Bases salvadoras, ignoradas…
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Bases salvadoras, ignoradas...

6 de dezembro de 2020
Bases salvadoras, ignoradas...

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Bom, uma coisa eu aprendi juntando meus tempos de jogador profissional, 17 anos, por aí e meus mais de 30 de jornalista esportivo. Uma coisa triste, mas é realidade: imprensa, treinadores, dirigentes, essa turma toda, com raras exceções, não dá moral  para os jogadores feitos na base. Isso parece ser um absurdo tão grande, mas tenho convicção do que escrevo pelos exemplos que testemunho, inclusive os que sofri na pele. Não tenho dados, nem embasamento científico para falar isso, mas é o que penso. A exceção é quando o menino estoura, mesmo assim os cartolas, nessa hora, se apressam em vender para investir em contratações de "medalhões", de preferência estrangeiros murrinhas.

O pior é que na contramão dos grandes analistas esportivos, os poucos que pensam, a minoria que é exceção - técnicos e as outras categorias que citei - tiram muito proveito por saber a importância do jogador feito em campo ou, pelo menos, ter chegado cedo ao clube, antes do profissional. Quer exemplos claros? Palmeiras. Outros? Santos, Atlético Mineiro (bem menos agora), Grêmio de Renato Gaúcho, até mesmo posso citar o Flamengo de jovens valores aproveitados ainda de maneira tímida por conta das grandes contratações que realizou.

Basta voltar um pouco no tempo, ou muito, os grandes clubes de nossa história, de conquistas e glórias, quase todos eles fortíssimos por sua base. Eu sempre cito um time nordestino na história. O Vitória da Bahia, nos tempos de Newton Mota, base exemplar, se tornou o maior exportador de valores do Brasil e, talvez, tenha sido a equipe nordestina a passar mais tempo disputado a Série A. Tempos de Matusalém, Vampeta, Edilson, Dida, Paulo Isidoro, depois Júnior e tantos outros. Depois de doze anos sem título baiano, o Leão chega ao vice-campeonato brasileiro em 1993 com vários jovens valores, certame ganho pelo super time do Palmeiras.

Hoje, se realmente seguissem esse exemplo, de investimento de médio e longo prazo, tenho certeza que Bahia, Ceará, Fortaleza, e o próprio Leão, entrariam de vez para o rol dos grandes clubes do Brasil. Infelizmente, você até testemunha um dirigente querer fazer, mudar o pensamento, mas é logo engolido por exigência das torcidas e pressão da imprensa cega, parida por grandes nomes de contratados. O investimento na base, hoje, em Bahia e Fortaleza, infelizmente, voltaram a fazer parte de um plano B. Rapidamente, não tenham dúvidas, todos eles vão voltar à condição de bate e volta na Série A.

Na equipe de ponta,  Palmeiras, maior campeão do Brasil,  incrível como um cara com uma vivência de Luxemburgo não tenha percebido a importância de um Patrick de Paula, Gabriel Menino, Veron, Danilo e tenha insistido com Ramires e, principalmente, o "calo" maior e mais caro, o Felipe Melo, o oposto do futebol praticado pelo Verdão. E todo aquele investimento absurdo da Crefisa - Felipe Melo, Ramires, estrangeiros - parecia naufragar sob o comando de Luxemburgo em sua quarta passagem pelo clube. E ele caiu sem ver o óbvio, coisa que até o funcionário do clube, o Cebola, já sabia.

Outro caso igual é o São Paulo. Até um dia dia desses, Neto, Sormani, Benja, Quesada e uma curriola de analistas pediam a cabeça do Fernando Diniz. E quem foi que salvou Diniz? Simples de responder: ele mesmo, pois teve a coragem de dar moral aos meninos Igor Gomes, Brener, Gabriel Sara que, comprovando o que disse no começo desse texto, esse bom jogador, bom mesmo, de verdade, era perseguido pela imprensa cega e até dia desses nas redes sociais, pela torcida, o que provocou uma reação do Diniz, que o admoestou para que não se importasse com torcida ou redes sociais. A partir daí, jogo jogado e bom para o São Paulo. Portanto, o tricolor e Diniz devem aos meninos, muito menos a um caríssimo Daniel Alves, ou ainda os estrangeiros Arboleda e Juafran, ou mesmo o experiente Hernanes, que é um jogador que respeito.

Para quê, me pergunto todos os dias, tantos estrangeiros nas equipes? Essa invasão vem se dando até no Nordeste. São gastos rios de dinheiro para trazer jogadores inexpressivos, comuns, caros, mas, sempre, de forma absurda e estranha são endeusados pela imprensa e, por tabela, torcida. Cito o exemplo do De Arrascaeta, meia do Flamengo. Desde que voltou de cirurgia o uruguaio anda em campo, mal participa das jogadas, mas raramente aparece um analista com coragem ou conhecimento para fazer uma crítica ou dizer claramente que ele está "mancando"a equipe. Agora, erre um Natan, um Hugo Souza, Arão ou o coitado do Lincoln, erre!? Essa semana mesmo a notícia da malhação do momento é sobre esse  jovem atacante do Flamengo que, me parece, foi rebaixado para o time Sub-20 porque se recusou a ser vendido para o Chipre. Eu também não iria.

Absurdos como esses vemos todos os dias. Testemunhamos aqui no ABC, no América, meninos promissores sendo negociados a preço de banana, o clube ficando com uma merrequinha de direitos federativos, ao invés de, a exemplo dos grandes clubes, colocá-los para jogar no time principal, dar moral, valorizar, aí sim, depois vender porcentagens ou completamente, mas por um preço justo, de retorno garantido ao clube. Não sei de que forma precisamos mudar, se virando empresa, co-gestões, responsabilidade fiscal, mas o certo é que já passou da hora de se tornar obrigatoriedade um investimento nas bases muito maior do que é feito, até, no profissional. Só desse forma, num futuro próximo, pelo menos aqui no RN e no Nordeste mais pobre, vamos ter a garantia da continuidade desse esporte.

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