OPINIÃO

Poesia para uma cidade de fronteira

* Texto publicado em jornal impresso no dia da poesia de 2012

Há alguns meses fui na cidade alta e notei que a casa onde a poetiza Auta de Souza havia vivido aqui em Natal tinha sido derrubada. Em seu lugar surgiu um amplo e vazio terreno baldio, movido pelo desejo de algum candidato a novo dono de estacionamento, em lucrar com o constante congestionamento das ruas do centro.

Hoje, no dia em que escrevo essa crônica, se comemora aqui e ali, nessa cidade balneário, o dia da poesia. Triste ironia essa que se lute pela poesia em um lugar que não sabe amar seus poetas.

Mas eu não vou brigar com Natal. Não é inteligente lutar contra o lugar em que se vive. Talvez tentar mudar uma coisa aqui, outra acolá, seja legal, mas se você se insurge contra o fundamento de um lugar, contra aquilo que constitui sua mais desconcertante essência, então você, leitor de boa fé, precisa urgentemente se mudar. Caso contrário, o lugar, essa linha no espaço, esse ponto no tempo, vai te destruir.

Natal é uma cidade de fronteira. Não porque esteja na costa (o mar não é uma terra estrangeira é um lugar de origem). Natal é uma cidade de fronteira porque fronteiras podem ser marcas traçadas no tempo.

Vivemos um paradoxo nessa cidade coberta por esse sudário de areia. Somos urbanos demais para sermos rurais e rurais demais para sermos urbanos. Estacionamos entre um sertão profundo e arcaico e um horizonte litorâneo que se descortina em um futuro sempre projetado, sempre esperado, sempre um passo à nossa frente.

Talvez, nossa grande particularidade, nossa especificidade nesse mosaico chamado Brasil, seja mesmo essa aflição dos indecisos, essa estranha impermanência em um espaço imaginário de modernidade, grudado por dentro a um imenso chão antigo e primal.

Se essa cidade fosse um poema, com certeza, estaria em alguma das páginas do Livro de Poemas, escrito por Jorge Fernandes e publicado em 1927.

Porque foi Jorge Fernandes quem melhor traduziu (ou transpirou) na forma da sua poesia, esse estado intermediário do povo de Natal. Somos uma tribo de matutos cosmopolitas, de sertanejos assustados com o mar. Somos, como os poemas de Jorge Fernandes, gente envernizada por uma sintaxe moderna, amarrados atavicamente à uma semântica antiga.

Talvez por isso tratemos tão mal nossos poetas. Porque eles, com o poder instaurador de uma linguagem que mostra aquilo que em nós ama esconder-se, acabam por nos fazer lembrar das indefinições que nos inventam.

Não gostamos de lembrar de nossos paradoxos. Talvez esteja ai, nesse desgosto, o motivo pelo qual transformamos tantos casarões antigos em estacionamentos. Precisamos sufocar dentro da gente as marcas do lugar de onde viemos. Esconder os rastros, apagar as pistas, esquecer por um momento, que nunca fomos modernos. Sentir, como se fosse verdade, que o futuro não é apenas esse verniz de signos que se projeta sobre o horizonte da cidade mas sim um campo amplo de memórias recriadas que, tal qual o abismo do mar, nos assombra com seus monstros submersos.

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Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.