OPINIÃO

Capítulos de um genocídio brasileiro

Foi o professor Leandro Karnal, com sua didática apurada e sua erudição histórica impecável, que aproveitou a semana que antecedeu o Domingo de Ramos, na qual o Brasil passa por mais uma de suas incontáveis catástrofes sanitárias (a maior dos últimos cem anos); quem nos lembrou no Facebook das origens da palavra “genocídio”.

Criada pelo jurista polonês, Raphael Lenkin, em 1943, para fazer referência ao extermínio do povo judeu e da cultura Íidiche da Europa oriental, o termo teria uma aplicação técnica muito exata e delimitada, que o aproximaria da noção de “limpeza étnica”.

Genocida seria assim aquele que promove ou empreende esforços para executar um genocídio; ou seja, o extermínio físico, simbólico e cultural de uma determinada etnia.

Outro grande professor de história, o catarinense Luis Felipe de Alencastro, docente da Universidade de Paris Nanterne, nos lembra, no seu livro “O trato dos viventes”, que o nosso querido Brasil foi constituído a partir de um dos maiores choques epidemiológicos da história, causado pelo processo de integração microbiológica do planeta, impulsionado pelas grandes navegações dos séculos XV e XVI.

Gripe, varíola, rubéola e sarampo não eram doenças conhecidas dos povos originários que habitavam a América antes da chegada dos europeus e africanos ao continente.

Se na África, a barreira microbiológica das doenças tropicais endêmicas atrasou a entrada dos europeus dentro do continente, dizimando guarnições inteiras de marinheiros portugueses, franceses, holandeses e ingleses antes que pudessem entrar mais do que 40 ou 50 quilômetros dentro do continente; nas Américas, a hecatombe microbiológica teve o sentido inverso e facilitou a ocupação do território.

“A limpeza étnica” descrita pelo ilustre jurista asquenaze, no Brasil, não se implementou com a frieza do dispositivo técnico das fábricas de morte nazistas. Não foi a racionalidade industrial dos campos de extermínio, nem a expertise administrativa germânica, com sua indiscutível capacidade de realização, que dizimou as etnias originarias da costa e dos sertões do Brasil.

Estima-se que no tempo de Cabral houvesse entre três e quatro milhões de índios vivendo ao largo da costa brasileira (apesar desse número ser sempre bastante difícil de precisar). Eram centenas de tribos distintas falando mais de mil línguas, apresentando uma das maiores diversidades sócio culturais do planeta.

Em 1808, segundo Laurentino Gomes no seu primeiro livro sobre o tema da escravidão no Brasil, com a chegada da corte portuguesa para o Rio, a estimativa era de que o país tivesse os mesmos três milhões de habitantes, sendo que um quarto deles de descendentes de escravizados africanos e colonos portugueses.

As populações originárias estariam reduzidas a cerca de 20% do que Cabral teria encontrado quando aportou em Touros…. ops… quer dizer… em Porto Seguro.

No ritmo da hecatombe epidêmica, o Brasil teria exterminado aproximadamente um milhão de índios a cada cem anos. Tratar esse morticínio como um simples “dado biológico”, sem ligações com as forças de mercado que impulsionaram a ocupação das américas e a colonização na África e na Ásia, é uma das formas de naturalizar o massacre. Muito semelhante ao que se faz para justificar o extermínio dos índios norte americanos pela fome causada a partir aumento do preço da pele de búfalo no mercado internacional. Com a corrida para o oeste de populações de origem europeia abatendo, no ritmo sincopado da Winchester 22, búfalos e bisões quase até a extinção total da espécie, se consolidou uma gigantesca “limpeza étnica” tartada cinicamente como um simples “dano colateral” das demandas de mercado.

Milhares Arapawas, Sioux, Cheyennes e Dakotas, povos da pradaria, grupos nômades que não dominavam técnicas agrícolas mais sofisticadas e dependiam fortemente das manadas de Búfalos para sobrevier, morreram de fome, deixando o meio oeste norte americano “vazio” para ser ocupado pelos “mocinhos” dos filmes de bang bang que a geração de meu pai assistia na matinê do Cinema Rex nos anos 50.

Quando a gripe espanhola aportou por esses litorais, no começo do século XX, a expectativa média de vida do brasileiro era de 33 anos. Peste bubônica, tuberculose, varíola, tifo, cólera, malária e febre amarela eram parte inerente da vida nacional e arrasavam populações inteiras de brasileiros, em uma época em que não havia SUS nem nenhuma sombra de ação coordenada de saúde pública no país.

Eu sei, eu sei.

Nós temos esse cacoete de professor universitário de se ater ao sentido técnico dos termos que aplicamos em nossos discursos. É nossa tarefa preservar uma certa “gramática acadêmica” que nos permita definir as coordenadas do debate a partir do domínio da linguagem, porque afinal, precisamos ser guardiões de alguma racionalidade em um mundo que cada vez mais parece se achar em meio de um surto psicótico coletivo ou uma bad trip de ácido daquelas bem fudidas.

Faz parte da tarefa institucional dos herdeiros da academia de Platão defender uma suposta pureza conceitual do uso dos termos no discurso público. A nossa tarefa quixotesca é a de preservar uma semântica correta para evitar surpresas sintáticas pouco ortodoxas. Talvez esse seja um dos primeiros e mais básicos ensinamentos que qualquer neófito que se aventure a passear pelos nossos labirínticos corredores universitários precisa aprender.

Mas o povo, esse inventa línguas, sem dar nenhuma trela para o comovente esforço do professor Karnal em tentar lançar luz nas tretas de Facebook e buscar preservar alguma racionalidade em meio a ininterrupta Shitstorm do twitter, parece que já está redefinindo, ao menos no Brasil, o termo “genocídio”.

Acostumados que estamos a morrer de peste, com a neglicência dos governos ou a conivência criminosa de nossas lideranças eugenistas, sabemos bem, nesse país, que o extermínio de raças e povos não se dá só com gás e com bala de fuzil da polícia. Nem muito menos que precisa ser anunciado em um programa claro com pontos bem definidos em alguma obra tipo Mein Kampf.

Por isso, imaginando que você não esteja defendendo sua dissertação de mestrado ou sua tese de doutorado, sem medo de estar caindo em alguma imprecisão conceitual embaraçosa, pode ficar a vontade.

Grite da janela do seu condomínio, digite nas redes sociais, piche nos muros da cidade, tatue na testa, mas, fundamentalmente, guarde na memória essa palavra, para que as gerações que sobrevivam a essa catástrofe sanitária que vivemos possam saber o inferno que estamos passando.

G.E.N.O.C.I.D.A

 

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Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.