OPINIÃO

Eleições 2020 serão um teste de sensatez para a Esquerda

Muita gente diz, e com bastante razão, que as eleições de 2020 serão, mais que um teste, uma espécie de prelúdio para as eleições (presidenciais e de governadores) de 2022. Para o bem e para o mal, eu arriscaria a dizer.

Na teoria e nas famigeradas redes sociais o discurso é “vencer o fascismo” e “defenestrar Bolsonaro e Moro”. Na prática e nas esferas dos caciques partidários, a história é outra. Por vezes, nuances político-partidárias e interesses locais/circunstanciais podem falar mais alto do que “derrotar o fascismo”.

No final de semana me detive a analisar a conjuntura e as possibilidades progressistas das quatro maiores capitais do Brasil. E percebi o seguinte:

Em São Paulo, um balaio de gato. O prefeito tucano Bruno Covas, mesmo em tratamento contra um câncer, é candidato à reeleição. Não é progressista, mas está a anos-luz de gente como o governador João Dória e os prefeitáveis Celso Russsomano, Joice Hasselman e André do Val. Mas, pela Esquerda, o PT já começou trocando os pés pelas mãos ventilando uma pré-candidatura de Jilmar Tatto mesmo com Eduardo Suplicy desejando ser candidato. E parte dos caciques – Lula incluso –  querem dialogar com a ex-prefeita (e ex-petista) Martha Suplicy. Pelo PSOL, Guilherme Boulos é pré-candidato.

No Rio de Janeiro, Lula já sinalizou apoio a Marcelo Freixo. Qualquer coisa que não for isso, apoio explícito a Freixo com o intuito maior de derrotar o prefeito Marcelo Crivella, sinaliza que PT e PC do B pensam mais nos seus interesses partidários do que na cidade.

Em Porto Alegre, Manuela D´Ávila, do PC do B, que foi companheira de chapa de Fernando Haddad na eleição presidencial de 2018, lidera as pesquisas para a Prefeitura. E  o prefeito Nelson Marchezan Filho tem alto índice de rejeição. Assim como no Rio, qualquer outra coisa da Esquerda que não for apoio incondicional a Manuela é fazer o jogo da Direita.

Em Belo Horizonte, pouco há o que fazer. André Quintão (PT) e Áurea Carolina (PSOL) são bons nomes, mas pouco podem fazer contra os 71% de aprovação do prefeito Alexandre Kalil que, diga-se de passagem, não é exatamente progressista, mas está muito longe de ser um Crivella da vida.

Natal

A capital potiguar está sendo vista com atenção no quadro nacional, até pelo fato do Estado não apenas ser governado pelo PT como pela única mulher governadora, Fátima Bezerra.

O PT atualmente tem um pré-candidato que disponibilizou o nome, o médico Alexandre Motta, que teve votação considerável para o Senado em 2018 e tem trânsito em diversos segmentos.

Bem situada nas pesquisas, a deputada Natália Bonavides já deixou claro dezenas de vezes que não quer ser candidata. Idem quanto ao secretário e ex-deputado estadual Fernando Mineiro. O senador Jean Paulo Prates também afirmou não desejar uma candidatura.

A preço de hoje, Alexandre é o pré-candidato do PT, já que Fátima garantiu que o partido terá um nome na cabeça de chapa.

Acontece que o PC do B, do vice-governador Antenor Roberto, lançou a pré-candidatura de Fernando Freitas. E o PSOL sonha com uma candidatura do deputado estadual Sandro Pimentel.

Apesar dos defeitos, o prefeito Álvaro Dias aparece liderando as pesquisas e tem potencial para crescer. Assim como Kalil, está longe de ser progressista, mas em comparação com o bolsonarismo e com gente como Dória e Crivella, Álvaro seria quase um Lênin.

Claro que ainda é cedo para bater os martelos, mas os pré-encaminhamentos podem mostrar se a Esquerda progressista quer resultados práticos no sentido de eleger candidatos deste campo e, efetivamente, combater o fascismo e a Direita, ou se interesses partidários falarão mais alto. Será a hora de, mais que força eleitoral, mostrar sensatez, portanto. Artigo nem sempre abundante no campo progressista.

 

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