DEMOCRACIA

Eleições do Chile: Cientista político explica porque a extrema-direita avançou no país e quais as chances da esquerda no 2º turno

O plebiscito para a nova Constituição, que está em processo de elaboração no Chile, corre um real perigo se o candidato de ultra-direita José Antonio Kast vencer o 2º turno das eleições, confirmadas para 19 de dezembro.

A avaliação é do cientista político Ernesto Águila, diretor da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile.

Um dos analistas de política mais respeitados do país, Águila acredita que o avanço da extrema-direita após as históricas manifestações de 2019, simbolizada na figura do extremista Kast, tem relação com a descrença dos chilenos nos partidos e nos políticos, fruto de 40 anos de neoliberalismo no país.

Kast e Gabriel Boric disputam o 2º turno numa espécie de plebiscito entre dois projetos distintos: o primeiro aprofunda ainda mais o neoliberalismo no Chile; já o segundo aposta numa reformulação e prevê a criação políticas sociais para reduzir as desigualdades que saltam aos olhos nas ruas de Santiago e demais cidades chilenas.

A diferença entre Kast e Boric no 1º turno foi apenas 2,1%, o que deixa indefinido o pleito.

A agencia Saiba Mais/ComunicaSul conversou com Ernesto Águila na terça-feira, 23 de novembro, sobre o significado do 1º turno e as perspectivas para o tira-teima entre o representante da ultra-direita e o candidato que reúne da Frente Ampla e o Partido Comunista do Chile.

Dois dias depois da entrevista, o terceiro colocado nas eleições, Franco Parisi, declarou que “no Chile não há espaço para a extrema-direita”, sinalizando apoio em Boric, um dos líderes dos protestos que sacudiram o país em 2019. O engenheiro e economista Parisi teve 12,8% e ganhou fama por fazer programas no rádio e na TV sobre economia. Ele surgiu surfando na anti-política e os eleitores dele podem fazer a diferença no 2º turno.

Confira a entrevista:

Agencia Saiba Mais/ComunicaSul: O que significa um 2º turno no Chile entre o ultra-direitista José Antônio Kast e o progressista Gabriel Boric, num contexto pós-manifestações de 2019 ?

Ernesto Águila: Essa eleição pode ser a superação do modelo neoliberal e da constituição política vigente desde a época da ditadura. A convulsão social e a elaboração do novo texto da Constituinte tiveram o predomínio da esquerda e dos movimentos sociais. Por isso surpreende que apareça com tanta força um candidato de extrema-direita. Agora o mal-estar social que foi expresso em outubro de 2019, a raiva por trás desse mal-estar, mostrou que a sociedade não está politizada numa direção única, mas há suscetíveis leituras e interpretações do que foram as manifestações. E pessoas populistas de extrema-direita tem avançado em vários lugares do mundo, como no Brasil, por exemplo. O movimento social (de 2019) foi na direção progressista, mas pode ser capturado por uma visão conservadora e autoritária. A sociedade chilena está muito exausta, cansada, e uma demanda social por ordem aparece forte. E o populismo de direita e de extrema-direita se encontram fortes também.

“O mal-estar social que foi expresso em outubro de 2019, a raiva por trás desse mal-estar, mostrou que a sociedade não está politizada numa direção única, mas há suscetíveis leituras e interpretações do que foram as manifestações”.

 

É o que explica a votação do José Antonio Kast, como o candidato mais votado no 1º turno ?

Efetivamente, parte dessa insatisfação por uma condição econômica, social e política da sociedade vem de uma profunda desconfiança dos partidos políticos e dos políticos. E, portanto, o surgimento de um líder como Kast, que vem com um discurso direto e uma atitude direta, a sociedade o vê como outsider, como alguém que está por fora da classe política. Foi deputado dois, três períodos, criou seu próprio partido e está possibilidade com possibilidade de vencer. É um franco atirador. Ele não aparece absorvendo as críticas que a classe política sofre.

E o Gabriel Boric ?

É um político jovem, da primeira geração do Chile que se destacou por lutas sociais, que não participou de nenhum governo e que também é visto como alguém que está está fora da classe política. Os partidos mais tradicionais saíram muito golpeados. Kast e Boric representam a regeneração da representação política. E ainda tem a questão da baixa participação popular, na qual 50% da população não vota e 50% vota.

“Efetivamente, parte dessa insatisfação por uma condição econômica, social e política da sociedade vem de uma profunda desconfiança dos partidos políticos e dos políticos”.

Quem, entre Kast e Boric, têm mais chances de conquistar o eleitorado dos demais candidatos ou daqueles que preferiram não votar no 1º turno ?

Creio que a direita tradicional vai no caminho de Sebástian Sichel, uma direita que deve se apegar a Kast, que apresentou um programa muito extremo em matéria de mulheres, diversidade sexual. É um programa muito neoliberal e muito conservador. Kast indica aspectos do que foi a ditadura de Pinochet e a direita mais tradicional deve formar com José Antonio Kast. Por outro lado, Yasna Provoste deve apoiar Boric. A grande incógnita é para onde vão os votos do 3º colocado, Franco Parisi.

Como explicar tamanho apoio dos chilenos a um candidato cheio de processos na Justiça e que fez campanha morando nos EUA ? Na sua avaliação os eleitores dele vão apoiar Kast ou Boric ?

Parisi teve quase 13% dos votos e fez uma campanha sui generi, foi o candidato que mais surpreendeu. O voto em Parisi não é um voto de direita, mas do eleitor despolitizado. É um eleitorado muito volátil. É muito imprevisível esse eleitorado porque é um voto de protesto. O 2º turno será uma grande incógnita na eleição chilena.

Há uma percepção no Chile de que o povo está mais entusiasmado com a nova Constituinte do que com as eleições presidenciais. Aliás, o plebiscito por uma Constituição teve mais participação popular do que o 1º turno das eleições. Como explicar ?

Creio que efetivamente a votação no plebiscito foi maior porque as pessoas pressentem que podem mudar o futuro. Numa eleição presidencial se buscam soluções mais concretas. Num plebiscito se vota por algo, e não por alguém, por uma pessoa. Creio que, neste momento no Chile, é muito fácil encontrar segmentos da população que se dizem desiludidos com a política. Então é melhor votar por uma causa do que por alguém. Por isso no plebiscito teve muito mais participação. Mas no 2º turno pode ser que aumente a participação.

É possível mobilizar mais chilenos para saírem de casa no 2º turno ? Na sua avaliação, qual deve ser a estratégia para levar mais pessoas às urnas ?

Boa pergunta. Com o sistema de voto voluntário, varia, em cada eleição, o número dos que votam e dos que não votam. Agora, no 1º turno, foi 50% do eleitorado que não votou e não é fácil atrair as pessoas para as urnas. A grande maioria se perde na desconfiança, na decepção com a política, se perdeu na representação política. No fundo, o Chile é uma sociedade muito deteriorada, há uma crise que faz com que os chilenos não se sintam parte de um projeto comum. Foram 40 anos de aplicação do modelo neoliberal. Também gerou uma mentalidade individualista, arraigada, as pessoas não se veem muito parte de um projeto coletivo, solidário. Não que não precisemos, mas é uma sociedade muito mercantilista, mediada pelo mercado. Mas é preciso convencer o povo de que a solução passa pela política. Creio que é preciso devolver a confiança e a esperança de que a política pode resolver o problema. E passa pela regeneração da classe política.

“Creio que efetivamente a votação no plebiscito foi maior porque as pessoas pressentem que podem mudar o futuro. Numa eleição presidencial se buscam soluções mais concretas”.

Em entrevista à imprensa local do Chile, o senhor disse que a campanha de Gabriel Boric precisa estar “afinada”, construir e firmar compromissos específicos com cada região e território. O que significa isso ? O que o Boric deve fazer na sua opinião para ganhar as eleições ?

Fiz uma alusão a uma comuna no Chile chamada Ñuñoa, na qual as forças de esquerda e Boric têm muito apoio, uma comuna de classes médias abastadas e esclarecidas. A campanha exige sair dessa comuna e do que se expressa social e culturalmente. Vá para outros territórios e realidades. E uma proposta é firmar compromissos com cada região em particular. Compromissos concretos e específicos adequados a cada realidade.

Os chilenos chamam José Antônio Kast de “o Bolsonaro chileno”. Quais as principais semelhanças entre os dois ?

Muitas semelhantes. Os dois surgem líderes em meio a uma crise do sistema político representativo tradicional, com discurso de que não temem ser politicamente incorretos. No caso do chileno, parecido com a extrema-direita da França, há um forte apelo anti-imigração, o que aumenta o temor dos estrangeiros, alvo de quem supostamente defenderia o que seria de interesse do país. Esse discurso encontra eco em setores populares. Minha impressão é que Kast é mais um produtor pinochetista. A combinação de Kast é um programa ultra-neoliberal. Ele propõe baixar imposto num país em que há necessidade de arrecadar impostos para políticas sociais. É um católico que se conecta com o movimento evangélico também. Politicamente tem programa autoritário, que persegue a ideia e a tinta opositora. Além do neoliberalismo economico, conservador e autoritário, o tema da mudança climática também parece com Bolsonaro, de respaldar e não questionar política contra a pandemia. Minha impressão de que Bolsonaro é mais dispuptivo que Kast. Kast tem outra procedência também, vem de formação profissional católica conservadora, mas os dois estão na mesma corrente internacional anticomunista. O discurso do 1º turno foi assim e agora para o 2º turno ele já fala em “libertar”. Essa é um pouco da retórica. Os dois tem o mesmo projeto.

“No fundo, o Chile é uma sociedade muito deteriorada, há uma crise que faz com que os chilenos não se sintam parte de um projeto comum. Foram 40 anos de aplicação do modelo neoliberal. Também gerou uma mentalidade individualista, arraigada, as pessoas não se veem muito parte de um projeto coletivo, solidário. Não que não precisemos, mas é uma sociedade muito mercantilista, mediada pelo mercado. Mas é preciso convencer o povo de que a solução passa pela política”.

É exagero dizer que tanto Bolsonaro como Kast tem projetos fascistas ?

A sociedade chilena domina pouco o tema do fascismo. É um termo usado muito pela esquerda e que mobiliza esse setor. Mas mais que adjetivar tanto Kast como Bolsonaro o importante é explicar quais são os retrocessos para a liberdade, para economia, para as questões sociais que ambos representam. É preciso combater o tema do imaginário político. Mas é um populismo de caráter fascista. É uma discussão em termos de estratégia política. A verdade é que a adjetivação de fascista não é nenhum fenomeno.

O vencedor das eleições presidenciais no Chile pode influenciar no resultado da nova Constituição ?

Sim, terá importancia. São dois projetos distintos. Kast boicotaria a nova Constituinte, enquanto Boric a protegeria. O plebiscito para a nova Constituicão corre um real perigo se Kast ganhar. Já Boric vencendendo asseguraria que o processo terminaria igual como começou. E se a nova Constituição não for aprovada será um desastre político imenso.

“Minha impressão é que Kast é mais um produtor pinochetista. A combinação de Kast é um programa ultra-neoliberal. Ele propõe baixar imposto num país em que há necessidade de arrecadar impostos para políticas sociais. É um católico que se conecta com o movimento evangélico também. Politicamente tem programa autoritário, que persegue a ideia e a tinta opositora”.

Kast é um defensor da ditadura de Pinochet. A eleição dele representa alguma perigo à democracia chilena ?

Kast representa um retrocesso à memória histórica do Chile. Um retrocesso em termos culturais para a democracia. Não sei se ele daria um golpe, não sabemos. Há muitos dirigentes. O movimento em defesa da democracia é maior, mas efetivamente seria para o Chile uma incursão conservadora, autoritária e de consequencia política muito importante. Kast delimitaria a democracia chilena e isso eu creio que já está em seu programa. Há um forte componente autoritário frente aos problemas sociais.

A eleição do Chile pode influenciar nas demais eleições da América Latina, incluindo o Brasil ?

Um derrota aqui no Chile da extrema-direita significa ser uma potente vitória para os movimentos populares da América Latina. Do contrário, Kast poderia estimular uma regressão autoritária na região.

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"