A epidemiologia da Covid-19 no RN e por que não podemos fraquejar
Natal, RN 24 de mai 2024

A epidemiologia da Covid-19 no RN e por que não podemos fraquejar

25 de abril de 2020
A epidemiologia da Covid-19 no RN e por que não podemos fraquejar

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Ion de Andrade, especial para a Agência Saiba Mais* 

Ao escrever esse artigo eu queria dar aos leitores uma ideia geral sobre o nosso cenário epidemiológico e explicar por que, na minha opinião, o Rio Grande do Norte tem tido menos casos comparativamente a outros estados vizinhos, por que não podemos considerar essa luta ganha, que armas temos e que riscos estão no nosso caminho.

Estamos com 40 óbitos no RN, números desse 25 de abril. Esses óbitos estão distribuídos da seguinte forma: 19 acima de 60 anos e 21 abaixo de 60 anos, conforme o observatório do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (https://covid.lais.ufrn.br/).

No que toca aos óbitos e à taxa de casos confirmados por cem mil habitantes, o quadro dos estados mais próximos do Nordeste é o seguinte:

Unidade da FederaçãoÓbitosPositivos por cem mil
Ceará28452,56
Rio Grande do Norte4021,5
Paraíba449,61
Pernambuco35241,84

Fonte Observatório LAIS COVID-19 e Ministério da Saúde

Nele vemos que juntamente com a Paraíba, estamos tanto com menor número de óbitos como com menor taxa de positivos por 100.000 habitantes.

Porém, o Rio Grande do Norte, em número de casos confirmados por 100.000 habitantes, é, como vemos no quadro abaixo, o quarto do Nordeste, e tem mais do que o dobro de positivos que a Paraíba.

O que isso significa? Significa que temos mais casos para menos óbitos e que entre nós e a Paraíba há apenas uma coincidência numérica na casa dos 40 óbitos, em curvas epidêmicas diferentes. A Paraíba, portanto, vem tendo mais óbitos do que o RN proporcionalmente ao número de casos confirmados. E o que é que está acontecendo aqui de diferente de outros estados de nossa região?

Em primeiro lugar é preciso relativizar, mas não totalmente, esses números que podem decorrer em parte da velocidade com que os diagnósticos estão sendo feitos em cada estado. Porém, o que constato ao analisar os números do RN é que o estado potiguar é o único lugar que eu tenha estudado em que os idosos são minoria nos óbitos.

Por que isso está ocorrendo e por que isso produz uma atenuação da curva de óbitos, sem alterar a curva de casos confirmados? Porque a população está protegendo seus idosos no contexto do Isolamento Social e se beneficiando dessas duas ações sobrepostas.

Sabemos disso, com boa margem de certeza, porque os óbitos de jovens são sempre 10% a 25% do quantitativo dos óbitos em idosos, que deveriam variar entre 75% e 90% do total. Isso significa que se eu tenho dez óbitos abaixo de 60 anos, eu deveria ter um número situado entre 40 e 100 óbitos totais, dos quais esses dez seriam uma grandeza entre 10% e 25% desse total. Com 40 óbitos seriam 25% e com 100 óbitos seriam 10%. Mas isso não está acontecendo no Rio Grande do Norte e por hora, no nosso estado, os idosos representam 47,5% dos óbitos totais.

Dessa forma, se eu tenho 21 óbitos no grupo com menos de 60 anos, como é o caso do RN, eu deveria ter um valor entre 84 e 210 óbitos gerais, mas o que temos até aqui são 40 óbitos ao todo. Os potiguares aderiram, portanto e de forma maciça, à proteção dos seus idosos e é o que dizem os números.

Naturalmente esse quantitativo se deve também ao Isolamento Social que foi decretado antes do primeiro óbito e que certamente nos poupou de um número ainda maior de mortes, como podemos constatar nos estados vizinhos do Nordeste.

No que toca aos idosos, essa proteção produziu, estatisticamente falando, um número que variou entre 44 a 170 vidas salvas e centenas de internamentos a menos do que o previsto, pois cada óbito projeta um importante número de internamentos, inclusive em UTI.

Uma primeira conclusão muito importante é que o Isolamento Social deve ir de par com a Proteção do Idoso no domicilio, onde ele é mais frequentemente contaminado. Essa contaminação, por infelicidade, é feita involuntariamente pelos familiares mais jovens, cuja tarefa é a de resolver os problemas das famílias fora de casa. Eles vêm a se contaminar, mas, comumente, fazem doença leve ou são assintomáticos, transmitindo a COVID-19 ao idoso que então paga a fatura às vezes com a vida. Esse mecanismo parece ter sido compreendido pela parcela que viveu a epidemia até aqui, que agiu para evitar o adoecimento dos idosos.

Mas então por que não podemos relaxar se estamos fazendo no RN o que muitos países mais avançados não fizeram? É que, e é muito importante entender isso, os relativamente bons resultados, foram obtidos nos setores médios, onde a epidemia esteve até aqui e que materialmente têm maior facilidade de proteger os seus idosos e maior acesso à Informação.

O problema é que a epidemia não parou, ela continua presente nos setores médios e se dirige agora a dois novos horizontes: o Interior do Estado e as periferias das cidades maiores. Isso repõe o relógio no zero, porque a epidemia que vamos enfrentar agora acontecerá num ambiente em que ela pode vir a ser incomparavelmente mais mortífera do que foi até aqui. Se a adesão ao Isolamento Social for mais baixa, ou se a proporção entre jovens e idosos não repetir o que estamos tendo, essa segunda fase poderá ser epidemiologicamente muito diferente da primeira.

Estamos desafiados então por um lado por fortalecer o Isolamento Social e por outro por fortalecer a Proteção ao Idoso no domicílio nesses novos cenários para onde a epidemia está se dirigindo - o Interior e as periferias - sem descuidar de que essa rotina continue sendo praticada nos setores médios

No que toca ao Isolamento Social, o último decreto o prorrogou até 5 de maio. No que toca à Proteção ao Idoso no seu domicílio como necessidade de ser praticada pelo maior número possível de potiguares nas periferias, no interior do Estado e nos setores médios, diria que esse é o desafio que temos todos e cada um, pois sobretudo nas nossas periferias haverá muito a ser feito e em condições adversas.

A Atenção Primária, mas também os Planos de Saúde e os empregadores têm uma responsabilidade maior de fazer chegar ao conjunto da sociedade esse ideário de proteção. As estratégias de comunicação social devem se voltar pesadamente para dar às famílias que têm idosos as informações necessárias à sua proteção.

Atentos a isso produzimos uma cartilha que eu aconselho a leitura. Ela está disponível para todos no site do LAIS e contém instruções não somente para a visita do Agente Comunitário de Saúde, mas também para as famílias sobre como proteger o seu idoso no domicílio. Ela deve ser conhecida por todos e repetida incansavelmente sempre que necessário. Ela deve dar profundidade à crucial visita do Agente Comunitário de Saúde às famílias das periferias e do interior que têm idosos em casa. Trabalho do SUS, essas famílias já estão catalogadas pela Atenção Primária devido ao calendário de vacinação da gripe. O SUS, os Planos de Saúde e os empregadores públicos e privados devem fazer chegar essa cartilha à totalidade dos lares potiguares onde haja idosos.

Esse é um trabalho fundamental não somente para os próprios idosos que poderão ter suas vidas salvas, mas para a sociedade como um todo, pois poupando os idosos reduziremos a demanda assistencial minimizando os riscos de colapso e a letalidade geral.

Teremos muito trabalho, mas agora já conhecemos o caminho: conjugar o Isolamento Social e a Proteção ao Idoso no seu domicílio em todo o estado e em todos os segmentos sociais.

Não podemos dar moleza a COVID-19! Tenho certeza de que a pátria de Felipe Camarão, de André de Albuquerque e de Frei Miguelinho não vai fraquejar!

* Ion de Andrade é médico epidemiologista da Sesap/Cefope/ETSUS e Pesquisador do LAIS/UFRN

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