CIDADANIA

Pão com mortadela: 1 ano alimentando a autoestima de moradores de rua em Natal

Uma vez por mês, sempre aos domingos, aproximadamente 50 pessoas em situação de rua em Natal (RN) se reúnem na praça padre João Maria, no Centro, para forrar o estômago e alimentar a autoestima. É assim desde dezembro de 2017, quando Lucas Vinícius Pinheiro passou a reservar metade do salário que recebia no programa federal Primeiro Emprego (cerca de R$ 220) para comprar pão, mortadela e refrigerante. De bicicleta, ele distribuía a comida entre os moradores sem teto que encontrava a esmo pelas ruas da Cidade Alta.

Em pouco tempo, Lucas ganhou a companhia e a ajuda das duas irmãs, Erika Caroline e Larissa, e da mãe Valkíria Pinheiro, que vende doces e salgados feitos em casa. Além do café da manhã, incrementado aos poucos com cuscuz com salsicha e café com leite, os moradores de rua ganharam também direito a corte de cabelo e barba feito pelo próprio Lucas e por Erica.

A iniciativa foi conquistando a confiança e a presença cada vez maior de pessoas em situação de rua e há três meses, quando o compositor potiguar Romildo Soares abraçou a ideia, o que era uma ação quase isolada de uma família virou um projeto social e já inclui um café da manhã mais variado, oficina de arte, shows musicais, dentista, clínico geral e bate-papo com os próprios moradores sem teto, além do corte de barba, cabelo e até sobrancelha.

Projeto começou com pão, mortadela, refrigerante em dezembro de 2017

Quando o projeto Pão com Mortadela acontece, as manhãs de domingo na praça padre João Maria começam às 8h e seguem até 11h. Neste domingo (9), para celebrar o primeiro ano da iniciativa, já estão confirmadas as participações de Dodora Cardoso, Pedro Mendes, Folia de rua, Artemilson Lima, Josilete e Marcos Damião, morador de rua descoberto na edição de novembro do projeto.

Romildo Soares assumiu a produção em setembro e faz a própria divulgação do café junto às pessoas em situação de rua:

– Eu fui tomar o café um dia, conhecia a Val e decidi incrementar o projeto. Hoje me encarrego da oficina e da música. Durante a semana saio pelas ruas da Cidade Alta avisando o pessoal que no domingo vai ter café porque nem todo mundo sabe ainda e tem gente que dorme até mais tarde, né ? As pessoas que trabalham no domingo ajudam de forma voluntária e recebemos doações. A única grana que precisamos é para pagar o som, mas também conseguimos. Pedimos, inclusive, que as pessoas amigas que quiserem conhecer o projeto e doar, que só não levem cuscuz com salsicha, café e pão com mortadela porque isso a gente já oferece.

Um projeto tamanho família

Família da vendedora de salgados Valkíria Pinheiro começou o projeto e ganhou a companhia de amigos e outros voluntários

Valkíria Pinheiro acredita que o projeto Pão com Mortadela faça mais bem a ela do que aos próprios moradores de rua beneficiados pela iniciativa. Val, como é conhecida, nunca trabalhou com carteira assinada e conta que, às vezes, precisa separar o dinheiro da conta de energia para completar o café do projeto.

– “Minha vida mudou completamente, passou a ter um sentido”, diz.

A ideia, faz questão de frisar, foi do filho, na época com 18 anos, beneficiário do programa federal Primeiro Emprego, no qual aprendeu a cortar cabelo e barba:

– Meu filho recebia meio salário mínimo e separava metade para comprar pão e mortadela já fatiada, refrigerante e ia entregar de bicicleta. Ele abria o pão com a mão mesmo e comia junto das pessoas. Eu vi aquilo e resolvi ajudar. E desde então fazemos uma vez por mês. Nesse tempo uma das pessoas conseguiu sair da rua. Inclusive ele vai domingo falar sobre essa experiência. Hoje ele frequenta as reuniões do Alcóolicos Anônimos e a igreja. Para nós, mesmo sendo só uma pessoa, já é uma vitória enorme.

Pão com Mortadela acontece um domingo por mês

Cada morador em situação de rua tem sua própria história. Alguns foram expulsos de casa, outros decidiram abrir mão de um teto por conta própria. Há quem já tenha tentado voltar, mas não conseguem em razão da desestruturação das famílias. O envolvimento com drogas, sobretudo o álcool e outros alucinógenos, é o motivo mais recorrente.

Val também distribui lençóis aos moradores de rua, mas adotou uma estratégia para tentar evitar que o material seja trocado ou vendido.

– Eu não entrego o lençol no dia do café. A gente passa na rua durante a noite e cobre as pessoas com os lençóis. Porque assim, vendo que aquele pano os protege, eles pensam duas vezes antes de trocar ou vender.

As pessoas que estão à frente do projeto de rua Pão com Mortadela preferem que os interessados em contribuir façam doações de material, seja comida e roupas. E rejeitem qualquer pedido de dinheiro em favor da iniciativa:

– Se alguém chegar pedindo dinheiro para o projeto é mentira. A gente prefere doação, que comprem e levem a mercadoria.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"