A cantoria da cigarra…
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A cantoria da cigarra...

13 de maio de 2020
A cantoria da cigarra...

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Todas as artes contribuem para a
maior de todas as artes, a arte de viver
Bertold Brecht.

Dentre as fábulas morais atribuídas ao literato grego Esopo (620-562), posteriormente recontadas pelo poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695), a história “A Cigarra e da Formiga” é uma das mais populares, sendo que a tradução em língua portuguesa troca o gafanhoto pela cigarra. Na fábula encontram-se duas personagens com visões de mundo antagônicas que debatem brevemente sobre os resultados do trabalho duro em oposição a gozar os prazeres da vida: as formigas e a cigarra, ao final da história cada um desses insetos colhe o resultado imediatista ou precavido de suas concepções.

A vida de uma cigarra pode ser bem longa para um inseto (15 anos), mas quando protegidos debaixo do solo, depois que sobem à superfície em pleno verão e passam pela metamorfose, os machos não sobrevivem mais de um mês, enquanto a formiga comum vive um ano inteiro (12 meses). A formiga, pelo menos, pode testemunhar a mudança das estações...

Então agora podemos perceber porque ambas possuem motivações diferentes em relação às suas existências na Terra: a motivação das formigas as leva a estocar comida sem parar para alimentar as próximas formigas, a motivação da cigarra a leva a cantar o mais alto possível durante horas para atrair uma parceira, copular para se reproduzir e depois, morrer.

Na fábula original de Esopo não há referências à cigarra tocando um instrumento, é La Fontaine que traz a cigarra que toca violino, por isso a associação dela com os artistas. La Fontaine mesmo foi um mecenas, dedicou-se à caridade e o auxílio a artistas pobres. Nos diálogos entre as formigas e a cigarra há uma intolerância velada que reside no embate entre dois pontos de vista aparentemente incompatíveis: a objetividade das formigas e displicência da cigarra. Desdenham-se mutuamente de forma maniqueísta toda vez que se encaram.

A imagem das formigas trabalhadoras que se esforçam para avisar a cigarra sobre a necessidade de se precaver para o futuro, ao contrário da cigarra artista que assobia e toca sem dar ouvidos atravessa os séculos. A vida das formigas que não sabem cantar e da cigarra que só sabe cantar alcançam um clímax quando chega o dia da tragédia anunciada: o inverno pesado que as alcança a todas, formigas e cigarra, agora sob condições totalmente diferentes. O desenlace oferecido por Esopo reflete as atitudes morais de dicotomia perante a vida, entretanto La Fontaine agiu com diplomacia ao oferecer uma alternativa humanista. Vamos a elas.

No inverno de Esopo as formigas superam os rigores da natureza enquanto a cigarra sofre uma grande crise de consciência até criar coragem de ir pedir ajuda às formigas. Mas as formigas não demonstram qualquer piedade: respondem à cigarra que, se ela soube cantar durante todo o verão, decerto que no inverno ela saberia dançar!

No inverno de La Fontaine a cigarra também vai até o formigueiro na esperança de receber alguma ajuda, as formigas lembram que a cigarra as ajudou em algum trecho do caminho e, por gratidão, acolhem a cigarra. Durante todo o período de convivência, a cigarra canta e toca para as formigas. Quando o inverno acaba, os insetos se despedem.

A título de metáfora, se o embate entre as formigas e a cigarra fosse ambientada no Brasil, as formigas de Esopo seriam militantes dos movimentos conservadores, militares e filiados a partidos de extrema direita. Lembrem-se que na ditadura militar (1964-1985), para calar a oposição, implementou-se o Ato Institucional nº 5 trazendo a censura e as prisões políticas.

Trinta e cinco anos após a ditadura militar, hoje compete à Constituição Federal de 1988 garantir a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (artigo 5º, IX), além da garantia dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional e às manifestações culturais (artigo 215). O Brasil conservador traz uma série de ameaças e censuras a exposições e a artistas, a forte campanha utilizando fake news (notícias falsas).

Após a eleição de Jair Messias Bolsonaro os ataques só têm se agravado porque são atos de governo, sendo a primeira delas a mais simbólica: a extinção do Ministério da Cultura, substituída por uma Secretaria Especial de Cultura ineficiente, subordinada ao Ministério do Turismo. Surpreendentemente, o atual cenário se deteriora devido à atual pandemia mundial de COVID-19.

Se até agora a Secretaria Especial de Cultura não agiu em prol da cultura artística brasileira, o que esperar de suas ações em meio a esse momento gravíssimo? Alguns artistas de renome nacional faleceram durante esse breve período de dois meses – entre março e maio de 2020 –e sequer uma nota oficial de falecimento foi emitida pela Secretária Especial da Cultura, a atriz Regina Duarte. Paradoxalmente, ela mesma desdenhou as mortes de artistas com quem ela conviveu.

Ao longo da quarentena, em plena pandemia mundial, as pessoas têm buscado a Arte para seguir vivendo suas vidas, cantando nas varandas, assistindo filmes, ocupando o tempo com as lives de anônimos e famosos.

O cancelamento de shows causa uma grande onda de desemprego no setor, cujas alternativas têm sido buscadas pelas secretarias municipais e estaduais de cultura, além da iniciativa privada com a abertura de editais para a realização de apresentações culturais pela internet. Mas hoje a sociedade civil deve entender que cultura artística só existe na liberdade, na diversidade, na oposição, dentro de uma democracia. É preciso que exista uma legislação específica (Projeto de Lei 1.075/2020, a Lei Nacional de Emergência Cultural) para favorecer o auxílio imediato à manutenção de espaços culturais e a própria vida dos artistas.

É preciso defender a arte dos artistas, acima de tudo a vida dos artistas.

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