14 de março já foi o Dia Nacional da Poesia
Natal, RN 28 de mai 2024

14 de março já foi o Dia Nacional da Poesia

14 de março de 2020
14 de março já foi o Dia Nacional da Poesia

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Castro Alves

Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Carlos Drummond de Andrade

A força do costume muitas vezes é maior do que a força da Lei, senão vejamos: para muitas pessoas o dia de hoje – 14 de março – ainda é o Dia Nacional da Poesia. Como assim, você não sabia que a data mudou? Vamos voltar um pouco no tempo, eu te explico.

O historiador Eric Hobsbawn diz que os costumes nascem nas sociedades mais antigas a partir de elementos culturais cujas origens muitas vezes são imemoriais, enquanto as tradições são inventadas nas sociedades modernas e se sustentam em ritos forjados para que se tornem um fato de coesão e simbolismo a partir de um marco inovador. O sentido político por trás da invenção das tradições no mundo ocidental geralmente está relacionado a um ideal nacionalista e patriótico.

A seu modo, o jurista alemão Peter Häberle também criou suas teorias sobre as datas comemorativas, os feriados, como uma construção própria do nacionalismo e do constitucionalismo. Häberle defende o direito a essas datas especiais eleitas pela comunidade, inseridas na Constituição e asseguradas por lei como direito fundamental, pois elas atuam como elementos culturais muito potentes para a manutenção da coesão social, a identidade de um grupo e para o fortalecimento da própria cidadania.

Muitas coisas banais e outras deveras importantes aconteceram no mundo inteiro e em nosso país em dias como o 14 de março, dentre tantas, o nascimento do poeta brasileiro Castro Alves, na Bahia, em 1847. Castro Alves foi um grande abolicionista que fez duras críticas em forma de poesia contra a escravidão, por isso ficou conhecido como “poeta dos escravos”. Devido à alta qualidade de seus versos também era aclamado como o “maior poeta nacional”, o “maior poeta do Brasil” ou o “poeta republicano” com grande sucesso entre os intelectuais até a sua morte aos vinte e quatro anos, em 1871.

Desde o ano de sua morte, o poeta baiano passou a receber inúmeras celebrações à sua memória, dentre as quais a construção da Praça Castro Alves e do Teatro Castro Alves, ambos na cidade de Salvador, que são bens culturais protegidos como patrimônio material pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No ano de 1968, a diretoria da associação soteropolitana Grêmio Brasileiro de Trovadores decidiu criar o Dia Nacional da Poesia como forma de imortalizar a Castro Alves também como um patrimônio imaterial, no entanto essa legalização nunca se completou: o Projeto de Lei nº 3.308/1977 apresentado pelo então Deputado João Alves (ARENA/BA) às Comissões de Constituição e Justiça e de Educação e Cultura não foi aprovado, na verdade foi arquivado 10 anos depois, em 01/02/1987. Por isso é possível dizer que nós experimentamos apenas o costume de comemorar o dia 14 de março como o Dia Nacional da Poesia, cujo patrono era Castro Alves.

A tradição e o direito constitucional se impuseram acima do costume e da não-convencionalidade após 47 anos, quando o historiador e então senador Álvaro Dias (PSDB/PR) propôs a mudança da data e do nome da pessoa homenageada através da Lei nº 13.131/2015, que diz: “é instituído o Dia Nacional da Poesia a ser celebrado, anualmente, no dia 31 de outubro, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade”, sancionada pela então Presidenta Dilma Rousseff.

Castro Alves como o patrono “fora da lei” do Dia Nacional da Poesia não podia ter sido uma escolha mais subversiva. Quem sabe até o próprio poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), se estivesse vivo, pudesse defender a permanência do dia 14 de março como dia nacional da poesia em referência a Castro Alves. Afinal, Carlos Drummond de Andrade também foi um poeta de ideias avançadas quando participou do núcleo modernista da Semana de Arte Moderna, em 1922. No círculo de amizades de Drummond estavam intelectuais e artistas que também defendiam a arte e a cultura brasileiras durante uma década no governo de Getúlio Vargas (1934-1945).

Carlos Drummond foi Chefe de Gabinete do Presidente de Minas Gerais (atualmente é o cargo de governador), ocupado pelo mineiro Gustavo Capanema (1900-1985), em 1933. Durante a Era Vargas, Capanema passou a ocupar o Ministério da Educação do Brasil, de 1934 a 1945. A amizade e relação de confiança levou Drummond a ocupar o cargo de Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema onde conheceu o ex-Secretário de Cultura do Município de São Paulo, o escritor paulistano Mário de Andrade (1983-1945).

A convite de Gustavo Capanema, Mário de Andrade idealizou o Serviço do Patrimônio Histórico Nacional (SPHAN), atual IPHAN. Após o falecimento de Mário de Andrade e a intensa crise política no governo Vargas, gradualmente Carlos Drummond seguiu a sua vida pessoal e carreira como servidor público com maior discrição. Até porque, após as perseguições e prisões de seus militantes que atuavam contra o governo varguista, os militantes do Partido Comunista do Brasil (PCB) foram lançados na clandestinidade. Há uma referência a esse período quando Carlos Drummond, que era filiado, escreveu o seu Poema de Sete Faces, onde se notabilizou a frase: “Vai, Carlos! Ser gauche (esquerda, em francês) na vida”. Como servidor público, Drummond escolheu trabalhar na formação e manutenção de acervos bibliotecários ao longo de toda a sua vida.

Enfim, eu imagino que você igualmente desconheça sobre a tradição de se comemorar o Dia Internacional da Poesia, afinal essa data também foi inventada. O Brasil enviou um representante para a reunião na Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (UNESCO) para auxiliar na escolha, que aconteceu em 3 de novembro de 1999. Foi uma data eleita – tanto no plano nacional quando no plano internacional – de um modo um tanto arbitrário, etnocêntrico, eurocêntrico, segundo consta na Decisão 30 C/82: “Por isso, depois de estudar as diferentes formas que essa ação poderia tomar, foi acordado que o dia 21 de março, primeiro dia da primavera no hemisfério norte, deveria ser proclamado Dia Internacional da Poesia”.

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