Bagunça no quintal
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Bagunça no quintal

11 de maio de 2020
Bagunça no quintal

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Se há realmente uma coisa que a grande pandemia de 2020 pode ter demonstrado à humanidade é que os estadunidenses só salvam o mundo mesmo em Holywood.

Com a previsão de pelo menos 100.000 mortos pela pandemia de Covid-19 e com gente armada na rua invadindo parlamentos estaduais para protestar contra as medidas sanitárias, o colapso escandaloso da maior democracia liberal do planeta parece que já está acontecendo bem diante de nossos olhos, causado, não por uma guerra atômica, mas por um pequeno pedaço de RNA revestido de gordura chamado SARS-Cov-2.

Herdeiro do Império Britânico, que reinou absoluto sobre os mares do globo no século XIX, o Império Norte Americano, que parecia inexpugnável na virada do milênio, hoje convalesce a céu aberto, tendo em duas décadas sofrido um ataque terrorista avassalador em Nova York (2001); um colapso financeiro (2008) e agora uma catástrofe sanitária (2020) de proporções bíblicas.

Por isso mesmo, a capacidade dos EUA liderar o mundo só parece fazer sentido quando a gente bota no jogo a disputa dos Vingadores contra Thanos, na guerra infinita (uma estranha antecipação cinematográfica do colapso global visto em 2020).

Mesmo diante dessa evidência, enquanto escrevo esse texto, em plena ascensão da pandemia no Brasil, ainda é possível identificar um punhado de “patriotas”, com a bandeira norte-americana nas mãos, saindo às ruas atrás do presidente Jair Bolsonaro, tentando repetir, em solo tropical, o mesmo tipo de alucinação que o trumpismo produz no território do “grande irmão” do norte.

No fim das contas, por mais que a terra do “Tio Sam” esteja enredada em suas próprias misérias, vendo seu povo morrer aos montes por falta de estrutura hospitalar, para a “diplomacia” norte americana (que hoje tem uma sucursal no Itamarati) parece que nós, da “América de baixo”, ainda estamos destinados a não ser outra coisa que não “o quintal” dos EUA.

Nesse sentido, parece mesmo que muito pouca coisa mudou na forma como os estadunidenses entendem o papel da América Latina no jogo de forças global, desde que, no início do século XIX, a doutrina Monroe estabeleceu a noção de que seria vital para a sobrevivência do “império liberal” (Ateniense para os “de dentro”, espartano para os “de fora”) que nenhuma potência concorrente pudesse se ampliar sua influência no nosso continente.

Junto dessa tese clássica, soma-se a ideia de que a América Latina deveria ser o local ideal para escoar o capital excedente norte americano e que, em função disso, qualquer dissidência em um país latino minaria a confiança e a crença dos aliados potenciais dos EUA (especialmente os europeus) no cacife ianque de enfrentar os adversários orientais (Russos ou Chineses). Essa articulação de teses fez com que, desde o fim da década de 1940, a prática de derrubar governos tenha sido o esporte predileto da diplomacia de Washington, especialmente na América Latina.

Sim... lógico... o trauma cubano explica muita coisa.

Cuba sempre foi um problema para os EUA. Perto demais de Miami, longe demais de Washington, a disputa com a Espanha pela influência em La Isla deu a tônica dos conflitos políticos e diplomáticos norte americanos no Caribe no final do século XIX.

Mas, justiça seja feita, os norte americanos tiveram um papel fundamental na transformação de Cuba no primeiro e único país comunista das Américas.

Como qualquer historiador diletante sabe de cor, o comandante Fidel Castro não nasceu comunista, nem se forjou na doutrina marxista por algum tipo de idealismo juvenil. Profundamente pragmático, Fidel se constituiu como um líder nacionalista clássico latino americano e não como um revolucionário leninista do tempo da segunda internacional. Fidel vai se aproximado do comunismo depois da derrubada do regime de Batista, na medida em que começa a forjar uma leitura geopolítica mais detalhada do cenário da guerra fria.

Em certo sentido, foi justamente a paranoia macartista que tomava conta dos EUA nos anos 50 e que entendia qualquer resistência à influência norte americana na América Latina como a expressão de algum “plano secreto de Moscou”, que acabaria por fazer com que as relações entre os norte americanos e o governo revolucionário de Cuba se deteriorasse, jogando Fidel e sua revolução no colo de Krushev. Um pouco mais de habilidade e sofisticação da diplomacia imperial daqueles anos poderia ter dado a experiência cubana um sentido diferente.

O fato é que o modo estadunidense de lidar com a América Latina, na base da submissão geopolítica, da intervenção econômica e do porrete militar, fortaleceu a resistência cubana e criou uma mitologia viral que até hoje ecoa no debate político de nações latino americanas.

Mas porque Cuba inspirou tanto o imaginário político latino?

É possível pensar num caminhão de razões. Desde a narrativa mítica da resistência (O David cubano, contra o Golias norte americano), até a perspectiva de que uma revolução nos trópicos poderia ser possível, longe do modelo da insurreição francesa de 1789, ou da revolução de Outubro de 1917, na Rússia.

A noção de que era viável criar uma revolução com gosto tropical, baseada em uma ação de guerrilha que começa pontual e derruba um regime, jogou parte da esquerda latino americana na resistência armada contra cortina de ferro militar que desabou sobre o continente entre os 60 e os 70 do século passado.

Mas não é só isso. Quando a gente fecha essa equação que deu a Cuba, naqueles anos da guerra fria, um poder de inspiração global, temos de levar em conta a figura mítica do médico argentino, Ernesto Rafael Guevara de La Serna, o “Che”.

Muito mais do que Fidel, foi o Che que encarnou a figura do revolucionário da era pós-stalinista. Ernesto Guevara representou como poucos no século XX, a figura do herói romântico, que no século XIX teve como expoente o poeta inglês, Lord Byron.

Che sintetizava muito dessas imagens românticas e heroicas que contribuíram para a canonização política de Byron, morto em 1824, enquanto lutava na guerra de independência da Grécia. Assim como o poeta inglês, ele era um estrangeiro lutando por uma causa em uma terra estranha. Como um pequeno burguês, era antes de mais nada um traidor de classe; alguém que abandonou uma carreira próspera no mundo da medicina para se dedicar a espalhar revoluções campesinas pela África e América Latina. Sua opção por continuar a exportar o modelo revolucionário cubano, mesmo diante do desinteresse de Moscou, já muito longe de qualquer perspectiva trotsiskista de uma “revolução universal”, acabou levando-o a abandonar as tarefas burocráticas em troca da aventura militar. Seu desejo de ação o empurrou para a morte em uma selva boliviana, não sem antes passar por uma incursão frustrada na fronteira do Congo.

É por isso que “O Che” mitológico, além de ser um romântico byroniano, era também uma espécie de “anti-Lênin”. Uma figura oposta a do líder revolucionário bolchevique e que, de certo modo, acabou por representar no imaginário das esquerdas do terceiro mundo, exatamente o contrário daquilo que o artífice da revolução de Outubro de 1917 preconizava como “modelo” de revolucionário marxista.

No sentido clássico, um revolucionário bolchevique é um antípoda do heroísmo romântico byroniano, que dava o tom das revoluções do século XIX. Pragmatismo, disciplina, frieza e subordinação dos interesses pessoais à causa exigiam uma leitura analítica e realista das possibilidades de atuação tática e não permitiam de modo algum, concessões ao impulso da ação pela ação.

Curiosamente esses eram os mesmos elementos elaborados pelo Che em seus escritos. Em seus diários o médico argentino escrevia, num sentido leninista, que o revolucionário deveria enterrar o seu “sentimento de amor” sob a capa de um “cérebro frio” de modo a ser capaz de tomar decisões dolorosas sem mover um músculo. Para a elaboração teórica do Che, uma rebelião sem disciplina era inútil, mas para a sua ação revolucionária a escolha da Bolívia como zona de guerra em que se pudesse exportar o modelo de guerrilha camponesa cubana para todo o subcontinente latino americano, foi um erro estratégico diletante. Imperdoável para uma moralidade leninista estrita.

O paradoxo que cerca a figura mítica do Che é que o exemplo de sua vida e morte, marcado pela imagem poética do herói byroniano, quebra justamente o cânone teórico leninista que ele próprio defendia.

No fim das contas, a grande ironia é que a intensidade do seu fracasso acabou se tornando a força propulsora do sucesso do seu próprio mito, que ajudou a bagunçar mais ainda, por décadas e décadas, o quintal dos norte americanos.

Por isso o combate ideológico em torno da figura do Che é muito mais brutal do que o combate em torno da figura de Fidel, que, do ponto de vista de uma realpolitik, foi muito mais danoso ao Império do que seu camarada argentino, cristificado em sua malfadada aventura guerrilheira na Bolívia.

Talvez tenha sido por isso que, durante o auge da guerra fria, quando a guerrilha ainda se espalhava pelo continente, Thomas C. Mann, chefe do Departamento de Estado do governo Lyndon Johnson, tenha afirmado sobre os povos latino americanos: “Eles não pensam como nós. Seus processos de pensamento são diferentes. É preciso ser forte com eles”.

É justamente por declarações desse tipo que, mais de 50 anos após a morte de Che nas selvas da Bolívia, com a Covid-19 dizimando populações negras e latinas no país de Donald Trump, meu estômago embrulha ao ver gente nas ruas do Brasil, batendo continência para a bandeira norte americana, se dizendo patriotas e abrindo mão da própria dignidade em troca da promessa de um buraco em algum quintal de Miami.

Diante dessas imagens mantenho mais forte uma convicção pessoal: é preciso desprezar com intensidade as vítimas que admiram seus carrascos.

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