Sob aplausos e com cuidados sanitários, teatro da Casa da Ribeira reabriu as portas ao público neste fim de semana
Natal, RN 1 de mar 2024

Sob aplausos e com cuidados sanitários, teatro da Casa da Ribeira reabriu as portas ao público neste fim de semana

8 de agosto de 2021
Sob aplausos e com cuidados sanitários, teatro da Casa da Ribeira reabriu as portas ao público neste fim de semana

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Mais de quinhentos dias separam a data em que a Casa da Ribeira fechou as portas para aderir à uma quarentena, teoricamente breve, em março de 2020, e a noite deste sábado, 7, de retorno parcial do público.

Com o espetáculo de teatro documental “Jacy”, o grupo Carmin disponibilizou 104 ingressos para a temporada de um fim de semana que marca a retomada dos atores, equipes de produção e audiência na grande sala de tijolos aparentes, localizada no bairro Ribeira, em Natal.

A principal preocupação da equipe para essa data tão aguardada era saber se as pessoas teriam confiança o suficiente para reocupar os assentos em frente ao palco. Com capacidade de público atingida, olhares atentos e a satisfação visível nas dezenas de faces antes, durante e após a apresentação confirmam que ainda há memória sobre a experiência teatral na cidade.

“Quando apaga a luz, a pessoa já sente um negócio diferente”, narra a psicóloga Monique Silva, 27, veio de Currais Novos aproveitar o fim de semana em Natal e assistir à peça.  Ela considerou seguro o esquema montado pela equipe da Casa, com organização de entrada para não gerar filas, redução distanciamento social e uso obrigatório de máscaras e álcool em gel.

Monique veio acompanhada do estudante Péricles Filgueiras, 20, que lembra não ter conseguido entrar para ver o espetáculo na última vez em que esteve na Casa da Ribeira, ainda antes de ser decretada pandemia no mundo.

“Eu não estava lembrado de como era ver as pessoas falando alto sem máscara. As pessoas se expressando de fato. É uma coisa muito doida porque se você filmar uma peça, não percebe isso. É quase como um filme. Mas ver a peça, de fato, presencialmente, é uma experiência muito massa. Espero que aconteça mais vezes”, destaca o universitário.

Os dois souberam da apresentação por meio da artista plástica e estudante Maria Eduarda, 20, que ainda convidou pelo menos mais três amigos.

“Fiquei muito empolgada com essa volta do teatro porque acho que é uma expectativa de respirar, finalmente. Principalmente para quem é artista trabalhando com as questões específicas do teatro. Você ficar fechado ao teatro remoto é, de certa forma, limitante", ressalta Eduarda, contando que ela mesma chegou a apresentar uma peça no formato online.

Ingressos para as duas noites de apresentação no teatro da Casa da Ribeira foram esgotados uma semana antes das apresentações. Foto: Luana Tayze/Cedida.

Após saber da apresentação pelas redes sociais, a astróloga Célia Silva, 34, tirou uma hora do sábado para aproveitar a peça. “Eu senti muita falta porque é algo vivo. É diferente de você estar na frente de uma tela. É como se a gente estivesse ali no palco junto com os atores. E isso é muito bom", celebrou.

"O dia a dia da gente fica muito vazio, quando não temos outro tipo de programação. A gente fica naquele automático: casa-trabalho, trabalho-casa, esposo, filho... A gente termina ficando no automático, a cabeça não desliga. E vir ao teatro é poder reavivar algo que estava adormecido dentro da cabeça da gente", comentou Célia emocionada, após o fim do espetáculo.

O brilho nos olhos da cabelereira Dora Rocha, 56, confirmam a satisfação por reviver não só o teatro, mas uma atividade cultural minimamente possível fora de casa.

"Quando eu comprei a entrada, me senti flutuando de saber que a gente estava voltando à vida. É muita emoção mesmo essa saída de casa depois de quase dois anos", comemorou.

Quitéria Kelly entrou e saiu emocionada do palco. "Perdi muitos amigos na pandemia. Pessoas que estariam aqui. Senti um impulso de de de chorar, sabe?", conta a atriz que interpreta interpreta Jacy, a personagem que dá nome à peça.

"Não acredito que chegamos até aqui e tantos outros ficaram no meio do caminho mas por eles também estamos retomando, quem sabe até a história disso, porque a arte é isso, né? Ressignificar nosso tempo", sintetiza.

No espetáculo, Jacy é uma uma potiguar nascida em Ceará-Mirim, na década de 1920. A personagem é uma mulher real, que viveu em Natal no período da Segunda Guerra Mundial, teve um romance com um soldado americano, na época, e depois foi morar no Rio de Janeiro em plena vigência da Ditadura Militar.

A história mescla fatos reais com possibilidades criadas a partir dos pertences de uma mulher que teve uma frasqueira recheada de objetos pessoais abandonada na calçada de casa, no bairro Tirol, em 2010. A maleta foi encontrada pelo ator, diretor e escritor Henrique Fontes e a curiosidade despertada sobre aquela pessoa deu origem ao espetáculo que nasceu em 2013, na Casa, e que já rodou 22 estados do país.

Numa época em que os pilares democráticos são frequentemente questionados e o descaso, principalmente do Governo Federal, afunda o país numa tragédia com mais de 560 mil mortos pela Covid-19, a história encaixa como uma luva e "bate mais forte", explica o diretor que contracena com Jacy.

"Jacy" faz uma remontagem dos últimos 100 anos de história de Natal e do Brasil, remontando a vida de uma senhora que morreu aos 90 anos após ter vivido a Segunda Grande Guerra, a Ditadura Militar e acompanhado o desenvolvimento de grandes cidades do país. Foto: Divulgação.

Fontes questiona a falta de participação do poder público na retomada do teatro e demais programações culturais populares. Ele lembra que os primeiros decretos voltados para a pandemia sequer mencionavam a atividade, focando apenas em setores econômicos mais fortalecidos, como o cinema, por exemplo.

"O decreto que fez menção ao teatro, dizendo que não podia abrir foi oito meses depois que saiu o primeiro decreto", conta. "A gente não era nem citado", destaca.

Ele explica que a estrutura do teatro foi mantida por meio de recursos da Lei Aldir Blanc, mas reclama não ter havido e não existir expectativa de investimentos específicos dos poderes no setor, como ocorreu com vários segmentos econômicos.

"A gente ainda tá num lugar que parece ser meio fora da sociedade para o poder público. Não para as pessoas, porque sempre que aparece, eles vêm. Você achou que a lei Aldir Blanc resolveu todos os problemas? Ajudou e muito, garantiu que a gente não sumisse mas tem que se pensar as especificidades da área. Então eu acho que é isso. Acho que veio muito disso sabe assim de muito tentar fazer gestão pública e privada entender que nós existimos na sociedade que nós temos no lugar que nós temos uma importância", conclui.

Nos próximos meses, o diretor da Casa da Ribeira indica que devem ser realizadas programações pelo menos uma a duas vezes no mês e ele convida os artistas a ocuparem o espaço. Sobre o retorno, garante ter sido melhor do que a expectativa, tanto pela venda de ingressos mas pela atenção do público. Do palco, Fontes reparou que, como solicitado, não percebeu ninguém tentando tirar a máscara, consumindo alimentos ou se distraindo no celular durante a apresentação. Todos os corpos pareciam estar presentes, juntos com eles, na experiência do teatro.

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