Bonitinha
Natal, RN 22 de jun 2024

Bonitinha

6 de março de 2020
Bonitinha

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Eu nunca me achei bonita. E sempre que menciono isso, sou imediatamente advertida. "Não, você é bonita, sim"; "Deixa de besteira". Sem querer desprezar tão gentis consolações, mas não, nunca fui obviamente reconhecida pela beleza.

Certa vez, estava entre amigos num desses rolês aleatórios da vida e um conhecido chega cumprimentando meu grupo.

Sou fã desse cara, comenta futebol na rádio. Ouço sempre. Essa turma é muito talentosa. Todos. E essa daqui é a bonitinha deles.

Ana Clara Dantas, a bonitinha. É, talvez seja um bom adjetivo. Sou meio padrão, então feia é um pouco forte, mas também não tenho grandes atributos, então não sou nenhuma lindeza. Devo dizer que não me incomoda habitar esse espaço social. Inclusive é ótimo pra quem, como eu, prefere passar despercebido.

Minha luta por não ser assunto demanda bastante engenhosidade. Me adaptei ao bando. Fui fraca, confesso. Já fui uma magra geográfica. É, dessas que servem de GPS. "Onde você tá?" "Tô aqui perto de uma magrela de azul". Isso sem contar as conversas intermináveis para explicar que não, não era doença ou fome, mas apenas o inevitável andar da vida.

Então, cedi. Em poucos meses, ganhei peso suficiente para gerar outros comentários. "Andou engordando, hein?" "Tá mais encorpada".

E até estabilizar o peso foi assim. Por que nunca tá bom. Você nunca vai ser boa o suficiente para os padrões dos outros. Mas a boa notícia é que esses padrões são realmente expectativas alheias. E não canso de sonhar com um mundo onde nossa imagem não seja tão determinante. Meu corpo sempre foi meu limite. Por isso hoje em dia não quero maltratá-lo. Quero apenas que ele seja saudável e bom.

Eu tenho uma origem humilde cheia de momentos de solidão; e minhas descobertas nesse mundo sempre foram muito espaçadas entre si. Acredite, as frases feitas, ainda que bonitas, não me entusiasmam. Não como me empolgam a autenticidade e as mais banais sutilezas. Lembro-me de perceber um corpo feminino desabrochando em mim lá pelos 13 anos. E lembro de gostar desse corpo.

Isso já tem uns bons anos. Mas vez ou outra recordo dessa sensação: me gostar. E, tenho a impressão de que poucas vezes voltei a viver o impacto de me perceber tão profundamente assim. Ou talvez simplesmente não me permiti perceber, porque estava ocupada demais me adaptando, me moldando, me protegendo, para que o mundo fosse menos cruel comigo.

O mundo maltrata. Ninguém tem tempo pra nada e tudo tá passando rápido. É preciso ser gentil, inclusive com nós mesmos. Gastei meu estoque de frases feitas.

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