OPINIÃO

Cardápio humano

Diante da escassez e das dificuldades naturais da atualidade em conhecer pessoas pela forma tradicional, uma amiga descobriu e passou a recorrer esses dias ao maravilhoso mundo dos aplicativos de relacionamento, o que talvez seja a forma tradicional hoje em dia. Desde então ela busca me convencer, com fortes argumentos, que esse é sim o meio que há de mais moderno para encontrar alguém.

“Para quê ir a diversos restaurantes em busca do alimento que te satisfaça e, muitas vezes, sair ainda com fome, se você tem à disposição um verdadeiro cardápio humano, capaz de satisfazer diferentes gostos e vontades em apenas um clique?”, foi a pergunta que uma outra amiga que estava no meio da conversa, já convencida de começar a usar o tal cardápio, me fez.

A comparação com aplicativo de entrega de comida me fez lembrar da vez em que tentei de fato começar a utilizar o Tinder e o Happy, sem muito sucesso ou match. Só depois de duas semanas foram aparecer os primeiros “matchs”, quando minha filha me deu a dica de trocar a foto para uma mais sensual. Logo eu, de sensualidade zero, tentei usar a única arma que minha baixa auto estima não havia aniquilado ainda: minha tatuagem de asas nas costas.

Então surgiram os primeiros likes, e conversei com dois ou três caras. Quer dizer, conversar mesmo não. Encontrar, muito menos. Eles não eram de muito papo, mas um deles me chamou atenção, porque parecia interessado de fato, tanto que passou logo o número do whatsapp.

Acontece que o camarada só queria vender pães artesanais! Isso mesmo! O cara estava no Tinder para fazer propaganda dos pães artesanais que ele produzía! E todos os dias ele me mandava fotos. Não eram nudes, como eu esperava. Era a fornada de novos pães! Tentei apimentar a conversa com os famosos “Hummmmm”, e ainda saí com essa: “Nossa! Pães são minha segunda maior tentação.” – só que ele nem quis saber qual era a primeira.

Apesar de ter dito que aceitava encomendas… Mas todas as vezes que tentei encontrá-lo até mesmo para comprar os pães (quem sabe entre uma fornada e outra houvesse tempo para matar meu desejo, né?) ele dizia que os pães dele já tinham acabado. Com o passar do tempo, nem mesmo os pães me abriram o apetite. Desinstalei os aplicativos e sosseguei meu forninho. rsrsrs….

Mas o discurso da colega que tem tentado me convencer a entrar nessa onda do sexo gourmet foi ganhando força essa semana, quando ela contou das últimas peripécias ou, como ela mesma comparou, os últimos bolos que ela experimentou. Não se trata de “bolo” que significa “fora”, mas do doce mesmo.

Até então, ela havia tido pouca experiência sexual, e isso beirando ainda os 30 anos. Imagino que, de fato, quem passou tanto tempo sem experimentar os sabores do sexo, ao entrar num aplicativo desses se sente mesmo como numa confeitaria imensa e repleta de doces e bolos deliciosos de ver e de comer.

E foi assim que, de uns dias para cá, ela viveu aventuras inimagináveis com uma média de pelo menos dois “bolos” por semana. No dia em que conversava comigo, ela estava de olhos vermelhos, meio “descadeirada” e com um sorrisinho maroto no rosto que denunciava a satisfação com o “bolo” da manhã.

Disse que não era exatamente um bolo bonito, com chantilly, nem outro ingrediente especial, mas era um bolo daqueles que você namora por dias na vitrine da confeitaria, jura que um dia vai experimentar porque te faz lembrar que está viva, chega a imaginar se fartando do bolo, mas no dia em que experimenta, o sabor é comum e não dá muita vontade de experimentar de novo. Mas foi bom comer porque satisfez um desejo antigo, sabe?

Não estou dizendo que pretendo voltar a usar esses aplicativos, porque no momento só uso mesmo o de alimentos e o de transporte de passageiros. Mas não custa nada olhar de novo esse cardápio humano, ainda que acabe não comendo “bolo” algum ou pegando um “bolo” que não me satisfaça totalmente…

Afinal, experimentar um “doce” de vez em quando não faz mal a ninguém, né?

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