A dança macabra do Mandrião e a morte na soleira da nossa porta
Natal, RN 27 de mai 2024

A dança macabra do Mandrião e a morte na soleira da nossa porta

23 de setembro de 2021
A dança macabra do Mandrião e a morte na soleira da nossa porta

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O primeiro exemplo visual registrado do que ficou conhecido como “dança da morte”, é um mural perdido na parede sul do cemitério dos Santos Inocentes em Paris, que foi pintado em 1424–1425 durante a regência de João, duque de Bedford, no qual é vista a figura de um rei morto coroado. Muitos estudiosos interpretaram como uma crítica ao fato de que, na época, a França não tinha um rei coroado.

Os horrores mortais do século XIV, como fomes recorrentes, a Guerra dos Cem Anos na França e, acima de tudo, a Peste Negra, foram culturalmente assimilados por toda a Europa. A possibilidade onipresente de morte súbita e dolorosa aumentou o desejo religioso de penitência, mas também evocou um desejo histérico de diversão enquanto ainda possível; uma última dança como conforto frio. A Morte tornou-se figura permanente e presente na sociedade de então e chegou a ser vista como uma “parceira” da vida.

Passados cinco séculos, a pandemia de COVID-19 trouxe a Morte de volta ao convívio da humanidade, embora ela nunca tenha saído de perto de nós, mas a forma de como ela se manifestou, invadindo sociedades mais desenvolvidas e gerando uma onda de ignorância sem precedentes, muito mais profundo do que ocorreu no século XIV. E no BraZil o mensageiro da Morte tem a “coroa”.

Enquanto o presidente da república mostra sua face ao mundo, como um sujeito desqualificado e ensandecido, tomado pelo pavor de ser enquadrado em dezenas de artigos do Código Penal, além de julgamento internacional; o seu filho, Eduardo, chamado de “bananinha” por ser a representação mais clara do negacionismo fascista, ao delirar na Fox News, chamando o prefeito de Nova Iorque de “comunista”; o ministro da Saúde, o tal de Queiroga, fez gestos obscenos a manifestantes e reafirmou seu gesto no dia seguinte, está dentro de um quarto na cidade de Nova Iorque, vitimado pela doença que ele trata com total desleixo, o país fenece.

Nas últimas semanas o país parece ter sido tomado por um inexplicável otimismo com relação à pandemia, baseado em informações ufanistas de que “as coisas estão melhorando” e de que o número de mortos caiu muito em relação ao auge de tombamentos, no qual chegamos a mais de 2 mil mortes por dia. Os profissionais da saúde, responsáveis e preocupadas, tem falado no deserto, sobre a necessidade de permanecermos alertas. Poucos ou nenhum tem sido ouvidos e há um claro apelo para “retornar à vida normal”, como se fosse “normal” termos 592 mil mortos vitimados pela COVID-19.

O fato, macabro, é que as vidas das pessoas se tornou uma variável aparentemente secundária, na medida em que tem sido revelada que empresas operadoras de saúde, conselhos corporativos, os tais “influenciadores digitais”, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, governadores e muitos agentes políticos, se dobraram ao “mundo paralelo” dos “cloroquinistas” e defensores do “tratamento precoce” e, com o “relaxamento social”, esse discurso volta com força, agora travestido de frases como “vamos viver a vida”.

E, mesmo com a vacinação, iniciada tardiamente e cheia de “buracos”, chegamos a escandalosos 39,1% da população vacinada, ou seja, temos muito a percorrer e muitos festejam os 69,1% que tomaram a primeira dose, como se fosse algo extremamente positivo, o que significa a permanência de uma situação preocupante. Mas a economia, mais do que as pessoas, parecem ter adquirido uma importância tal que a vida se tornou, senão secundária, pelo menos importante do que os negócios.

Sim, os negócios. Sem governo e sem ajuda, milhares de pequenos negociantes sumiram, foram dizimados, pelos efeitos catastróficos da pandemia, mas não se pode cravar na COVID-19 as milhares de falências, mas sim ao governo federal, que nesse momento deveria ter auxiliado esses pequenos negociantes a sobreviver, o que significaria manter, na medida do possível, os empregos. O governo fez ao contrário. Protegeu, entre aspas, quem demitiu; permitiu o encolhimento da renda das pessoas, o que obviamente fez diminuir o consumo; agiu como promotor da “destruição econômica”, talvez tomado pela visão de um “dilúvio econômico”, que faria ressurgir, para os mais fortes, a “nova economia”. Um despautério que gerou o que estamos vivenciando.

Nos últimos sete dias 531 pessoas morreram diariamente vitimadas pela pandemia, e nas 24 horas entre terça e quarta-feira (21 e 22/09) foram 876 os mortos, ou seja, tomando a média dos últimos sete dias em um mês são mais de 2.000 mortes mensais, número ainda bastante elevados e até que esteja num “patamar aceitável”, como se alguma morte por pandemia fosse aceitável, muitos ainda tombarão. E, há medida que há um visível relaxamento das pessoas com relação à proteção de suas vidas, o contágio parece que não vai sumir como mágica e, nesse cenário, ignorar os já sequelados, muitos deles por toda a vida, é “apagar” o futuro de milhões de indivíduos que deverão procurar o setor público de saúde para obter ajuda, impactando o SUS.

Estamos, ainda, com a certeza da incerteza, mas que parece certeza. A Morte ainda se esgueira na soleira da nossa porta e respeitá-la, mas do que apenas temê-la, é fundamental para que ela não entre na nossa casa e, para isso, precisamos nos livrar do seu maior Mensageiro, aquele ungido pelos fanáticos como “mito”.

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