Infectologista defende fim do Teto dos Gastos e cancelamento de manifestações devido ao Coronavírus
Natal, RN 29 de mai 2024

Infectologista defende fim do Teto dos Gastos e cancelamento de manifestações devido ao Coronavírus

12 de março de 2020
Infectologista defende fim do Teto dos Gastos e cancelamento de manifestações devido ao Coronavírus

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O infectologista potiguar Alexandre Motta Câmara acredita que mesmo após a Organização Mundial de Saúde reconhecer o Coronavírus como uma pandemia, não há motivo para pânico na sociedade. Ainda assim, ele admite que é um momento de “preocupação responsável”.

Dos 27 casos notificados no Rio Grande do Norte até quarta-feira (12), 14 já foram descartados e 13 seguem como suspeitas. Dos pacientes suspeitos, oito são de Natal, dois de Parnamirim, dois de Mossoró e um do município de Frutuoso Gomes.

Médico do hospital Giselda Trigueiro, principal unidade do Estado no atendimento a pacientes com suspeitas de Coronavírus, Motta cobra uma postura de orientação mais incisiva do Governo Federal.

Nesta entrevista concedida a agência Saiba Mais, o infectologista Alexandre Motta pede calma à população, diz que mesmo sobrecarregado o Sistema Único de Saúde é o que vai garantir o atendimento aos pacientes, defende o cancelamento imediato das manifestações convocadas para os dias 14, 15 e 18 de março e afirma que é hora da sociedade exigir a revogação da emenda do teto de gastos para a saúde, o que engessa o orçamento e impede a ampliação de investimentos nesse momento de crise.

Confira a entrevista:

Saiba Mais: A OMS admitiu que o mundo vive uma pandemia de Coronavírus. O que isso significa, na prática ?

Alexandre Motta Câmara: Quando a OMS declara pandemia significa dizer que é uma epidemia internacional por todo o globo terrestre. Significa dizer que não existe mais barreiras de controle entre países e que todo mundo hoje é passível de adquirir a doença.

Como esse vírus age no corpo humano ? 

O Coronavírus é um vírus de transmissão respiratória; a família do Corona já era conhecida, mas esse é uma cepa nova que atribui-se à possibilidade de ter sido transmitido ao humano através de outros mamíferos. Surgiu na China e espalhou-se pelo mundo. Ele é um vírus respiratório, assim como o vírus da gripe comum, assim como vírus H1 N1, dentre outros vírus de transmissão respiratória. Ao atingir os pulmões e as vias respiratórias altas pode ter como consequências desde uma infecção leve até infecção grave que a pessoa precise de UTI e ventilação mecânica.

Há cura, a partir do diagnóstico da doença ?

A cura, assim como a imensa maioria dos vírus, se dá pelo próprio sistema imunológico dos pacientes. Naqueles pacientes que precisam de internamento em UTI e ventilação mecânica estão sendo testados pelo mundo afora diversas terapias antivirais, porém ainda não há consenso científico sobre como tratar o vírus, especificamente.

As informações que chegam são de milhares de mortos na China, Itália e em outros países. Há motivo para pânico ?

Não há motivos para pânico, mas há motivos para preocupação responsável. Hoje as pessoas de mais idade ou as pessoas que tenham contato com pessoas idosas, ou com alguma imunodeficiência, devem evitar aglomerações, principalmente em ambientes fechados. Mas também devendo evitar aglomerações em ambientes diversos porque aumenta a possibilidade de contaminação. Já se sabe que o vírus tem uma alta capacidade de contaminação. Apesar de não ser um vírus com a mortalidade tão grave como outras viroses respiratórias, a transmissão dele, ao contrário, é bastante eficaz, o que faz com que o número de doentes possibilitem que muita gente transmita para outras e todas elas iriam adoecer.

O que sobrecarregaria ainda mais o Sistema Único de Saúde no Brasil.

Ao mesmo tempo, isso sobrecarregaria o sistema de saúde brasileiro, principalmente nesse momento em que vivemos de ataque ao SUS, e no momento no qual vivenciamos uma aplicação da emenda de teto de gastos que impossibilita o Estado brasileiro de gastar com saúde, além dos valores aplicados no ano anterior. Essa ressalva é para que tomemos consciência da irresponsabilidade que foi a aprovação da emenda de Teto de Gastos ainda no final do governo Temer com apoio da bancada que hoje dá suporte ao governo Bolsonaro.

Movimentos políticos de direita e esquerda convocaram manifestações públicas para os dias 14, 15 e 18 de março em todo o país. Como infectologista, sugere o cancelamento desses eventos ou eles podem acontecer sem problemas ?

 Sugiro o cancelamento.

O Coronavírus é característico de climas frios e temperados ou em climas tropicais, como o Brasil, o vírus também se manifesta de maneira intensa ?

Essa coisa do clima ainda não está clara, especialmente o comportamento do vírus no tocante a locais de clima mais quente. Existem algumas orientações sem fundamento científico de que as pessoas passem a ingerir bebidas quentes como medida preventiva contra o vírus, mas isso não tem comprovação científica. Em relação ao vírus respiratório, quando eu ingiro algo quente, o líquido vai para o meu sistema digestivo que não tem absolutamente nada a ver com o pulmão. E, além disso, somos animais homeotérmicos, o que significa dizer que mesmo que eu ingira substâncias quentes ou frias, o meu organismo tende a manter a mesma temperatura corpórea.

O fato do vírus em ambientes de superfícies mais quentes sobreviver menos tempo não quer dizer, necessariamente, que as pessoas não se contaminem entre si. Teoricamente diminui a contaminação pelo convívio de objetos contaminados, mas não diminuiria de pessoa a pessoa.

O que se sabe até agora é que o vírus é brando em pessoas jovens e mais agressivo em pessoas idosas ou que tenham alguma baixa na sua imunidade ou ainda que tenham alguma doença que dificulte ou altere a capacidade cardíaca e pulmonar do indivíduo.

Há relatos de médicos de São Paulo afirmando que os números de casos devem aumentar ainda mais no Brasil em razão de já ter iniciado o processo de transmissões locais, ou seja, não mais apenas via contato com alguém que chegou de outro país, como no início. Como infectologista, o que você imagina que possa acontecer agora ?

De fato parece que estamos entrando numa fase de transmissão local. Os indivíduos contaminados passaram a contaminar as pessoas do seu convívio e isso mostra que a epidemia, assim como na China e nos outros países, ultrapassou as barreiras sanitárias instituídas. Na prática, isso quer dizer que agora nós teremos transmissão de brasileiros para brasileiros. Como o vírus tem uma capacidade de transmissão elevada esse é ,sem dúvida, o grande problema que temos na mão. Os órgãos de São Paulo, por exemplo, estão estimando que nos próximos quatro meses haverão 45 mil pessoas contaminadas na grande São Paulo. O problema maior é o número excessivo de pacientes que precisarão de UTI e ventilação mecânica, que se estima por volta de 10.000 pessoas. A própria São Paulo, a cidade mais rica do país, não está hoje estruturada para esse aporte tão grande de leitos de UTI.

O Nordeste e, em especial o Rio Grande do Norte, está preparado para conter o Coronavírus ? Os equipamentos públicos são suficientes e estão bem estruturados ?

O que existe hoje de estruturação para o atendimento da população é o SUS que, sem dúvida nenhuma, já tem uma rede sobrecarregada. O que temos observado é que as secretarias de saúde de uma forma em geral têm pensado o problema de maneira a suplantar essa dificuldade nova, mas me parece que é preciso que a orientação em nível nacional seja um pouco mais intensa. É preciso que nós, enquanto país que tem um sistema de saúde universal, reformulemos algumas políticas implantadas.

Que tipo de políticas ?

A primeira delas, que depende do governo federal, é abolir a emenda de Teto de Gastos no tocante à saúde. A segunda coisa a fazer é garantir um plano emergencial para dar suporte ao SUS no tocante à grande quantidade de pacientes que irão adoecer, provavelmente todos ao mesmo tempo. É muito razoável pensar que, passada essa fase inicial onde todos já terão pego a doença, a transmissão haverá de cair, assim como as necessidades do sistema. Mas nesse primeiro momento vamos enfrentar uma situação bastante difícil que não depende só das secretarias municipais nem das secretarias estaduais de saúde do país. É preciso que o Governo Federal compreenda a dimensão do que está por acontecer diante do que já acontece em países como Itália, China e Irã.

Em Natal, além do hospital Giselda Trigueiro, há outras unidades capazes de atender a demanda ?

Em Natal, o hospital habilitado para receber esses pacientes é o hospital Giselda Trigueiro. Alguns hospitais privados poderiam receber esses pacientes se assim o quisessem, mas não sei se, diante da situação nova e dos custos inerentes ao tratamento, se irão se habilitar.

Como as pessoas devem se preparar para evitar o contágio ?

A questão fundamental hoje é evitar de se contaminar. Do ponto de vista prático eu pego essa doença ou eu poderei pegar essa doença pelo contato direto com o indivíduo contaminado, ou seja, através de objetos de uso comum, como maçanetas, aquele suporte de segurar nos transporte públicos, como notas de dinheiro ou com situações de uso comum, a exemplo de uma porta de banco, e por aí vai. O que as pessoas têm que ter como hábito nesse momento se forem idosas, se tiverem alguma doença que diminua sua imunidade ou que tenham doenças cardiorrespiratórias, é evitar sair de casa sem um motivo que justifique e que valha a pena. As pessoas que não têm essas características, mas convivem com idosos ou pessoas com baixas imunidade devem evitar ambientes com aglomerações porque aumenta o risco de contaminação. Outra dica é passar para o seu ente querido que têm maior probabilidade de adoecer, uma pessoa que apresenta sinais de doença respiratória, que nesse momento deve sair de casa porque existe o risco real dela contaminar outras pessoas. Em alguns lugares do mundo, o vírus está sendo transmitido para três ou até quatro pessoas.

Há outras precauções que precisam ser tomadas no dia-a-dia ?

Adquirir o hábito de lavar as mãos todas as vezes onde houver contato com objetos de uso comum. E na impossibilidade de lavar as mãos com água, álcool gel ajuda. Jamais coçar olho ou boca sem lavar as mãos previamente. Evitar aglomerações em ambientes fechados principalmente, mas também em ambientes abertos. O grande pico dessa doença, estima-se, se dará nos próximos quatro ou cinco meses.

Que lições a sociedade, especialmente no Brasil, devem tirar dessa pandemia ?

A necessidade da sociedade discutir o papel do Sistema Único de Saúde num momento de crise como esse porque o SUS precisa ser adequadamente financiado, além da anulação da emenda de Teto de Gastos no tocante principalmente à saúde. Não conseguiremos enfrentar essa circunstância, com o potencial de acometimento do número de pessoas que a doença tem, sem sobrecarregar o SUS e sem deixar de dar condições para que ele funcione de maneira adequada às necessidades da população. É a população que deve ser preservada e essa é a lógica. É essa diretriz que deve nortear nesse momento o papel do Estado brasileiro e das demais unidades da federação.

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