CIDADANIA

Universidade do Ceará aguarda liberação da Anvisa para teste de vacina contra covid-19 em humanos

Desde o dia 10 de maio deste ano que a Universidade do estado do Ceará (Uece) aguarda liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para testar em humanos a vacina que vem desenvolvendo contra covid-19. O imunizante começou a ser testado ainda em abril de 2020, durante o trabalho de doutorado do pesquisador do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Uece, Ney Carvalho. Até agora, a eficácia da fase de pré-testes, com a aplicação da vacina em camundongos, foi superior a 82%.

Os resultados obtidos na etapa pré-clínica foi muito promissor pois os camundongos, assim como os humanos, não são animais alvo dos vírus da vacina e da, mesma forma, não adoeceram e ainda apresentaram anticorpos anti-IBV que foram capazes de neutralizar o sars-cov 2. Essa neutralização, mesmo em baixa concentração vacinal, foi superior a 82%. Daí se gerou uma patente de novo uso dessa vacina, agora contra sars-cov 2”, detalha Ney Carvalho.

Para a produção da vacina é utilizado um coronavirus animal, a partícula completa e enfraquecida do vírus da bronquite infecciosa aviária. A técnica é completamente diferente das utilizadas nas vacinas existentes hoje no mercado. O uso de vacina cujo imunizante é um coronavírus de aves é considerado seguro e até indicado, já que os registros na literatura de quase 60 anos apontam que este vírus não produz nenhuma doença ou sintoma em seres humanos.

Apesar dos resultados promissores, por enquanto, o único financiamento previsto para avançar com o estudo é do Governo do Estado do Ceará. Segundo o pesquisador, um possível financiamento do Ministério da Saúde será possível após o comunicado oficial da vacina, o que só pode ser feito quando ela for protocolada pela Anvisa.

Ney Carvalho, pesquisador da Uece I Foto: cedida

“Na etapa pré-clínica não recebemos financiamento de ninguém, era apenas um projeto de doutorado. Com os resultados fluindo, a patente, a pré-submissão, o governo do Estado do Ceará prometeu-nos ajuda. Até o momento só eles”, revela Ney Carvalho, pesquisador da Uece

Após a submissão, isto é, gerar um número de protocolo, a Anvisa fará as observações formais quanto aos procedimentos de solicitação. Autorizada a 1ª fase do teste clínico, obedeceremos critérios de inclusão e exclusão dos indivíduos a serem testados. Os resultados, sendo satisfatórios, permitirão o avanço para as fases 2 e 3. Então, após os resultados, sendo estes condizentes com uma boa eficácia, a vacina poderá ser liberada para uso. Na etapa pré-clínica não recebemos financiamento de ninguém, era apenas um projeto de doutorado. Com os resultados fluindo, a patente, a pré-submissão, o governo do Estado do Ceará prometeu-nos ajuda. Até o momento só eles”, revela Ney Carvalho, sobre o apoio dado pelo governador do Ceará, Camilo Santana (PT).

Desinteresse do Governo Federal

No entanto, apesar da possibilidade de investimento, por enquanto, não há qualquer sinalização da gestão de Jair Bolsonaro (sem partido) nesse sentido.

Não é normal que o Governo Federal esteja desinteressado na existência de vacinas nacionais, não é normal que isso ocorra, mas na atual gestão nós compreendemos. Eles não têm o menor desenvolvimento de pesquisas internamente, tentam transformar o país numa simples plataforma exportadora de produtos agropecuários e minerais. A universidade, inclusive, tem sido bastante atacada nesse sentido”, critica o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fábio Sobral.

Na avaliação do economista e professor da UFC, a produção interna de vacina para combate à covid-19 permitiria ao governo diminuir os gastos com importação, realizados em dólar, além de evitar a perda imensurável das mais de 435.823 vidas de pacientes que morreram em decorrência da covid no Brasil, país com a segunda maior taxa de mortes pela doença no mundo.

Creio que o atraso da vacinação da população é uma política desenvolvida pelo próprio Ministério da Saúde na última gestão (Pazuello) e na gestão atual (Queiroga). Houve um atraso na negociação e compra das vacinas, houve desinteresse, como já foi demonstrado pela CPI da covid, em fechar acordos com empresas que ofereceram vacinas porque eles passaram a desenvolver a ideia fajuta da imunidade de rebanho, como se um vírus não sofresse mutações e criasse variantes mais agressivas. Quanto maior o número de infectados, mais difícil fica de combater. Essa política levou ao desprezo pela vacina, pelos cuidados com o isolamento social e com a vida dos brasileiros e brasileiras, gerando um morticínio que jamais pensamos que pudéssemos sofrer”, ressalta Fábio Sobral.

Vacina mais barata do Brasil

Além de ter sido desenvolvida no Brasil, a vacina da Uece, batizada como 2H120, é a mais barata no mercado brasileiro. Enquanto cada dose da Coronavac custa R$ 58,20, a da Pfizer U$ 12 e a de Oxford/ AstraZeneca sai por U$ 3,16, a vacina cearense custa, apenas, R$ 0,04, sem contar com custos de pessoal, que também não estão embutidos nas outras vacinas, e insumos.

 Gotas no nariz

Um outro diferencial da vacina desenvolvida na Uece é que ao invés de injeção, ela é aplicada por meio intranasal.

A ideia da vacina ser intranasal veio da própria aplicabilidade delas nos animais quando eram vacinados. Esta é a principal via de imunização deles e os testes em camundongos corroboraram com resultados significativos de eficácia, o que vem muito a facilitar a administração do imunizante”, avalia o pesquisador da Uece, Ney Carvalho.

Vacinas rejeitadas por motivos ideológicos?

No último dia 10 de maio, o Governo do Piauí criou a lei de nº 7.499 que normatiza o uso da vacina Sputnik V, desenvolvida pela Rússia. Mas, desde 26 de abril, a Anvisa negou o pedido de autorização excepcional para importação da Sputnik V.

Diante das críticas à Agência brasileira, o caso foi parar o Supremo Tribunal federal e em 10 de maio, o ministro Ricardo Lewandovski pediu que a Anvisa informe quais documentos estão pendentes para liberação da vacina russa. A lista foi enviada ao STF, que ainda não decidiu sobre o assunto.

“Tem surgido afirmações de vários lados de que há um interesse de não promover a compra da vacina pelo Governo federal. A Anvisa alega que é um problema de documentação, não creio que se fosse só isso, haveria tal indiferença. Depois surgiu a ideia de que a vacina teria vírus que se replicariam internamente, o que também é muito difícil de acontecer em uma vacina que está sendo aplicada em uma grande quantidade de países e pessoas. Há algo muito estranho”, especula o professor Fábio Sobral, que lembra como o histórico de pesquisas de ponta da antiga União Soviética, que disputava a corrida espacial com os Estados Unidos, foi herdado pela atual Rússia. No caminho contrário, o atual governo brasileiro tem caminhado no sentido do negacionismo científico.

Fábio Sobral, do Departamento de Economia da UFC I Foto: cedida

“Será que não há uma burocracia excessiva e a defesa dos interesses de laboratórios e das big farmas de países capitalistas desenvolvidos europeus e norte-americanos?”, questiona Fábio Sobral, professor do Dept. de Economia da UFC

“Como o Governo Federal atual tem outros objetivos em mente, que são superiores ao respeito à vida das pessoas no país, ele promove esses outros interesses. Será que não há uma burocracia excessiva e a defesa dos interesses de laboratórios e das big farmas de países capitalistas desenvolvidos europeus e norte-americanos? Até porque também houve uma grande dificuldade para aquisição da Coronavac. O atual presidente chegou a dizer que não compraria, houve negativas, mas acabou sendo obrigado a voltar atrás. Houve uma rejeição à vacina chinesa e russa por motivos ideológicos e doentios”.

Com o bloqueio de 2,7 bilhões de reais feito pelo Governo federal no orçamento do Ministério da Educação, muitas universidades estão com seu funcionamento ameaçado em 2021. Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o corte nos repasses para as universidades federais é de 18,16% em relação a 2020, o que levou a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a anunciar que vai fechar as portas.

A medida tem impacto direto em todos os trabalhos de pesquisa em desenvolvimento no país atualmente. Para um governo que acusa os opositores de interferência ideológica ao ouvir qualquer crítica que desmonte suas práticas pouco republicadas, os cortes são a conta de uma ingerência política que tem interferido, cada vez mais, no aprofundamento do atraso político, econômico e social do Brasil.

“As vacinas são uma questão política. São, essencialmente, a demonstração da capacidade do país de lidar com elementos biológicos e laboratoriais avançados. Como nós temos um país que caminha rapidamente para o atraso e abandono da sua pesquisa, da formação de cientistas e da cultura, uma vacina passa a ser desprezível, um elemento politicamente não priorizado. O Brasil, ao longo do tempo, acumulou conhecimentos que poderiam destacá-lo em diversas áreas promissoras, mas o atual governo trabalha pelo retorno do Brasil a estágios anteriores à industrialização. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem a mesma concepção daquelas pessoas que desenvolveram a teoria de que o país deveria se manter como produtor de bens primários e não de setores industriais, sendo coniventes com a desindustrialização. Vacina é um elemento de ponta num processo científico-industrial-tecnológico, eles não têm interesse nisso”, assevera Fábio Sobral, professor do departamento de Economia da UFC.

O pesquisador do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Uece, Ney Carvalho, é o entrevistado desta segunda (17) do Balbúrdia. Para conferir o programa, que começa às 18h, é só acessar o link da agência Saiba Mais no youtube.

▶️ O Balbúrdia é transmitido ao vivo, a partir das 18h, no canal do YouTube da agência Saiba Mais

 

 

 

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