Já é reveillon no reino do luxo
Natal, RN 25 de mai 2024

Já é reveillon no reino do luxo

30 de dezembro de 2021
3min
Já é reveillon no reino do luxo

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Por Ana Cláudia Trigueiro

Meu Instagram já exibe fotografias das prévias de reveillon no Brasil das elites. É tanta comida e bebida cara, tanta roupa, sapato e maquiagem chique, tanto lugar paradisíaco a preço de ouro, que se já não tivesse rugas na cara, leituras na consciência e vivências na “cacunda”, eu me deprimiria.

Ranço de todos esses que aí estão pavoneando seus luxos desmedidos, seus exageros, suas poses hedonistas, sua alienação quanto ao sofrimento de quem mal tem o que comer ou está doente e sem remédio. Nenhum produto importado, incrustado de joias, exclusivo ou exótico, encobre a vergonha da compulsão consumista do mundo capitalista versão 2021. Quanta insensibilidade disfarçada de elegância e sofisticação! Não comento, não curto, não sigo e não alimento essa sandice.

A poderosa mensagem que as redes sociais deixam aos mais jovens com o circo almofadinha é que a felicidade está atrelada ao poder de consumo: “Eu sou feliz, se tenho o rosto e o corpo que a alta-roda diz que devo ter”. “Eu sou feliz postando o que compro nas redes, me expondo, perdendo o tempo que poderia ser dedicado a atividades relevantes, testando mil poses e escolhendo a que melhor exibe minha riqueza e sucesso”.

Enquanto isso, anônimos espalhados por esse país de meu Deus limpam suas casas e preparam suas próprias comidas para fazerem companhia aos idosos e doentes de suas famílias, batendo papo em ambientes simples, sem roupas luxuosas, sem bebidas caras, desfrutando somente do essencial a uma vida digna.

Quando estiverem nos seus quintais sob o céu estrelado, ou pisando a areia molhada da praia do seu bairro, ou observando do alpendre, a vastidão dos campos da zona rural (luxos que a natureza oferece de maneira gratuita), ninguém saberá que essas pessoas são exemplos a serem seguidos.

No dia seguinte, o primeiro de 2022, gerações inteiras terão perdido a oportunidade de receber as boas influências desses cidadãos, porque estarão prestando atenção aos que podem pagar por imagens que o nosso tempo transformou em ideal de vida.

Sinto muito em dizer: isso não salvará os mais vulneráveis; não os curará do seu desalento, não atenuará sua indignação, não transformará suas realidades. Isso só dirá subliminarmente que a pobreza extrema, a fome, a solidão, a dor, a falta de atendimento médico e a exclusão, são normais, aceitáveis e ninguém liga.

Feliz 2022!

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