OPINIÃO

A pressa dos dias e o tempo que não temos

“Voltamos a viver, como há dez anos atrás, e a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas”, sentenciou Renato Russo, em Teatro dos Vampiros, como um profeta dos novos tempos. Talvez sentisse, ainda nos anos 80, a mesma pressa dos dias que nos consome hoje.

Mas é certo que, a beira dos anos 20 do século XXI, o ritmo é outro, ainda mais frenético. Agora, ano vira mês; mês, semana; semana, dia; e vinte e quatro horas é apenas um minuto. Ano de eleição e Copa do Mundo, então, temos menos tempo ainda.

Falta tempo pra conversas além dos grupos de whatsapp, pra falar o que pensa em mais de 140 caracteres, pra leituras (e discussões) mais profundas do que as do facebook, pra curtir as novidades de pessoas queridas fora dos registros no instagram…

Não quero culpá-lo, mas ele também se perdeu rapidamente, sem dó nem piedade, quando eu deveria lembrar o aniversário de uma amiga, sem usar as redes sociais, e ligar pra dizer a ela o imenso significado dessa amizade em minha vida… Ao pensar em fazer aquela sempre adiada atividade física… E até no momento em que me pediram pra escrever essa crônica.

O atropelo das datas comerciais são apenas o reflexo de não estarmos presentes no momento presente. E, com isso, não quero dizer que vivemos no passado, porque também não temos mais tempo pra recordar absolutamente nada…O futuro se precipita e nos jogamos nele, sem qualquer cuidado ou aviso.

Curioso é que, ainda em 2008, minha mãe já avisava que o mal do século era esse. Ela, que tão poucos dias tinha a viver, até 5 de julho daquele ano, mas me deu o privilégio de estar presente, mais do que nunca, em cada um deles.

Naquela época, não percebia a dimensão dessa pressa dos dias. Até com certa pretensão, antes mesmo de viver o hoje, adiantava a vida pensando no amanhã, no minuto ou na hora seguinte, no instante depois de agora. Hoje, sinto falta. Dos dias com minha mãe, de tudo mais que podia ter vivido (se estivesse presente), de prestar mais atenção no caminho.

E, mesmo sabendo o que preciso fazer para desacelerar a vida, ao descer na estação Arniqueiras, do metrô de Brasília, final do dia, vejo que o tempo está passando. Espreita meus 40 anos querendo engolir os próximos dez. E, no relógio, um ponteiro come as horas, e o outro, a memória, sem direito à viagem de volta à fina poeira do que deixamos pra trás.

Ao atravessar a rua, um menino de uns 15 ou 16 anos que caminhava pela calçada enquanto pensava no que responder ao chamado do whatsapp, está prestes a sofrer um acidente inusitado, no mínimo. O pensamento dele é detido por um barulho enorme, como se tivesse sido atropelado. Ele havia tropeçado numa placa de PARE.

Foi essa simples e reveladora experiência que me fez parar e finalmente escrever essa crônica sobre o tempo que não temos, e essa pressa dos dias, ainda que, com absoluta certeza, o menino sequer tenha lido a placa de PARE ou saiba o que o atingiu. Ele foi atingido pelo agora. Mas passa bem….Apesar de, na próxima hora, estar fadado e envelhecer dez semanas, como todos nós.

 

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