Dois livros pelo direito à palavra
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29 de maio de 2019
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Respiremos fundo.

Quando achamos que nada mais vai nos chocar nesta triste Era Bolsonaro, mais duas notícias para completar nossa dose semanal de horror.

Primeiramente, o tratamento recebido pelos representantes da UNE e da UBES, Marianna Dias e Pedro Gorki, respectivamente, em audiência na Câmara dos Deputados com comissão de Educação em que esteve presente o ministro Abraham Weintraub. Como vimos pelas imagens divulgadas em diversos meios jornalísticos, o ministro se recusou a falar com os estudantes e estes foram, afinal, agredidos verbal e fisicamente por deputados da base aliada e por seguranças da (suposta) Casa do Povo.

Depois, em uma das reles e ralas manifestações pró-Bolsonaro deste último domingo (26/05), assistimos também boquiabertos, em Curitiba, à retirada de uma faixa da fachada da UFPR em que se lia "Em defesa da educação #OrgulhoDeSerUFPR #UniversidadePública #EuDefendo. Uma das desculpas para defender tal gesto seria a de que "prédio público não pode ser utilizado de forma ideológica".

Respiremos fundo.

Já falei aqui várias vezes sobre o procedimento discursivo de controle dos sujeitos que é o silenciamento. Negar o direito à palavra ao outro, em suas muitas e diferentes manifestações (“você não pode ocupar esse lugar de fala”, "você não sabe o que diz”, “silêncio!” etc.) é mais que um mecanismo de exclusão, apontado por Michel Foucault na sua aula inaugural no Collège de France em 1971 e publicada em livro com o título “A Ordem do Discurso”: o que o filósofo francês chamou de “interdição”, como um “direito privilegiado ou exclusivo”, é um aceno certo e sinistro à mais bruta censura.

Nada mais ideológico que uma censura. No caso, falamos de uma típica ideologia fascista, aquela visão de mundo totalitária e embrutecida que não admite as diferenças e não se permite ao debate. Aliás, o mesmo Michel Foucault falou sobre ela no prefácio que escreveu, em 1977, para o livro “O Anti-Édipo”, de Deleuze e Guatari. Nesse prefácio, em que elabora uma espécie de “Introdução para uma vida não fascista”, esclarece Foucault que é preciso resistir a esse fascismo, não só o fascismo histórico de Mussolini e Hitler, mas este que “ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

Enquanto escrevo este artigo, ao meu lado está um livreto precioso que chegou recentemente às minhas mãos: “Emmanuel: vida e morte”, em edição viabilizada pela Editora Clima, Coojornat e Centro de Direitos Humanos, com relatos e depoimentos de vários autores sobre Emmanuel Bezerra. Ele dispensa apresentações, como sabemos, mas não custa lembrar: de diretor da Casa do Estudante que organizava saraus poéticos a aluno de sociologia da UFRN que caiu na militância clandestina, foi um dos potiguares que lutou pela liberdade e contra a ditadura, sequestrado, torturado e morto pelo aparelho repressivo do Estado. O mesmo Estado que continua assassinando e que volta a nos assombrar em gestos que se tornam outra vez banais e cotidianos, como ver um ministro da Educação contrário ao diálogo ou presenciar a retirada ofensiva de uma faixa que clama pelo direito à educação.

Respiremos fundo.

É preciso não se deixar intimidar e silenciar. É preciso não esquecer o exemplo de Emmanuel Bezerra, é preciso lembrar as palavras de Michel Foucault quando alertou sobre os perigos de uma vida pretendida pelos fascistas, uma vida que é impotente, subjugada, deprimida, incapaz, explorada, dócil. “Nós não! Precisamos desmontar essa máquina de adestramento! Precisamos de uma pequena “Introdução à Vida Não Fascista” que sirva para afastar todas as formas de fascismo”.

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