Seguidores versus discípulas
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Seguidores versus discípulas

16 de setembro de 2019
Seguidores versus discípulas

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Quando Jesus se despediu de seus discípulos, ele deixou-lhes uma grande comissão: “fazer com que as pessoas de todos os grupos humanos se tornassem suas discípulas” (ÉTHNE). Existem traduções da Bíblia que muito acertadamente tentam atualizar o texto para ficar menos cheio de clichês religiosos. Uma delas é a Bíblia na Linguagem de Hoje da Sociedade Bíblica do Brasil. Essa tradução, no entanto, optou por usar o termo discípulo só para os 12 apóstolos, e no restante das ocorrências optou por “seguidores”. Acho que não foi uma decisão feliz.

Seguidor é quem adota as ideias de outra pessoa, ou se identifica com elas de um modo muito superficial, ouvindo e lendo suas mensagens, mas sem um compromisso existencial profundo. Por exemplo, temos seguidores de Paulo Coelho, de Olavo de Carvalho, de Leandro Carnal, deste pastor, daquela pensadora, etc.

Discípulo é diferente: é uma pessoa que luta para compreender as ideias daquel@ a quem segue, mas, muito mais do que isso, procura adquirir seu estilo de vida. Os discípulos convivem com seu mestre e procuram imitá-lo, e toda sua existência passa a ser marcada por essa relação interpessoal.

Ser um seguidor não é fácil, e de Jesus então, é praticamente impossível, pois Ele rejeitou as filiações automáticas, e fez uma clara opção pelos explorados, pelos pobres, e por aquelas e aqueles que foram atirados às periferias do mundo.

Aos dirigentes judeus, que se achavam isentos de responsabilidade pelo caos em que seu povo estava metido, alegando serem “filhos de Abraão”, Jesus informou que “até a estas pedras Deus pode fazer filhas de Abraão”. E de fato, hoje vemos que as pedras de Minas Gerais por exemplo clamam por justiça muito mais alto do que qualquer grupo religioso daquele Estado.

Quanto ao lugar que Jesus ocupou na sociedade, vejamos como ele viveu e consequentemente como ele viveria hoje, e ver se conseguiríamos ser discípulos dele, pois se pensarmos na constituição da sociedade do tempo de Jesus e para que lado ele pendeu, vamos perceber o quanto discipulado é uma questão de tomada de posição.

Em primeiro lugar, havia nos tempos de Jesus uma forte discriminação religiosa. Não se podia entrar na casa de uma pessoa de outra religião, nem conversar com ela em público, nem mesmo tocá-la. Os judeus se achavam os escolhidos de Deus, mas Jesus disse que isso não era garantia alguma, e que ninguém podia separar as pessoas por motivos religiosos ou de nacionalidade. Sua vida mesmo foi entre judeus e não-judeus igualmente. Viveu toda sua vida na impura Galileia, elogiou os odiados Samaritanos, curou os estrangeiros, e elogiou-lhes a fé...

Em segundo lugar, Jesus rompeu com a discriminação sexual. As mulheres que eram tidas como menos que nada naquela sociedade, receberam de Jesus destaques surpreendentes: tinha-as como discípulas, foram elas as primeiras anunciantes de sua ressurreição, exaltou a figura feminina e jamais se reprimiu de estar em público com mulheres.

A discriminação no mundo do trabalho também era imensa: algumas profissões eram consideradas desprezíveis e impuras, objeto de forte preconceito, como a de cuidadores de ovelhas, mas foram eles os primeiros a receberem o anúncio do nascimento do Cristo. Burocratas governamentais eram o símbolo dos traidores, mas Jesus fez de um deles seu apóstolo (Mateus), e almoçou várias vezes em sua casa. O mesmo com os carpinteiros, pescadores, e prostitutas... E todos esses grupos foram alvo da companhia e valorização de Jesus. O valor aos trabalhadores era acompanhado à valorização ao trabalho como tal.

A lista é muito grande, mas somente como ilustração, vejamos um quarto grupo: as pessoas doentes. Naquele tempo essas pessoas eram alvo de tabus e preconceitos de toda espécie. Sua doença era considerada culpa delas mesmas, e por isso eram literalmente expulsas do convívio social para morrerem longo das vistas da sociedade. Talvez não tenha havido um grupo que tenha recebido mais atenção do que esse. O amor de Jesus aos leprosos, aleijados, cegos, perturbados psiquicamente, e de todos os tipos de doença foi notável. Ele os tocava, curava, aproximava, ajudava... Ele negava qualquer culpa moral ou espiritual pela condição em que estavam, mas via nas doenças uma forma de mostrar o amor e a presença de Deus.

A lista poderia continuar, mas já é o suficiente para vermos o quanto grande parte dos cristãos, e em especial dos evangélicos, se constituem hoje de meros seguidores de um Jesus individualista e espiritualizado, e não de discípulos.

Os Fóruns de Diálogo Inter-religiosos são a forma de combater os gestos de preconceito, intolerância e sectarismo religioso nas cidades. Porém, raramente os evangélicos fazem parte desses Fóruns. Aliás, eles não se aproximam nem mesmo de outros cristãos diferentes deles. São evangélicos que incentivam as perseguições nas escolas, o apedrejamento de lugares sagrados e até de pessoas de outras religiões. Que discípulos são esses?!

Hoje em muitas igrejas, apesar das mulheres serem as mais entusiastas trabalhadoras, elas são relegadas sempre a postos secundários. A violência contra mulheres no meio evangélico é maior do que na sociedade em geral. Quanto às outras categorias de gênero, como os LGBTs, esses nem se fala. Consideram sua condição pecaminosa, e jogam sobre elas uma culpa e um isolamento indescritíveis.

Quanto ao trabalho, vemos muitas igrejas explorando seus líderes, e se esquecendo da luta dioturna de seus membros. Algumas profissões são exaltadas, e outras desprezadas. A bancada evangélica apoiou a reforma previdenciária e trabalhista, e os pastores não se identificam mais com a classe trabalhadora do país.

No que tange à saúde, a atitude da igreja evangélica na época que explodiu a Aids, é uma demonstração do quanto estava distante do evangelho. Pessoas eram excluídas das igrejas por terem adquirido a doença. Hoje continuam culpando os doentes por sua doença, descuidando das pessoas e apoiando a perseguição e destruição da parceria com Cuba para os mais médicos, pois seu preconceito é muito maior do que o amor pelos necessitados.

Justamente pelo fato dos cristãos terem abandonado o discipulado de Jesus vemos um cristianismo completamente distorcido:

1) o trabalho missionário foi feito em parceria com os colonizadores para matar, roubar e destruir, e isso continua acontecendo, e se um dia a espécie humana for para outros planetas (não creio que vá sobreviver até lá), ela vai colonizar os outros planetas, pois a força que poderia deter o anticristo, isto é, tudo aquilo que é contrário ao que Jesus viveu e ensinou, acabou junto com o fim do discipulado, e corrompeu de dentro para fora as próprias instituições religiosas;

2) uma teologia anti-cristã se espalhou pelas igrejas defendendo a prosperidade e a valorização da riqueza, dos ricos, do poder e dos poderosos, num total distanciamento daquele que “não tinha onde reclinar a cabeça” de tão pobre que era, e que foi morto pelo Estado romano invasor, silencioso como uma ovelha;

3) em vez de ser força de resistência ao poder que destrói a vida, a saúde, a segurança social, a dignidade e o prazer do trabalho, a soberania nacional, e acima de tudo a própria verdade, os seguidores de Jesus se transformaram em colaboracionistas. Como no filme Bacurau, eles são os que ajudam os invasores em seu esporte de carnificina. O único grupo que Jesus combateu toda sua vida foi o dos colaboracionistas com o Império Romano, e hoje os fariseus e sacerdotes que se chamam de cristãos fazem a mesma coisa;

4) Finalmente, em vez de lutarem pela verdade, o caminho e a vida, tornaram-se propagadores de fake news, sem saber para onde vão e agentes da morte.

Por isso é que hoje mais do que nunca no Brasil precisamos novamente ouvir a grande comissão de Jesus e buscar fazer com que mais e mais pessoas deixem de ser apenas suas seguidoras e passem de fato a ser seus discípulos e suas discípulas.

* Texto escrito para a Mesa Redonda com Henrique Vieira, Ana Paula Felizardo e Ana Luiza Castro no encontro Promovido pela Juventude Comprometida com a Luta - JCAL, na Igreja Betesda em Natal, no dia 14/9/2019

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