OPINIÃO

Se for a um swing, vá de blazer!

Todos riram do meu blazer e, claro, insistiram que eu o tirasse. Mas já havia decidido que ele seria meu charme (ou disfarce) dentro daquele lugar, do qual eu acabara de perder a virgindade. Sim, aos 41 anos, eu era virgem de casa de swing. Já tinha até comemorado um aniversário num cabaré, em Natal, mas nunca tinha entrado num swing, a ponto de achar que só casal poderia entrar.

Como há mais de três anos gozo da condição maravilhosa de solteira, não me imaginava entrando nessa casa super família, na região de Águas Claras, bairro onde moro, em Brasília. Lá, deixam entrar o casal, os amigos e amigas do casal, e até as pessoas solitárias que buscam uma aventura ou, no meu caso, fervem de curiosidade.

Bebíamos num bar perto dali e minhas amigas insistiam que a gente precisava daquela experiência. Chegamos a convidar o garçom do bar para ir com a gente, e achamos que ele iria mesmo, quando veio em nossa direção, já no carro. “Vim dizer que vou no swing com vocês”, brincou….”Na verdade vim só entregar essa bolsa que alguém esqueceu na mesa”, corrigiu lamentavelmente. E antes que me perguntem, não era minha a “bolseta”.

Uma das amigas resolveu por todas que nós iríamos, e ainda chamou o próprio marido, a quem, lá pras tantas cervejas na cabeça, todas nós seríamos obrigadas, por ela, a beijar. Éramos cinco mulheres e um homem e de repente eu já tava com pulseira na mão, com todos os meus pertences trancados num cofre, exceto, claro, o meu blazer.

Com ele como escudo (o blazer, não o marido da minha amiga) , ou charme, passei pela porta que dava acesso a…um lugar perfeitamente normal, com bar, bebida, e, como eu previa, pouca gente. Me perguntei onde estariam as pessoas e tive certeza de que estavam fugindo da música de gosto duvidoso, que alternava entre uma sertaneja tira-tesão e uma mais razoável, com o sex appeal dos anos 80, momento em que meu blazer se encaixava bem.

Após a tradicional inspeção de banheiro e uma primeira cerveja pra entrar no clima, fomos então explorar o local e finalmente descobri onde estavam escondidas as pessoas. O primeiro ambiente que entramos era uma espécie de labirinto em total escuridão, o que me fez lembrar, não sei porque cargas d’água, as casas-fantasma que improvisávamos em nossa infância em Brasília, na sala do nosso apartamento, com a mesma escuridão e surpresas pelo caminho. Ops, quer dizer, não exatamente de idêntico cunho sexual. Mas os sustos eram capazes de provocar igual carga de adrenalina.

Logo na primeira passagem, havia uns buracos sugestivos onde você podia colocar o que quisesse: desde mãos e bocas até membros e orifícios. E sim, corre o risco de você passar desavisadamente encostada por esses buracos e receber uma pegada em suas partes íntimas, que, ali, não são de ninguém, e são de todo mundo também. E dessa surpresa, nem o blazer foi capaz de me proteger.

Na mesma hora, pensei no truque da luva de lavar louça com gelo dentro, que era uma das atrações principais da casa-fantasma. Ao final do passeio naquela sala de apartamento, um dos visitantes era escolhido para receber uma pegada no pé com aquela luva gelada, e sair correndo do susto que tomava.

No caminho do labirinto, casais e outros aventureiros,  protegidos pela escuridão, provocavam quem passasse por ali. E por incrível que pareça, meu blazer fez sucesso. Ao virar a esquina, me deparei com um casal que me puxou e perguntou se eu ia sempre lá. Muito sem graça, respondi que era a minha primeira vez ali, como eles podiam perceber pelo meu blazer.

Com essa, consegui escapar, da mesma forma que consegui escapar do mini Conde Drácula que meu irmão encarnava ao saltar de dentro do baú da sala que virava um caixão na nossa casa-fantasma. Mais tarde, iria conhecer melhor o casal, mas não no sentido íntimo, apenas porque ao reconhecê-los do lado de fora do labirinto, me aproximei e quis saber mais sobre como isso funcionava pra eles, por pura curiosidade jornalística.

Sim, exatamente: ao invés de dar pro casal, eu comecei a entrevistar os dois! Mas nem por isso eles sairiam ilesos do lugar, determinados que estavam naquela noite, que levou uma das minhas amigas a aceitar aquela aventura, no final da farra. Foi também nesse momento de descontração que minha outra amiga nos obrigou a beijar seu companheiro, o que não foi difícil, não só porque o cara é mesmo gato (com todo o respeito à minha amiga), mas porque não havia nenhum pingo de sobriedade mais no recinto.

Cheguei até a dançar, pra provar que meu problema contra música ruim era só uma questão de sobriedade. Fato é que nenhum dos outros ambientes eram tão interessantes quanto o labirinto, que me fazia lembrar a casa-fantasma da infância. Nem mesmo o quarto-voyer, onde se pode transar com todo um público espectador, como se as performances dos casais precisassem dos aplausos da galera pra acontecer.

Esse labirinto mexeu comigo, literalmente, com todos os seus sustos e surpresas. Jamais vou esquecer os maravilhosos monstros de sete cabeças (ou mais), no quarto central, em que havia, invariavelmente, umas cinco ou seis pessoas transando de forma espetacular, de uma maneira que não conseguia identificar onde começava uma pessoa ou terminava outra.

Ao final, como era de se esperar, o blazer teve seu efeito tira-tesão garantido, e saÍ ilesa do lugar (ou quase). Mas essa foi só a minha primeira vez. Já saÍ de lá com dois convites para voltar ao lugar. Bora?

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