Prevenção ao suicídio da população LGBTI+: é preciso falar e resistir
Natal, RN 3 de mar 2024

Prevenção ao suicídio da população LGBTI+: é preciso falar e resistir

2 de outubro de 2021
Prevenção ao suicídio da população LGBTI+: é preciso falar e resistir

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Uma luta diária. Essa não é uma opção, mas um imperativo de vida para quem entende que não pertence à “normatividade”. Para continuar viva, a população de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais precisa “falar e resistir”. É o que afirma a psicóloga Vanessa Morais, que pesquisa a tentativa de suicídio entre a população LGBTI+.

Como mulher, nordestina, lésbica, psicóloga e pesquisadora, Vanessa está buscando pessoas que se reconhecem como LGBTI+, já vivenciaram alguma tentativa de suicídio e queiram compartilhar as experiências.

Para a pesquisadora, uma “possibilidade de manifestar existências, de ser clareira para iluminar as não-existências que padecem apagadas”. Um estudo feito pelo The Trevor Project, maior organização do mundo relacionada à prevenção de suicídio na população LGBTI+, aponta que a aceitação e o acolhimento diminuiriam em 40% a chance de uma tentativa de suicídio.

A pessoa LGBTI+ não é só um corpo, não é só um dado, uma estatística. É preciso que essas pessoas não sejam só números de assassinatos e suicídios, se faz urgente que elas falem, que elas apareçam, que contem sua história”, afirma Vanessa Morais.

Confira entrevista completa:

Como surgiu a ideia de trabalhar os casos de suicídio na comunidade LGTBQI+?

Eu participei de projetos de iniciação cientifica e extensão à comunidade na graduação durante quase todo o curso de psicologia, estudando a temática do suicídio de forma geral e entre universitários. No estágio final do curso de psicologia eu fazia atendimentos psicoterápicos na Clínica Escola da UFRN (Campus Santa Cruz/RN) e paralelamente estava me preparando para a seleção do mestrado construindo o projeto. Pretendia continuar estudando o suicídio, mas ainda não tinha um recorte populacional específico. Em meio aos atendimentos surgiu uma enorme demanda de jovens que se reconheciam LGBTI+ com um sofrimento muito intenso, ideação/tentativa de suicídio e automutilações. Durante essa experiência de estágio entendi que é preciso estudar essa temática, contornar as bordas desse sofrimento tão invisibilizado. Eu que sou uma jovem mulher, nordestina, lésbica, psicóloga e pesquisadora, vi no mestrado a possibilidade de falar e resistir.

Acho importante nomear minha vida como uma vida LGBTI+, dentre tantas que foram invisibilizadas e silenciadas ao longo da história.

O mestrado é uma das etapas para a obtenção de um título, mas o sentido dele para mim vai além. Vi nele a possibilidade de manifestar existências, de ser clareira para iluminar as não-existências que padecem apagadas. Entendendo que certas exposições são rompimentos de ciclos silenciosos e, principalmente, são atos políticos que podem subverter a ordem de um sofrimento.

O que este trabalho objetiva apresentar e como está sendo realizada a pesquisa?

O objetivo é compreender a experiência de pessoas LGBTI+ que sobreviveram a uma tentativa de suicídio. Quais os sentidos na história de vida dessas pessoas levaram a atitude de não mais viver?  As entrevistas serão abertas, por meio de narrativas e aconteceram em espaço sigiloso preservando a identidade do participante.

A pessoa LGBTI+ não é só um corpo, não é só um dado, uma estatística. É preciso que essas pessoas não sejam só números de assassinatos e suicídios, se faz urgente que elas falem, que elas apareçam, que contem sua história.

Qual a relação entre suicídio e questões estruturais como a desigualdade social e a LGBTfobia? Como esses elementos se relacionam? A justiça social é um ponto central para discutir a prevenção ao suicídio no Brasil?

É preciso refletir criticamente a respeito do sofrimento existencial na contemporaneidade e como o homem constrói suas relações de sentido, tendo em vista que as condições econômicas, históricas, sociais e culturais participam do processo de construção de quem nós somos e também das expressões do sofrimento humano. Para que se possa entender o suicídio é preciso olhar para um todo, que se manifesta de maneira singular, mas que carrega uma dimensão universal, histórica e política. O suicídio seria um sofrimento ético-político que aparece à medida que estabelecemos relações com o mundo, o qual é atravessado estruturalmente por relações de poder e opressão arraigadas na sociedade. Que sofrimento é esse? O quanto esse tipo de violência sofrida pela população LGBTI+ que resulta em sofrimento ético-político levam a uma negação dessas pessoas? Impossibilitam-nos de ser e existir?

É sempre importante lembrar que o sofrimento da população LGBTI+ é carregado de uma história de violências especificas destinadas a um modo de ser que se desvia de uma norma padrão construída socialmente.

Idealizações e tentativas de suicídio nessa população podem estar relacionadas a alguns fatores, como: não se enquadrarem em termos de comportamento e orientação sexual ao padrão hegemônico fixado social, cultural e historicamente; estarem inseridos em um contexto de preconceito, discriminação, sofrimento e adoecimento; por não se sentirem pertencentes a uma realidade dada.

O suicídio entre a população LGBTI+ é também um possível reflexo da nossa atual forma de política de Estado, que é aquela de eliminação dos descartáveis, uma necropolítica, ou seja, uso do poder social e político para decretar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer, o que é muito próprio do modelo liberal atual. Há indivíduos que são descartáveis e a população LGBTI+ se enquadraria nessa classe. Há indivíduos que ou a gente mata ou eles são deixados para morrer, nesse sentido o suicídio aparece também como imagem de anomia social. Ora, se a princípio o Estado garantiria a vida e os laços sociais, na atualidade ele se assume como um Estado de extermínio, onde ele vai eliminar os descartáveis ou ele vai deixar os descartáveis morrerem. É possível então incluir o suicídio como uma categoria de análise dos sofrimentos sociais a partir do momento em que o consideramos como evento social e cultural: o suicídio é um ato comunicativo que diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Uma sociedade racista, LGBTfóbica, misógina, preconceituosa e violenta.

A normatividade achata as possibilidades de singularidades de pessoas LGBTI+, que são destituídas cotidianamente pelas suas existências, são destituídas de um pertencimento social e familiar, são constantemente desqualificadas e injustiçadas. Isso gera perda de sentido e muito sofrimento. Logo, pensar em prevenção do suicídio não pode ser uma ação descolada dos processos estruturais da sociedade em que vivemos.

Quando se trata da comunidade LGTBQI+, naturalmente marginalizada dentro das estruturas e ambientes sociais, os transtornos psicológicos ganham destaque, principalmente devido aos gatilhos externos, como a própria LGBTfobia e a relação com a família. De acordo com o relatório observatório das mortes violentas de LGBTI+1 no brasil, em 2020, dos 237 LGBTQI+ mortos, 13 foram decorrentes de suicídio. Como mudar essa realidade? O que há de mais urgente a fazer?

É urgente a construção de políticas públicas para a população LGBTI+. Para uma vida não vivida, para uma vida mortificada, as polícias públicas precisam ser outras. Tampouco não adianta defender a valorização da vida e ser a favor da pena de morte, da tortura. Ou compactuar com projetos como “Escola sem partido”, que defende a censura ao pensamento crítico, proibindo o debate nas escolas sobre sexualidade e diversidade. Ou ainda ser a favor da “cura gay”; ter a união estável aprovada, mas não regulamentada; ser contra a adoção de criança por parte de casais homoafetivos; ser contra a doação de sangue dos homossexuais; desqualificar o uso do nome social pela população Trans. Poderíamos citar inúmeros tensionamentos que ainda precisam ser feitos para produzir políticas públicas afirmativas e especificas para a população LGBTI+.  Pensar e construir políticas públicas de saúde, assistência, moradia e educação não é um trabalho apenas técnico, mas político. E esse trabalho não pode ser desvinculado da defesa e do reconhecimento do ser e do existir de qualquer ser humano. Aqui podemos refletir e questionar: por que é tão difícil reconhecer certas vidas? Por que se questiona tanto direitos específicos para populações que são tomadas como minorias no processo político? O sofrimento de quais vidas o Estado reconhece? É preciso, não só, que queiramos que pessoas LGBTI+ não morram, mas, sobretudo, que elas tenham uma vida que vale a pena ser vivida.

Discutir e elaborar políticas públicas especificamente voltadas para a população LGBTI+ e continuar com o grande debate sobre a despatologização da homossexualidade, criminalização da LGBTIfobia, saúde mental LGBTI+, dentre outras pautas importantes, podem ser ferramentas para se construir caminhos de cuidado e garantia de vida.

Para além dos números, a pesquisa irá trabalhar histórias. Como você pretende acessar esses relatos?

Estamos no momento da pesquisa divulgando o convite nas redes sociais, coletivos e mídia, para as pessoas LGBTI+, que estejam nos critérios de inclusão da pesquisa e se interessem em participar, possam entrar em contato. Marcaremos dois ou mais encontros que terão o objetivo de ouvir essas histórias e proporcionar também um espaço de acolhimento para essas pessoas.

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