou persistente, determinada e desta forma vou buscando e reinventando, afinal acredito que o Fest Bossa & Jazz já faz parte da vida de muitas pessoas que ficam aguardando as edições do festival onde quer que ele aconteça.

Como foi a experiência de levar o jazz para comunidades que nunca ou pouco tiveram contato com o gênero, como São Miguel do Gostoso ? Foi possível incluir os nativos, como em São Miguel e Pipa, no festival ?

Saiba que coincidentemente esta semana ouvi um relato da diretora da AE Gostoso e também moradora de São Miguel do Gostoso, que no segundo ano que o Fest Bossa & Jazz foi realizado por lá ela ficou impressionada com a reação, principalmente dos nativos, vários sentadinhos na areia da praia contemplando os shows. E quanto a Pipa não tenho dúvida de que o festival mobiliza crianças, adultos, nativos, estudantes e moradores de todas as nacionalidades, muita gente que mora há tempos aqui e há tempos na Europa me confessaram que já marcam suas vindas no período em que acontece o festival. E isto não tem preço.

O festival começou enxuto, cresceu ao ponto de ser apresentado em quatro cidades (Pipa, Mossoró, São Miguel do Gostoso e Natal) e volta ao seu formato mais enxuto. A questão é apoio financeiro ? O que aconteceu ?

Não é novidade pra ninguém que o Brasil atravessa uma das suas piores crises financeiras e, claro, a cultura é a primeira a ser prejudicada e não tem muito como ser diferente. Mas a questão dos patrocínios é uma outra história, as grandes empresas (patrocinadoras), muitas mudaram o foco com esta situação e outras pulverizaram as verbas. Sendo assim eu também senti a necessidade de mudar. Na verdade, quando vocês olharem a programação completa vão entender que foi uma mudança de formato, não tem nada de enxuto, este novo formato foi bem exclusivo pra Pipa, que poderemos usar em alguns lugares e em outros não.

Que artistas você destacaria nesses anos de festival ?

Ah, são tantos, tivemos muitas atrações de peso para um festival de jazz, cito alguns internacionais que jamais alguém por aqui teria chance de assistir, só mesmo um festival como o nosso para oportunizar isto: Jose James, Coco Montoya, Stanley Jordan, Erick Gales, Glay David Andrews, Galatic, Erica Fals e muitos outros (hoje só vistos em grandes festivais internacionais). De atrações nacionais trouxemos João Donato, Yamandu Costa, Ivan Lins, Ed Motta, Marcos Valle, Roberto Menescal, Bossa Cuca Nova, Jaques Morelanbauem, Roberta Sá, Lenine além de brilhantes músicos do Estado que hoje estão com carreira no Brasil e no Exterior.

O Rio Grande do Norte tem vários artistas com talento reconhecido internacionalmente. Qual a importância da prata da casa para o festival ?

Pois é, tanto acredito que seja importante, que nesta edição de 2018 estaremos contemplando boa parte da programação com pratas da casa, inclusive trazendo talentos de outras regiões do Estado. Infelizmente não consigo contemplar todos como gostaria, mas procuramos fazer uma mescla pra agradar a todos os gostos.

O que você destacaria no Fest Bossa & Jazz 2018 ?

Em 2018 estamos realizando duas edições porque, como é um ano difícil, preferi focar no que seria viável. Se tentasse fazer nas quatro cidades, talvez não conseguisse fazer em nenhuma e em Mossoró foi inacreditável, uma receptividade muito boa. Arrisco a dizer que foi um dos palcos mais bonitos que já tivemos. Na Pipa acredito que todos que conhecem o festival irão se surpreender. Não teremos nenhum grande palco, chamamos de “polos”, onde irão acontecer os pockt shows simultâneos, onde estarão distribuídas as apresentações, à noite ao longo da Av. Baia dos Golfinhos, e de dia nos polos nos bares da Praia e do Centro. Então teremos 48 apresentações de pocket shows, jam Sessions, Oficinas, Workshop e Master Class, e ainda a Bossa & Jazz Street Band tocando nos percursos diurnos e noturnos, entre um show e outro pelas ruas da Pipa. Por fim, gostaria de convidar a todos para experimentar esta nova versão do Fest Bossa & Jazz, afinal não custa nada, o evento continua totalmente gratuito, por enquanto.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"