Bolsonaro & seu eleitorado raiz: uma paixão avassaladora! 
Natal, RN 23 de jul 2024

Bolsonaro & seu eleitorado raiz: uma paixão avassaladora! 

19 de outubro de 2021
Bolsonaro & seu eleitorado raiz: uma paixão avassaladora! 

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Como quem me lê e acompanha sabe, sou sociólogo de botequim. Com umas poucas cervejas, um tira gosto e algum papo, começo a desenvolver teorias sociológicas a mil. Uma delas, que já dissertei neste espaço de maneira vaga, diz respeito que o bolsonarismo não é um movimento político nem mesmo ideológico, como muita gente de Esquerda chega a pensar, mas, antes de tudo um processo de identificação e, por que não dizer?, uma história de paixão!

Sim, é isso mesmo, nem você leu errado nem eu exagerei nas cervejas ao gerar este raciocínio. Na verdade, todos nós sabemos disso, apenas não parece ser usual explicitar este fenômeno. Senão, vejamos: Devoções políticas nascem do conjunto de obras e da biografia do ente político admirado, goste-se dele ou não, seja pela resiliência em ficar décadas preso de um Nelson Mandela, da guerrilha até a tomada do poder como fizeram Fidel Castro e Che Guevara, por representar os anseios de uma classe, como Getúlio Vargas, Juan e Eva Perón, por diminuir desigualdades sociais e possibilitar inclusão social como jamais vistas no país, como Lula. Ou seja, para se tornar algo de devoção, o líder político apresentou uma folha corrida de ações ou serviços. É como funciona.

No caso de Jair Messias Bolsonaro, antes de assumir a presidência da República, pouco ou nada havia apresentado durante 20 anos como deputado federal. Ganhara destaque por declarações homofóbicas, machistas e racistas, por dizer que FHC deveria ter sido fuzilado, por eleger seus filhos para cargos legislativos. E só. Eleito presidente após um golpe e a  prisão sem provas do candidato que liderava as pesquisas, governa até hoje sem ações, sem obras, sem ter enfrentado a contento à pandemia e a crise econômica, deixando um saldo de 600 mil mortos por Covid e uma inflação que nos trouxe a fome novamente e colocou a gasolina a 7 reais o litro e o gás de cozinha a 100 reais.

Ainda assim é chamado de "mito" pelos seus apoiadores e conta com apoio/voto de 25% a 30% da população. Sabe-se hoje que esse núcleo duro dificilmente deixará de votar em Bolsonaro ainda que o próprio confesse crimes ou assassine alguém em praça pública (dirão que trata-se de uma pegadinha ou teste de fidelidade do mito). Ou seja, a gasolina pode subir para 10 reais, as pessoas podem desmaiar de fome pelas ruas, o dólar pode subir para 8 reais (alô Paulo Guedes e Pandora Papers!) que esse pessoal continuará classificando os críticos do Messias de "comunistas" e estarão prontos para morrer com ele na tentativa de fechar o STF, todos de camisa amarela da CBF no corpo.

Parece insano ou enigmático entender isso. Não. Trata-se, como defendeu o título deste texto, de paixão. O eleitor raiz de Bolsonaro, aquele que vai com ele até o final, é apaixonado pelo seu ídolo. Uma paixão mesclada com identificação, como, aliás, reza a cartilha de todo bom amor medieval. Os apaixonados sempre tinham coisas em comum, afinidades, vide Romeu & Julieta, Abelardo e Heloísa, Davi & Betsabá. Isso dos opostos se atraírem é coisa dos tempos modernos. E como se sabe, o bolsonarismo flerta com a idade média, denominada, como se sabe, de Idade das Trevas e não por acaso.

No caso, os apoiadores do Jair desenvolveram por ele não uma admiração política, um reconhecimento pelo currículo, mas uma paixão irracional (redundância já que é da natureza da paixão, filosoficamente falando, o ser) pela identificação. Seus apoiadores descobriram (ou intuíram) em medidas diferentes, que ele representa o que eles são: machistas, racistas, homofóbicos, truculentos, desejosos de um mundo anacrônico onde minorias podem ser subjugadas e onde impera a lei do mais forte (sempre eles, claro, até porque armados).

Essa questão da paixão escorregou até mesmo para o cotidiano, para as coisas mais triviais. Ou ninguém percebe que de 2018 para cá, homens que tinham interesses diversos (futebol, basquete, automobilismo, dominó, mercenária, boliche, peteca, selos, frescobol) e os divulgavam, reduziram drasticamente tais prazeres para se dedicar a divulgar "o mito". Não escrevo isso de forma leviana. Já fiz o teste. Pelo menos em dez oportunidades já conferi a timeline nas redes sociais (principalmente Facebook, polo maior do ódio da meia idade) de amigos e conhecidos que sei bolsonaristas e lá está: Das últimas dez postagens de praticamente todos, quase a totalidade de apoio a Bolsonaro ou de ataques a Lula e ao PT, que na melhor das hipóteses, é uma ação bolsonarista.

Ou seja, voltando ao campo das paixões, homens que eram apaixonados por Fórmula 1, por falar de futebol, abdicaram de divulgar tais aspectos da vida e se voltaram para a paixão maior deles: Jair Bolsonaro. Ouso dizer que alguns se referem a Bolsonaro com uma paixão que deveria ser reservada às suas namoradas e esposas, aliás, quase invisíveis nas postagens deles, da mesma forma que as mulheres do clã Bolsonaro são quase invisibilizadas na luta cotidiana do clã contra o PT, os comunistas, o STF, o gayzismo etc etc.

Uma pena que isso tenha acontecido com tanta gente (estamos falando de milhões de pessoas). Mas é o que temos e é ingenuidade achar que isso não terá um peso eleitoral. No fim das contas, começamos o texto com botequim e vamos terminar com filosofia grega. Mais exatamente a de Platão, quando fala pelo discurso de Lísias: "A paixão é um estado de insanidade e descontrole sobre os sentimentos, o que acaba por afetar o bom julgamento das pessoas, tornando os amantes cegos e incapazes de tomar decisões racionais, com as quais possam concordar quando estiverem com sua sanidade mental supostamente retomada". Que retomem antes de outubro de 2022. Mas, não vamos contar com isso.

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