OPINIÃO

Fale agora ou lamente para sempre

A cidade que habito tem maus hábitos. Um deles é o de reclamar de fatos consumados, sobre os quais não mencionou qualquer palavra quando ainda eram apenas possibilidades. Mas agora já certos, irreversíveis, ela se dedica a um falatório tardio. É uma vocação teimosa (e sem fim) para viver em choro pelo leite derramado.

Foi assim que muitas intervenções na sua paisagem avançaram ao som do silêncio e hoje são fontes de queixa. Coisa de quem permite escapar pelas mãos o poder que é seu de decidir. E então os homens usam a caneta como querem. Não há precisão de ouvir as ruas. Um dia elas se ocuparão em falar. No dia em que já for tarde e a cidade que habito possa, mais uma vez, honrar com a sua tradição.

Essa mudez tem uma vítima recorrente. Pois Ponta Negra porta provas do quão nociva é a teima do calar. A praia é o seu melhor postal, mas já foi “prostíbulo” e afastou os locais dos bares da rua de baixo. Seus espigões, razão de escândalo, são assunto que ainda incidem “impacto”. Hoje, é abrigo de ratos. São os que mais usufruem da orla: enquanto se ouve lamentos sobre as barreiras de proteção, eles se divertem. E se multiplicam, em proporção similar.

Mas eis que o destino se arma para desafiar Natal e as suas teimosias. É que a cidade que habito terá uma chance de contrariar tamanha vocação. De Fortaleza e Camboriú, chegam os alertas que interessam. Sobre as consequências severas de uma intervenção prestes a ocorrer por aqui. Pois a mesma engorda prevista para breve trouxe mais que areia para as praias em questão. No Balneário, os tubarões encontraram caminho para chegar ao raso. Já em Iracema, banhistas agora se afogam com mais frequência, pois novas correntes trataram de agitar o seu mar.

São informes capazes de acordar uma cidade que cochila. Para que não haja um novo encontro com a sua versão cansativa e de costume. Nada se ouve sobre o que os milhões investidos na engorda vão de fato nos custar. As consequências outras, após feita a intervenção. Porque nada se pergunta. E os homens seguem com as suas canetas. A postos. Fazem à revelia. Mas os alertas são claros e exigem estudos, debates. Exigem explicações.

A polarização insistente, que avança sobre a racionalidade com todo o seu entusiasmo, vai tratar de politizar a pauta. Mas se engana quem pensa que é assunto que admite apenas dois lados. São muitas as possibilidades de erros e acertos. Seguir adiante nesse mar de incertezas é risco a não correr. Pois nem tudo admite correção. E o seu custo pode torná-la inviável.

Ponta Negra é lazer democrático. Apesar de maltratada, serve com beleza e água morna natalenses e visitantes. Se não por mudança de consciência, que se faça então um esforço por gratidão. Por quem sempre atendeu aos caprichos de todos, mesmo tendo a sua natureza ao longo dos anos ignorada. A faixa de areia ampliada seduz, mas saber o que esse feito impõe é dever de quem dela desfruta. Pois tubarões não costumam se esconder como ratos e correntes podem levar mais de nós do que apenas a boa fama.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo