Sem pedido de sorologia, investigação de microcefalia em crianças fica comprometida no RN
Natal, RN 28 de mai 2024

Sem pedido de sorologia, investigação de microcefalia em crianças fica comprometida no RN

18 de novembro de 2021
Sem pedido de sorologia, investigação de microcefalia em crianças fica comprometida no RN

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As crianças que nasceram com microcefalia no Rio Grande do Norte depois da explosão de casos provocada pela chegada do vírus ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 podem estar, agora, com idade entre seis e sete anos. Como estão dispersos em diferentes programas dos governos federal, estadual ou municipal, além de centros de reabilitação e até de universidades, os dados sobre o desenvolvimento dessas crianças e a cobertura assistencial oferecida a elas acaba se perdendo nessa rede de informações.

Essas crianças foram acompanhadas por universidades. Não temos um caminho para que você percorra e identifique todas elas nos atendimentos porque, com o desespero de muitas mães na época, elas também procuraram as faculdades que até por uma questão de formação de seus alunos, tiveram interesse em atender essas crianças e criaram salas especializadas em atender essas crianças. Os Centros Especializados em Reabilitação também fizeram atendimentos, muitas também estão em atendimento no Centro de Reabilitação Infantil (CRI), no Hospital Onofre Lopes. Então, você vai encontrar essas crianças sendo atendidas em vários lugares, algumas até no Sara Kubitschek”, detalha Marilene Soares da Silva, Coordenação Estadual da Rede da Pessoa com Deficiência.

Enquanto em 2014 o RN teve quatro casos de recém-nascidos com microcefalia, em 2015, esse número saltou para 234. No ano seguinte, em 2016, o quantitativo continuou alto com 134 casos, mas já com o início de uma curva decrescente. Em 2017 foram 20 notificações, número bem menor que os anos anteriores, mas ainda fora do padrão normal existente antes da Copa do Mundo. Em 2018 foram 18 casos, 8 em 2019, 11 em 2020 e dois em 2021. Os dados foram reunidos pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), através da Subcoordenadoria de Vigilância Epidemiológica (Suvige).

No caso do Rio Grande do Norte, esse acompanhamento tem um problema crucial na investigação dos casos. A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) não consegue contabilizar quantos dos casos de microcefalia registrados no Estado são decorrentes do Zika vírus, já que o problema também pode ser provocado por outros fatores. A dificuldade é resultado da falta de um acompanhamento adequado ainda no pré-natal, agravada quando, na hora do parto, não é solicitada a sorologia ao se perceber que a criança tem uma má formação.

"Durante a gestação a mulher faz, no mínimo, pelo menos três exames de ultrassonografia. A má formação genética ou microcefalia deveria ser diagnosticada durante o pré-natal e temos observado ao longo do tempo que isso não está ocorrendo. Geralmente, quando a criança nasce é que se percebe que a criança tem uma má formação e, quando isso acontece, não estão sendo solicitados os exames específicos para diagnosticar a causa, inclusive, exames específicos para Zika. Se a mulher teve histórico de arbovirose durante a gestação, com aquela coceira no corpo e se mora numa região com registro de Zika, deveria se pedir durante a gestação os exames de Zika. Mas, se isso não foi feito e na hora do parto se constata que a criança nasceu com má formação, deve-se pedir os exames específicos para a Zika e isso não está acontecendo", alerta Irani Duarte, técnica da Vigilância Epidemiológica da Sesap.

É um problema que vem desde a falta de acompanhamento no pré-natal. Uma das dificuldades é a ausência da solicitação de sorologia para confirmação de infecção do recém-nascido com microcefalia, o que já está previsto no protocolo de atenção à saúde em resposta à ocorrência de microcefalia por Zika. O que acontece é que o pediatra não solicita, não sabemos o porquê. Ele precisa solicitar na hora do parto, só assim saberemos a origem da microcefalia”, acrescenta Humberto Tavares, enfermeiro e técnico em Vigilância a Arboviroses de Zika/ Suvige.

Recentemente, um mutirão chegou a ser realizado no Centro de Especializado em Reabilitação (CER), na cidade de Santa Cruz, por causa de uma peculiaridade que chamou a atenção dos pesquisadores: o fato de muitas mães que tiveram Zika durante a gestação terem dado vida a bebês saudáveis.

A pesquisa teve até a participação de um geneticista, que só tem um em todo o Estado. Eles estão estudando por que essas crianças não nasceram com microcefalia se em 2014 tivemos aquele boom”, adianta Marilene Soares.

Em Natal, atualmente, há 29 crianças com diagnóstico de microcefalia matriculadas da rede municipal de Ensino de Natal, segundo laudos encaminhados ao Setor de Educação Especial.

Casos de microcefalia no RN

2014: 4

2015: 234

2016: 134

2017: 20

2018: 18

2019: 8

2020: 11

2021: 2 casos

Fonte: Sesap
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