OPINIÃO

No que você está pensando?

Querido facebook,

Como nunca mais nos vimos, e isso já faz mais de um mês, achei que seria de bom tom lhe atualizar a respeito daquela pergunta de sempre e matar sua curiosidade filha da puta de uma vez sobre o que diabos ando pensando, desde que me libertei de você e corri por fora da sua linha do tempo idiota, que faz parecer que a vida precisa mesmo dessa merda toda pra seguir em frente.

Não que eu lhe deva alguma satisfação, liberdade que aliás tenho aproveitado como nunca, mas sei que algumas boas amizades que tinham notícias minhas tão somente através de você merecem essa atenção e esse carinho, além do que outras tantas pessoas que nem conheço tão bem e que possuem esse velho costume bem anterior à sua existência de ocupar a própria vida com a vida dos outros, incluindo a minha, podem estar se perguntando se eu surtei mesmo ou estou na pior, porque não mais comprovam minha necessária felicidade fake diária estampada nas publicações que volta e meia compartilhava, coisa que não me pertence mais e que, confesso, também não me faz falta, e até não deixa de ser um alívio.

Mas a quem interessar possa, informo que, ao contrário do que se esperava, ainda estou respirando, e agora, sem ajuda de aparelhos. Passei até a existir mais no mundo real, experimentando a doce sensação de dar bom dia às pessoas no elevador, a segurança de atravessar a rua olhando para os dois lados, a necessidade de ler livros no metrô, onde quase todos os passageiros estão entretidos com as suas bizarras atualizações, e a novidade é que agora enxergo o mundo através dos meus próprios olhos e não pela câmera de um celular.

Na real, essas faceférias estão sendo tão tranquilas que nem me recordo exatamente qual foi o estopim que me levou a tomar a atitude de dar um tempo da gente, sabe? Acho que já vinha enchendo o saco das consequências nefastas dessa pergunta aparentemente inocente, mas que dá margem à absolutamente tudo quanto é pensamento e, de uns tempos pra cá, parece servir de estímulo apenas para as piores expressões de ódio, intolerância, incompreensão, transformado que você está em terreno fértil aos mais absurdos e grotescos atos de desumanidade e sujeito aos pré-julgamentos impulsivos e inconsequentes do tribunal do mundo.

Não me leve a mal, eu até sinto falta de alguns recursos, como o de lembrar os aniversários, o que, vamos combinar, no mundo real, cada vez mais corrido, em que o dia merecia durar umas 48 horas pra caber tudo que a gente precisa fazer (avalie pensar!), tem sido um imenso fracasso sem você…

Só sei que foi no dia do massacre de Suzano (SP), 13 de março, que publiquei minha decisão de fazer um detox de face. Não sei se pela tragédia em si ou pelos comentários que, misturados ao atual momento político do país, me causou náuseas incapacitantes que me levaram ao auto-exílio dessa rede. Mas deixei mesmo de ter o aplicativo no celular e de entrar no meu perfil sequer para visualizar qualquer coisa, que dirá comentar ou curtir, no dia 14, pela manhã. Curiosamente, a minha dieta low-face teve início às vésperas de um dos mais horrendos massacres da humanidade, transmitido em tempo real pelo facebook, na Nova Zelândia. A notícia, só soube depois, pelos telejornais, sim, aquela coisa antiga que agora assisto, depois que parei de receber seus sustos por segundo que nem sempre merecem a audiência que possuem.

Os últimos acontecimentos só reforçam a análise que tenho feito sobre a real importância da sua existência na minha vida (e no mundo). Exatamente como relatei na minha derradeira postagem, sinto que esse exílio temporário faz tão bem que deveria inclusive ser recomendado pelos médicos, para manter a sanidade mental dos cidadãos.

É triste ver que uma rede criada para conectar pessoas do mundo todo, e acredito mesmo que essa fosse a sua intenção inicial, está fadada à extinção, segundo alguns especialistas, mal tendo ultrapassado a adolescência.

De fato, não acho que essa vitrine de insensatez seja totalmente sua culpa, sabe? Ainda que a pergunta que você faz instigue as pessoas a expressarem, sem qualquer filtro, os mais obscuros comentários do que elas estão pensando, a gente sabe que, se o bom senso prevalecesse, qualidade que não é pra todo mundo, ninguém escolheria expressar seu pensamento no mural (ou linha do tempo) do outro, só pra criar a discórdia, até porque, bem sabemos que raros são os momentos em que o contra-argumento a uma expressão de pensamento chega a convencer e mudar a opinião inicial de um indivíduo, em especial se dito assim, pra todo mundo ver e também, por consequência, contra-argumentar o contra-argumento até reduzí-lo a pó ou até se transformar num monstro medonho criado por uma simples, ingênua, boba e despretensiosa expressão de pensamento.

Por tudo isso, ando pensando mesmo que é possível (e talvez necessário) viver sem você, por mais que a tentação de retomar um dos poucos espaços de interação social que a vida moderna exige e nos obriga a ter trabalhe diariamente nessa tentativa de resgatar meu perfil na sua vida.

E sei que não demora até que eu ceda à tentação, mas não sem antes me blindar quanto aos possíveis ataques ninjas aos meus pensamentos e à minha tranquilidade d’alma, caro amigo, porque minha paz (e uma certa privacidade) você não rouba mais…

 

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