As histórias que não contaria aos meus netos – Parte IV
Natal, RN 27 de mai 2024

As histórias que não contaria aos meus netos - Parte IV

3 de maio de 2020
As histórias que não contaria aos meus netos - Parte IV

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Gravei, está no ar, no IGTV do meu instagram @sinedinoedmo, comentário sobre a pressão que começam a fazer, contando com o apoio do genocida Jair Bolsonaro, para que o futebol volte a ser disputado. Criminosos! Irresponsáveis! Tenho certeza, só cessarão esses absurdos quando estiverem em colapso todo o sistema de saúde do país, mas mesmo assim, não duvido, ainda vai aparecer dementes para defender esse governo desvairado e apocalíptico. Onde estão sindicatos, Fenapaf, FAAP, onde está a representação dos atletas, vão deixar que dirigentes e políticos canalhas ponham suas vidas e de seus familiares em risco?

Mas, chega! Hoje é domingo, dia de contar minhas histórias que não contaria aos meus netos, mas não poderia deixar de fazer essa desabafo e alerta.

Bom, vamos às histórias. Cheguei ao Alecrim. Time considerado grande. Contratado por João Bastos de Santana em troca de 30 pares de chuteiras e dez bolas, acho, foi o que me disseram. Na verdade, Ranilson Cristino, meu benfeitor, queria mais que eu tivesse a chance de jogar numa equipe de melhor estrutura. Deixei meu Força e Luz com tristeza, mas havia sim a empolgação de jogar por uma equipe, uma terceira força e de uma torcida ímpar, apaixonada. Chega de elogios, esse não é o sentido de meus escritos de domingo.

O treinador do Alecrim, também recém-contratado, veio do Rio de Janeiro.  Seu nome era Walfredo Medeiros. Arlindo Lucas, gente do bem, esteve interino nesse tempo. O novo comandante,  um senhorzinho inteligente, brincalhão que, por ser baixinho e redondo, logo foi apelidado de "Chopinho" pelo grupo, claro, só falado às escondidas. Foi apresentado, começou a trabalhar. Nessa época eu ainda não havia assinado um contrato profissional, ainda era amador, contrato de gaveta, estava, e, ao mesmo tempo que atuava lá no Força e Luz, também defendia o adulto de futebol de salão América, atendendo convite do meu querido-amador Arturzinho Ferreira, por quem tenho a mais profunda e sincera amizade. E pensei continuar assim mesmo tendo me transferido para o rival Alecrim.

Numa quarta-feira, começo do ano de 1979, nesse tempo nosso futebol de salão era levado a sério, organizado, motivado, e todos os jogos tinham lotações sensacionais e até transmissão de alguns jogos. Pois bem, foi dia de clássico contra a ASSEM, equipe reverenciada até hoje por um quarteto fantástico, podemos dizer assim, lembro até hoje da formação que tinha Chiquinho, Geraldo, Plínio e Ivo. O goleiro não lembro, acho que era Luizito. Naquele tempo não era como hoje, esse troca-troca de peças, tinha mesmo o time titular e os reservas, poucos entravam.

O América era formado por Cláudio ou Nilson, mesmo espetacular nível tinha os dois goleiros, Beto Coronado, Eu, Vem-Vem ou Ricardo Bezerra e Juritinga. Ginásio cheio, jogo sendo transmitido, vencemos de 3 a 1, marquei um gol de falta nesse dia. Empolgação total, muita comemoração da torcida, entrevistas e tudo mais. Meus colegas de rua diziam que no América de Artur Ferreira existia uma "panelinha" que só jogavam os deles, era falso, em poucos dias de treinos ganhei a posição no time titular e fui assim até o último jogo e isso me dava um orgulho danado.

Voltando ao Alecrim. Um dia depois do jogão contra a ASSEM, na hora do treino, cumprimentado por alguns jogadores do Alecrim que haviam visto ou ouvido falar sobre o jogo, do massagista Padilha, que disse ter escutado, enfim,  me sentia super feliz. Nos sentamos para ouvir a preleção de "Chopinho". Lembro como se fosse hoje, ele tinha marcado um treino com bola no velho JL de guerra.  Como era costume naqueles tempos, o treinador sempre falava com a equipe antes e ele começa sua explanação. Aparece carrancudo, com cara de bravo, alguma coisa o incomodara e começou a falar com seu sotaque forte de carioca, que ele fazia questão que ficasse mais ainda: "Porra, estava ontem em casa, sentado na minha rede,  e como tinha ouvido muito  falar muito dos jogos de futsal daqui, e é uma modalidade que já fui treinador também, liguei o rádio, sintonizei na partida que estava acontecendo no Palácio dos Esportes, América e ASSEM...", nesse momento, liguei minhas antenas, até achei que viriam elogios, afinal, fui um dos nomes da partida...

E "Seu" Medeiros, era assim que o tratávamos, continuou: "bola pra qui, bola pra colá, beltrano chuta, passa para fulano de fulano para sicrano e, de repente, escuto goooooooooooooooooool, gol do América, gol de Edmo, lindo gol de falta"..., ele falava, narrava, gesticulando, ficando vermelho...", e continuava: "fiquei alguns minutos sem acreditar, ligado no jogo para saber se era a mesma pessoa, lá para tantas o cara confirmou, o pista, disse que o Edmo do América estava jogando no time de futebol de campo do Alecrim...", nesse momento, ele deu uma parada, veio vindo na minha direção e, a papada vermelha inchou, parecia até que teria um infarto, ele gritou se abaixando, olhando nos meus olhos: "porraaaaaaaaaaaaaaa, que time é esse que tem um jogador atuando por outra equipe!? Porraaaaaaaaa, que jogador é você, o que você quer da vida?", gritava a plenos pulmões. Eu, surpreso, já muito irritado, mais que assustado, não sabia o que dizer. Lá vem ele de novo para cima de mim, se abaixa e berra mais uma vez quase me batendo: "porraaaaaaaa, decide c...... o que você vai querer da sua vida. Resolva, é Alecrim ou América, comigo aqui, sou profissional, não vim nessa porra para fazer papel de palhaço, resolva agora, é Alecrim ou América....?

Já sabem né? Nessas horas não tinha jeito, o sangue fervia, subia para a cabeça e eu ficava absolutamente cego e descontrolado. Me levantei de um pulo, e saí espumando e esculhambando: "vá você e o Alecrim pra puta que o pariu, treinador reeira, g.....filho dessa e daquela, pode se fuder você e o seu time...!", pensem numa surpresa. O coitado do "Seu" Medeiros ficou sem voz, sem ação, ainda o vi empalidecer, perder a voa não vi mais nada, saí voando na direção do vestiário,  o meu amigo massagista Padilha me pedia: "calma amarelinho, calma" , mas sem jeito, fui embora. Era o fim de minha passagem que nem bem tinha começado, no Alecrim Futebol Clube. Iria me dedicar somente ao futebol de salão, pensava naquele momento. Não estava triste, juro!

Nesse mesmo dia à noite, nem estava mais pensando no assunto. Naquele dia não teve treino na quadra do América, estava em casa, só fazendo hora para me encontrar com a turma da esquina e depois ir bater papo lá na Lanchonete Chapinha. Bem capaz, não tinha ficado sabendo, do assunto de minha briga ter sido tratado nas rádios, pois estavam lá no JL Justino Neto, Marco Aurélio, Araújo Rodrigues e outros que não recordo.E eles me viram sair fumaçando, Justino Neto ainda veio querer me entrevistar, mas o supervisor ou preparador físico, João Batista, pediu para ele não falar comigo. Me arrumando, nosso entra "Seu" Sinedino entra me chamando: "Dedo duas pessoas lhe chamando lá fora, uma é aquele baixinho seu amigo da Cosern...", disse. Saí. Lá fora estavam Ranilson Cristino e "Seu" Bastos.  O dirigente maior do Alecrim, o homem que bancava tudo no time verde na minha casa, fiquei surpreso. Ele tinha me contratado, mas não tinha feito nenhum contato e nem contrato até então, acho que eu estava assim de experiência...penso.

E Ranilson, já íntimo, me pediu que eu fosse me vestir, "pois Seu Bastos quer dar uma palavrinha com você Pepê", era assim que ele me tratava. E fomos lá no Bar de Lina mesmo, pertinho de minha casa. O poderoso dirigente do Verdão tinha proposta para  me profissionalizar e quase caí para trás quando ele disse: "amarelo, você assina o contrato profissional e vai deixar o América...", eu quis contradizê-lo, interrompi, falando que não queria deixar o América, ele encerrou o assunto: "rapaz, estou lhe oferecendo um salário de quatro mil...", nem lembro a moeda, no entanto, era duas vezes ou três um salário mínimo da época,  era quase o mesmo dinheiro que ganhava meu pai que trabalhava, na época,  de Caixa Geral do Hotel Internacional dos Reis Magos. Nem pensei duas vezes e,claro, aceitei. Na mesma noite entrei em contato e expliquei a situação a Artur Ferreira, ele entendeu, e me desejou boa sorte.

E no outro dia, na sala da FNF, ao lado de "Seu" Queiroz, sob o olhar zombeteiro de Emanoel Juvenal, abcdista de coração, funcionário modelo da entidade, que dedicou 50 anos de sua vida ao futebol do RN,  que tirava onda dizendo que eu ia sofrer e só perder jogando no Alecrim, assinei, várias folhas, de meu primeiro contrato profissional em fevereiro de 1979.
E assim encerrava minha passagem, de tantas maravilhosas lembranças do América, onde fiz algumas partidas e lamentei de verdade não poder continuar a jogar. Essa foi só a primeira das muitas brigas de meus tempos, longo tempo, no Verdão.

Aguardem!

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