DEMOCRACIA

Sidarta Ribeiro: “A Ciência no Brasil está na UTI desde o golpe de 2016”

Quando aconteceu o golpe de 2016, que retirou a presidenta Dilma Rousseff da presidência do Brasil, teve início o desmantelamento do Sistema Nacional de Ciência, Pesquisa e Inovação. A afirmação é do neurocientista Sidarta Ribeiro que participou nesta segunda-feira, 24, de uma entrevista ao programa Balbúrdia. Ele é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vice-diretor do Instituto do Cérebro e um dos diretores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para Sidarta, “o Brasil, do ponto de vista da Ciência, está na UTI” desde o governo de Michel Temer.

Até então, “o Brasil estava andando para frente”, investindo em torno de 1,8% do Produto interno Bruto (PIB) em Ciência. Mas a partir de Temer começou o processo brutal de contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e com ele o financiamento da pesquisa no país. Hoje, “o contingenciamento está em 90%”.

Ele alerta que estamos diante de um quadro de lesa pátria. “Estamos no país em disputa. O que está ocorrendo agora é um desgoverno completo. O voto ‘zoeira’ está custando a vida de 500 mil pessoas. Precisamos vencer essa burrice crônica do Governo”.

Com o mundo há mais de um ano enfrentando uma situação totalmente atípica, com a pandemia da Covid-19, Sidarta falou sobre os impactos principais desse momento na sociedade brasileira. Ainda que não exista clareza sobre os danos ao sistema nervoso causado pelo vírus, ele ressalta os efeitos psicológicos e emocionais.

“A pandemia nos traz muitas camadas de medo. E tudo isso traz um estresse crônico. Vivemos uma situação complicadíssima “, afirmou. Para ele, não é uma situação simples do ponto de vista sanitário nem do ponto de vista psicológico.

Para o neurocientista, há pouco preparo da sociedade brasileira para lidar com o problema da pandemia, que permite todo tipo de manipulação por aqueles que negam a Ciência.

Temos um longo caminho a percorrer para que a Sociedade se aproprie do conhecimento científico”, avalia Sidarta.

Sidarta avalia que o Brasil precisa vencer o que classifica de “ofensiva antidemocrática” e “de uma burrice profunda”: “o governo brasileiro está totalmente desacoplado de racionalidade científica para lidar com emprego, com vacina, com tudo”.

A Ciência para ele ocupa local central no desenvolvimento das nações, mas “aqui, no Brasil, estamos em um lugar periférico. É preciso mudar isso. É preciso que a ciência ocupe espaço, também, na política”, ressalta.

Sidarta também falou sobre o processo de regulamentação da Cannabis medicinal em curso no Brasil. Isso porque o grande desafio é superar a resistência sobre a sua produção em escala industrial que, como tal, necessitaria da liberação do cultivo.

Para ele, a guerra às drogas, que nos anos 30/40 criou a ideia de que algumas substâncias são “criações do diabo” levou à proibição de várias, como a maconha. Contudo, como um dos diretores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Sidarta explica que todas as substâncias têm uso e riscos e precisam ser regulamentadas.

Tem toda uma revolução científica na medicina baseada na cannabis”.

Essa é na avaliação do professor uma das pautas que avançou nas discussões a partir de um alinhamento entre três forças: dos pacientes, a ciência e o mercado.

Quem é contra legalizar a maconha deveria saber que já é legalizada há três anos aqui no Brasil. Há medicamento legalizado. Mas, é legalizada para ricos. O medicamento é caro. O que estamos lutando é pelo acesso.”

Ao final, Sidarta falou da relevância científica do instituto do Cérebro, uma instituição de ponta sediada aqui em Natal que completa 10 anos agora, e pediu “que todos sonhem coletivamente. Precisamos ressignificar o Brasil e só vamos conseguir isso se sonharmos juntos”.

Confira entrevista na íntegra.

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