Moro candidato pode ser a esperteza que vira bicho e engole o dono
Natal, RN 24 de mai 2024

Moro candidato pode ser a esperteza que vira bicho e engole o dono

9 de novembro de 2021
Moro candidato pode ser a esperteza que vira bicho e engole o dono

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Esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono. A frase, que tem variantes diversas (a esperteza quando muita devora o esperto, por exemplo), é atribuída a Tancredo Neves, mas na verdade é um ditado português que pegou mesmo é no Brasil, país de espertos, como sabemos.

E exemplos que se encaixem no dito popular não faltam na história do Brasil. Mesmo gênios políticos como Carlos Lacerda e Jânio Quadros poderiam ilustrar em dados momentos da vida deles a essência da frase. Mais recentemente, Eduardo Cunha com uma Câmara Federal nas mãos pilotou o impeachment de Dilma e depois caiu em desgraça, sendo cassado e preso.

Mas a frase foi pinçada aqui para se referir a Sérgio Moro. O ex-juiz que quando magistrado virou capa das revistas e herói nacional pelo "combate à corrupção" e condenou sem provas o ex-presidente da República que liderava as pesquisas de intenção de voto.

Ainda com status de herói da pátria, começou a ser questionado quando em dezembro de 2018 aceitou convite do então presidente eleito Jair Bolsonaro para ser ministro da Justiça. Para gente antipetista mas sensata, parecia estranho que um juiz que condenasse um candidato à presidência aceitasse ser ministro daquele que foi o maior beneficiado pela prisão.

Numa passagem sem brilho, acabou conflitando com os interesses da família Bolsonaro e viu o barco furado onde havia se metido no sonho de ser indicado ministro do STF. Saiu de forma esquisita e também sem brilho, anunciando denúncias explosivas que não passaram de traque. E isso tudo sob o efeito da "Vaza Jato", a série de reportagem publicadas pelo The Intercept Brasil que mostravam diálogos suspeitíssimos entre juiz e membros do MP.

Tendo abdicado do cargo de juiz e sem ministério, o "conje" da ilustre Rosângela decidiu mergulhar e prestar suspeitas consultorias para empresas e morar nos EUA, mais sintomático impossível. E eis quando todos pensávamos que Moro começava discretamente sua trilha para a lata de lixo da História, o cidadão, certamente chamuscado pela fogueira das vaidades, aceita ser a tal "terceira via" e tentar disputar a presidência da República.

Contra quem? Bolsonaro, a quem ajudou a eleger e de quem foi ministro; e Lula, a quem prendeu.

Moro divulgou que assinará sua filiação ao Podemos em 10 de novembro, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. O evento é visto como o pontapé inicial para a possível pré-candidatura à Presidência da República em 2022. Na última pesquisa PoderData, Moro tinha 8% das intenções de voto, mais do que Ciro e atrás apenas de Bolsonaro e Lula, que polarizam a disputa.

Sou dos que deseja ver o ex-juiz candidato. Sonho em ver aquela voz irritante e aquelas pausas de "éééééé" nos debates com Boulos, Ciro e o próprio Lula.

Também será uma oportunidade de vir à tona a vaza Jato e as ações de Moro quando juiz parcial.

Sem falar que Moro já está arrastando para sua candidatura militares que estariam com Bolsonaro. Vai dividir parte da Direita. Sem falar que vai se tornar alvo fácil das fakes news e milícia digital do bolsonarismo, ainda sem controle pelo STF e TSE.

Em suma, a candidatura de Moro, se concretizada, em nada atrapalha Lula e ainda dará palanque para o petista lembrar da armação judicial que foi vítima e explorar os podres do MP. De quebra, dará trabalho para o bolsonarismo pois parte do eleitorado de direita tem simpatia por um bolsonarismo com verniz, o mesmo pessoal antipetista que sempre votou nos tucanos, por exemplo.

Mergulhado, Moro fica a salvo dos ataques. Pré-candidato, vai apanhar dos dois lados.

Sempre quis ser esperto demais. Será engolido pela própria esperteza, como no ditado. Que assim seja.

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