Beto Franzisko, o artesão que transformou a rua num ato contínuo de alegria, esperança e resistência
Natal, RN 17 de jul 2024

Beto Franzisko, o artesão que transformou a rua num ato contínuo de alegria, esperança e resistência

29 de dezembro de 2020
Beto Franzisko, o artesão que transformou a rua num ato contínuo de alegria, esperança e resistência

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O coordenador estadual do Movimento de População em Situação de Rua no Rio Grande do Norte Beto Franzisko foi encontrado morto, segunda-feira (28), em casa, no bairro de Mãe Luíza. As informações preliminares apontam infarto fulminante como causa da morte do ativista, referência da luta em defesa das pessoas em situação de rua no Estado.

Natural de Sobral (CE), Beto nasceu Francisco Carvalho Félix, tinha 68 anos, era artesão e vivia desde os 9 anos em situação de rua, alternando abrigos sob um teto ou o céu como moradia, a depender do trabalho:

“Trabalho na rua, toda minha vida é na rua, eu não tenho patrão, não tenho empregado, não tenho nada. Faço minha vida se movimentar da melhor maneira possível, de acordo com meu trabalho. Se eu vendo bem e meu trabalho me dá uma boa renda vou para um bom hotel, vou para uma bela casa. Quando eu não vendo nada eu vou para a rua, essa é a questão”, explicou num filme feito em 2015 a partir da experiência dele na rua.

Franzisko foi personagem central de um documentário, em 2015, dirigido e roteirizado pela então estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará Rosana Reis, sob a coordenação do professor Daniel Dantas Lemos. Em “Conheço o meu lugar – a trajetória de Beto e outros Franciscos”, a diretora do filme chama Beto de “personagem de si mesmo” e lembra que o percurso dele até ali era semelhante a de tantos outros Franciscos pelo país:

- Se para Leminski a rua é a parte principal da cidade, para Francisco Carvalho Félix, o Beto Franzisko, ela é toda a sua vida. Aos 63 anos de idade, desde os 9 é nos logradouros públicos, principalmente os de Fortaleza, que esse sobralense constrói o emaranhado de sua história. Artesão e militante do Movimento Nacional da População de Rua no Ceará, bandeira que estampa no peito, carrega numa única, simples e inseparável bagagem todos os seus bens materiais. É através das memórias afetivas de Beto, suas opiniões e contradições, dores e alegrias, que reconstruímos alguns espaços da cidade e as histórias de tantos outros homens e mulheres que usam ou usaram esses lugares como suas moradias e fontes de subsistência. Personagem de si mesmo, Beto é reflexo de uma conjuntura social mais ampla e extremamente complexa”, diz.

Beto Franzisko tinha 68 anos de idade e 9 filhos / foto: reprodução

O velório e sepultamento do ativista estão marcados para quarta-feira (30), quando está prevista a chegada de familiares, vindos de Minas Gerais. Beto era pai de 9 filhos, que moram em Minas, Portugal, EUA e mantinha contato com todos.

Brincando, os amigos o consideravam um “nômade”. Embora a relação dele com Natal venha de muito tempo, Beto passou a representar o PopRua no Estado potiguar em 2014, foi embora, voltou em 2016, viajou de novo e aportou de vez em Natal desde 2018.

Franzisko deixou, além dos filhos e parentes, dezenas de amigos e admiradores:

- Beto deixa um grande legado para o movimento social das pessoas em situação de rua, especialmente as que trabalham com artesanato e economia solidária. Sua memória inspirará quem luta incansavelmente por um mundo sem qualquer forma de exploração e opressão”, descreve a nota assinada pelo movimento que Franzisko ajudou a construir no Estado.

Beto Franzisko ao lado do Vanílson Torres, do PopRua

No filme dirigido por Rosana Reis, o ativista conta que cerrou as fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, durante a ditadura militar, e, já militando no movimento PopRua, passou a lutar em favor tanto das pessoas que desejavam sair das ruas como daqueles que queriam permanecer:

“Nós do movimento temos interesse em oxigenar isso. Que as pessoas saiam das ruas, mas aqueles que querem ficar que fiquem com dignidade. Que tenham lugares para tomar banho, assear, não tornando a área pública uma constante latrina. Porque eles não têm apoio nenhum na rua: não tem lugar para tomarem banho, higienizar, não tem lugar para eles trocarem de roupa e muito menos roupa para trocarem”, disse.

Sobre a velhice, dizia que não esperava passar dos 50 anos:

“Você envelhecer vivendo constantemente nas ruas é mais complicado, você envelhece mais rápido. Mas você envelhecer dentro de uma vida feliz, você realizando aquilo que você quer e o que você gosta você nem sente a velhice chegar. Eu nunca me imaginei com 63 anos. Achei que se chegasse aos 50 chegava a muito”, refletiu.

Tão logo a notícia da morte do ativista foi divulgada, dezenas de pessoas e entidades próximas ao PopRua se manifestaram nas redes sociais. O Movimento dos Trabalhadores Sem-terra (MST) e a CUT se solidarizaram com a perda em notas oficiais. A vereadora Divaneide Basílio, a deputada Isolda Dantas e o deputado estadual Francisco do PT lamentaram via twitter a perda para o movimento. Já a vereadora eleita Brisa Bracchi (PT) gravou um vídeo emocionada e se despediu do companheiro:

- Conheci Beto na luta, e onde mais poderia ser ? Era inspiração cotidiana, era resistência e força de quem nunca deve baixar a cabeça. Era também abraço apertado, e mensagem diária de carinho e cuidado. A dor da sua perda hoje será força para fazer, também por ele, outra Natal acontecer, escreveu.

Vereadora eleita Brisa Bacchi contou com o apoio de Beto Franzisko na campanha vitoriosa para a Câmara Municipal / Foto: cedida

A deputada federal Natália Bonavides também destacou a força e a ternura de Beto Franzisko:

- A dura realidade que enfrentamos era atenuada com sua ternura. E sua coragem inspira para enfrentar os desafios que a população em situação de rua vive em sua luta”, disse.

A rua, para Beto Franzisko, era a própria vida. Foi ali, a céu aberto, que o artesão viveu os momentos mais felizes da vida. Mágoa ? Nenhuma. No depoimento à jornalista Rosana Reis, a rua era a própria liberdade:

- A rua, nos momentos mais difíceis, foi sempre meu abrigo, não teve outro lugar para eu ir. A rua foi o lugar que eu me encontrei. Eu não tenho a rua como a grande mazela. Minha vida na rua também tem meu lado liberto, tem meu lado livre. Não tenho a rua como a grande comoção negativa da minha vida, não... Minhas grandes alegrias são nas ruas. São nas ruas que eu vendo meu trabalho, são nas ruas que eu conheço pessoas, são nas ruas que eu namoro, são nas ruas que eu paquero, são nas ruas que eu conquisto coisas, são nas ruas que eu realizo projetos e hoje eu defendo um povo que está nas ruas. E o artista é isso mesmo. Quase todos os artistas que eu conheço são iguais a mim: tem muitas relações, muitas mulheres e, geralmente, acabam sozinhos. Como é meu caso agora”, se despediu.

Confira o documentário “Conheço o meu lugar – a trajetória de Beto e outros Franciscos”:

https://www.youtube.com/watch?v=pIuroeLherA&feature=youtu.be

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