OPINIÃO

No confinamento, faz o que tu queres, pois é tudo da lei!

Sim, apesar da flexibilização dos decretos de fechamento de comércio, das aglomerações irresponsáveis e de um despresidente genocida, estamos em boa parte ainda em isolamento social, ou confinamento, como queiram. Alguns, já indo para três desses desta experiência. São quase 90 dias fechados em casa, seja de que maneira for, e independente dos privilégios e particularidades da “quarentena” de cada um, o certo é que todo mundo em maior ou menos grau experimentou tédio e angústia.

Justamente este misto de tédio e angústia leva-nos todos a procurar formas de lidar com isso. Nem todo mundo tem o “home office”, o tal trabalho em casa. Nem todo mundo também consegue se dedicar a uma “produtividade” cultural, artística ou operacional, afinal, cada um sabe de si e onde o sapato lhe aperta.

Nada mais normal, portanto, que buscarmos, individual e coletivamente, saídas para o tédio, ou sendo mais direto, maneiras de nem enlouquecer nem entrar em desespero. E para isso vale tudo: participar ativamente de grupos de zap, fazer ligações pessoais ou coletivas para amigos e familiares, assistir o máximo possível do catálogo da Netflix, etc e tal.

Mas, o curioso é perceber que esta busca por passar o tempo e/ou não endoidar tem o potencial de gerar polêmicas, quase todas bem inúteis ou despropositadas mesmo. Como as das lives musicais, literárias ou políticas. Muita gente vem ironizando ou criticando o excesso de lives. Ora, o número de lives é proporcional ao número de shows, peças teatrais, eventos literários, palestras e encontros políticos quando não estávamos todos presos em casa devido a uma pandemia. Nada mais natural que todo mundo que se exprimia coletivamente deseje continuar fazendo, com a possibilidade tecnológica para isso.

Acho quase infantil criticar o suposto “excesso de lives” até mesmo porque podemos usar para elas o mesmo princípio do controle remoto para quem não suporta a programação da TV aberta: lembra que existe o botão para mudança de canais ou em caso extremo o botão desligar (ou Off). Idem em relação às lives. Você só as assiste se clicar lá no ícone ou parar em cima da postagem da live, caso contrário a live do amigo ou da celebridade não vai pegar ninguém pelo pescoço para obrigar a assistir.

A polêmica sobre a produtividade é outra sem qualquer propósito. Quem se sente disposto a aproveitar o tempo confinado para escrever, compor, pintar, ou qualquer atividade resultante em arte ou algum tipo de produção, seja para passar o tempo, seja para não enlouquecer, que o faça. Quem está desestimulado para tudo, e prefere passar o tempo vendo filmes leves, comendo, cozinhando e conversando amenidades, que também o faça. Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, como cantou mestre Raul Seixas em “Metamorfose ambulante” e esse bem poderia ser o lema coletivo deste período de isolamento social.

Percebo também amigas – pelo menos meia dúzia somente essa semana – se queixando que sofrem críticas (tanto de homens como de mulheres, amigos, familiares ou conhecidos) quando postam nas redes sociais fotos ou vídeos de teor mais sensual ou com menos roupa. Então em meio a uma pandemia que vem matando mil brasileiros e brasileiras por dia teremos um patrulhamento moral do comportamento feminino nas redes?

Enfim, estamos todo no mesmo barco, ou pelo menos no mesmo mar de pandemia, tensão e tédio, mas, talvez em barcos diferentes, e não há razões para neste momento da humanidade brincarmos de inquisidores da moral, comportamento ou preferências alheias. Agora citando Caetano, “Tudo é muito mais”. Principalmente agora, quando tudo em nossa vida parece ser muito menos.

 

 

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1 Comment

  1. Verdade… Para quem gosta de politica, há lives 24 horas por dia por 7 dias: vá na TV 247 (fantástica). para quem gosta de filmes e séries da para maratonar nos canais de streaming…. Ebooks… Isso para quem não está em home office, ou fazendo algum curso…. Dá para fazer muita coisa em casa!!!