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Noturno - Cecília Meireles
... Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? - bebo o horizonte...
...e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça
Estou na sala de espera de um consultório médico e vejo um homem sentado em uma cadeira de rodas. Fixo meu olhar sobre ele. Percebo que suas mãos são grandes, seus pés também. Me perco em sua face e imagino tudo o que um dia viveu.
O conto "O afogado mais belo do mundo" de Gabriel Garcia Marques me vem a cabeça e deslizo meus pensamentos sobre o homem. Não está morto como o afogado mais belo, está velho. Tem um olhar penetrante, percebe que eu o observo. Será que ele consegue ver o que imagino?
O que aquele corpo viveu? As minhas observações o vêem forte, belo, vivo e galante. Sim, mesmo diante dos poucos movimentos de agora, vejo-o dotado de um gestual refinado.
Agora pairo sobre sua mente, imagino-a pensando: “Não me haviam dito sobre a dor de estar velho, sobre os instantes vazios que a velhice nos reserva. Sobre esta necessidade do outro para que a gente possa se mover.”
O pensamento chega até Saramago, aquele homem velho e jovem na escrita. Conheceu o amor da sua vida aos 63 anos. Entra no espaço pensamento de Cora Coralina que dizia que não se achava velha pois estava sempre aprendendo com a vida. O fio da lembrança estica e chega até esse momento o arquiteto Oscar Niemeyer que realizou projetos incessantemente até morrer com 104 anos.
O que paira o tempo? O que nos faz velho é vontade parada. Viver numa cadeira de rodas, cabelos brancos, voz mansa, movimentos lentos é o resultado do tempo vivido e não velhice. Se estamos velhos e com desejo que circula de aprendizado, de olhar as estrelas, alegria em esperar os entes queridos, vibrar ao ver a lua cheia e sempre atento aos acontecimentos que nos movem no tempo. Então somos nobres criaturas deste universo.
A vida é rara demais para prestar atenção em cantos sem importância.
Materializar a dificuldade de viver é buscar melancolia e tristeza, acho melhor estar no processo da velhice com vontade de remexer e conectar-se a veia da energia cósmica.
Perdoe-me meu olhar fixo sobre você, senhor. Mas preciso repensar a vida e sentir o mundo.
A partir de pensar você, fica decretado que o tempo é mais que rei.
Noturno - Cecília Meireles
... Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? - bebo o horizonte...
...e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça